Estava eu no meu quarto quando começei a ouvir gritos vindos da sala, de novo… outra discussão. É quase sempre nestas alturas que ele aparece, o meu irmão e meu melhor amigo – o Zé. Brincamos à luta de almofadas, aos super-heróis para salvar o mundo na luta contra os maus, também falamos muito e ele faz-me rir, conta piadas e eu também lhe conto as anedotas que o pai me ensinou. Nessa noite, estava eu prestes a derrotá-lo na batalha final com a minha espada azul quando, de repente, o meu pai entrou no quarto e me ouviu a brincar com o Zé e disse aos berros: “Vês, o teu filho é maluco, está sempre a falar sozinho! Pára com isso, amanhã vais ao médico dos malucos!”

Bateu a porta do meu quarto com força e saiu. De um momento para o outro o Zé desapareceu, eu senti o corpo todo a tremer com medo, deitei-me na cama, comecei a chorar e pensei para mim, “teu filho”? mas eu também sou filho dele. O meu pai fica sempre muito irritado quando me ouve a falar com o Zé. Para dizer a verdade, eu sei que na realidade o Zé não existe, mas enquanto estou naquela luta de almofadas ou dos super-heróis, não ouço as coisas horríveis que os meus pais dizem um ao outro e não imagino a possibilidade dos meus pais se separarem.

Hoje à tarde fomos à “pesicóloga”, o meu pai chama-lhe a “médica dos malucos”. Eu estava com muito medo de ser maluco, do que iria acontecer se realmente fosse, se o meu pai iria deixar de gostar de mim. Entramos na sala e os meus pais contaram o que aconteceu, enquanto ela também me ia fazendo perguntas. No final, lembro-me que a “pesicóloga” disse que na minha idade (cinco anos), ter um amigo imaginário era comum, havia muitas crianças que também tinham um amigo imaginário.

Continuou a dizer que era normal e que servia como conforto emocional, seja lá o que isso queria significar e que os estudos científicos referiam que ter um amigo imaginário até estimulava a criatividade e o desenvolvimento emocional e social das crianças. Pensei: “Estudos? Como é alguém estuda sobre isto?! Não têm mais nada para fazer, se não estudar o Zé? Que seca!” O mais importante é que ela disse que eu não era nenhum maluco até porque tinha noção de que o Zé não era real. Toma lá pai, BUMMM! Não sou maluco! Fiquei tão aliviado quando ela disse aquilo, fogo, estava a ver que não me safava desta, sou normal! 

De repente, ouço um “mas”, acompanhado de: “seria aconselhável o acompanhamento por motivos de uma possível instabilidade emocional, bem como vocês enquanto casal beneficiariam de alguém que os orientasse numa terapia de casal”, o que traduzido pelos meus pais significa que tanto eles como eu precisávamos de ir à “pesicóloga”. Pensei: Hã? Bolas, ela tinha acabado de dizer que eu não era maluco e agora preciso de ir à “pesicóloga”?

Foi então que a “pesicóloga” me explicou que os meninos que iam à psicóloga não eram malucos, apenas tinham alguns problemas, tal como os adultos, e que a psicóloga os ajudava a conseguir resolver, para serem mais felizes. Mais importante ainda, ela disse que queria conhecer o Zé e brincar connosco. Fiquei espantado. No final, isto até foi fixe, fiquei a saber que não sou maluco e mais, que os meus pais também precisam de uma ajudinha da “pesicóloga” para ver se resolvem as cenas entre eles, só isso já valeu a pena!

Joana Collaço

Psicóloga com o mestrado em psicologia educacional, formação em terapia cognitiva e comportamental com crianças e adolescentes, pós-Graduação em neuropsicologia entre outras formações. Vive em Portugal. As crónicas têm o intuito de partilhar com os pais, professores e todos os interessados, aquilo que pode ser o ponto de vista de algumas crianças/adolescentes sobre os mais diversos temas e problemas do mundo que os rodeia.

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