–  Vai sair assim?

– Sim, por que? Acha que minha roupa não está adequada?

– Sua roupa está ridícula, está parecendo uma prostituta. O que irão pensar de mim quando olharem você vestida desse jeito? Troque essa roupa agora, ou você não irá atrás de mim…

E o assunto termina alí, e mais uma vez a imposição do esposo crava em sua autoestima o punhal fatal da reprovação, da repúdia. E mais uma vez ela, cabisbaixa e resignada, se abdica de ser ela mesma. Entra no quarto e, quando saí, suas vestimentas representam os valores ditados por terceiros. Mais uma vez ela é outro ser que não carrega em si seus próprios sonhos, sua própria essência…

A cena acima foi criada hipoteticamente  e representa um cotidiano comum às pessoas que não alcançaram ainda o processo de “Ser, Tornar-se”.

Em minha pequena experiência como Psicoterapeuta Estagiário de uma Clínica-Escola de Psicologia, tive a oportunidade de me relacionar com pessoas que, desesperadamente, procuravam ajuda, onde suas queixas eram representadas por problemas existenciais de todas as ordens: Pertubações na vida conjugal; problemas de ajustamento ao meio social; indivíduos à beira do colapso na vida profissional, dentre tantas outras queixas, mas apesar da diversidade dos casos, quase sempre foi possível constatar um denominador comum: O sofrimento subjetivo de cada um invariavelmente trazia como de pano de fundo, consciente ou inconsciente, uma questão básica: “Quem sou, realmente? “; “Até quando terei de abrir mão de quem sou?”

Quando a jovem de nossa história hipotética não encontra liberdade e segurança para se vestir de acordo com sua capacidade de sentir, com sua autopercepção de estética, com sua capacidade real de ser ela mesma quando do uso da vestimenta que externaliza sua personalidade, ela passa a assumir uma máscara, que nesse caso é representada pelo figurino que é mais aprazível ao seu companheiro, causando na mulher uma insatisfação consigo mesma, anulando a possibilidade de ser ela mesma, em benefício de ser o que o outro espera…

O psicólogo, cientista e escritor Carl Rogers (1902 – 1987), no pragmatismo de sua ampla experiência como terapeuta observou que ” (…) isso representa muito bem a sensação de muitos indivíduos de que se a frente falsa, a parede, a represa, não forem mantidas, então tudo será arrasado na violência dos sentimentos que ele descobre estarem enclausurados em seu mundo particular. Todavia, isso também ilustra a necessidade premente que o indivíduo sente de buscar a si mesmo e de tornar-se ele próprio. Isso também começa a indicar a maneira pela qual o indivíduo determina a realidade em si mesmo – quando ele vivencia plenamente os sentimentos que ele É num nível orgânico, da mesma forma que ele sente auto piedade, ódio e amor, então ele tem certeza de que está sendo uma parte de seu eu real” (Rogers, 2009. Tornar-se Pessoa’, p.125-126 )

Dessa maneira o sacrifício deve morar na resistência de “manter-se com a roupa que mais nos agrada”. Para cada roupa que não se troca, é uma máscara de insatisfação que não se coloca, e é imprescindível nos darmos conta de que, a cada máscara que remontamos, uma sobre outra, mais nos distanciamos dos nossos sentimentos reais, da nossa experiência autêntica como seres livres, dotados de autonomia para vivenciar o que se é e de se sentir o que deve ser sentido. Importante dizer na oportunidade que, um dos processos que podem facilitar com grande potencial a abertura de nos permitirá resistir aos assédios externos de nos afastarmos de nossas experiências, é a Psicoterapia. Por intermédio de um clima em que os sentimentos poderão ser aceitos da forma em que vão se manifestando, é possível se apropriar da segurança necessária para usarmos aos “roupas nossas de cada dia”, sem precisar trocá-las diante da desaprovação alheia.

Emerson Puche Bueno

Psicólogo Clínico e Social, pós-graduando em Intervenções Psicossociais e Políticas Públicas. CRP 06 / 131902.

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