Treinar a autocompaixão ajuda a tratar doenças como depressão

Talvez você não saiba, mas ao se sentir repreendido ou culpado por um erro, seu corpo responde de uma forma que pode ser negativa para sua saúde. O cérebro envia sinais para aumentar a produção de cortisol e outros hormônios relacionados ao estresse que vão te ajudar a combater aquele momento de pressão, mas que ao longo de estímulos constantes podem gerar doenças. A solução para esse tipo de problema pode ser mais simples do que você imagina e está dentro de você mesmo: praticar a autocompaixão.

O conceito foi sistematizado para uso na psicologia pela americana Kristin Neff (veja o quadro abaixo). A pesquisadora aplicou exercícios em pacientes e obteve bons resultados em pessoas com depressão, transtorno do estresse pós-traumático, ansiedade, e dificuldades variadas. “A autocompaixão age no sistema de cuidado dos mamíferos e acredita-se que seja capaz de aumentar a produção de oxitocina e opióides e diminuir o cortisol. Também se descobriu que ela melhora o sistema imunológico e aumenta a variação da batida cardíaca. Não estamos falando de autoindulgência, pena de si mesmo ou autoestima. É tratar-se com o carinho que um amigo trataria. Em vez de ter um inimigo interno, ter um amigo interno”, explica.

No caso da depressão, a autocompaixão reduz a “ruminação” (ficar se lembrando das coisas ruins) e o julgamento sobre si mesmo. Com essa prática, o paciente consegue olhar para sua dor e seus erros e lembrar-se que é uma pessoa boa.

“As pessoas imaginam que ser duro consigo mesmo as motiva, mas é o contrário”, afirma Kristin. A pesquisadora lembra que a autocompaixão também ajuda as pessoas a serem mais independentes emocionalmente. “Nosso instinto quando algo dá errado é a autocrítica, o isolamento e ficar absorto em si mesmo”, diz Christopher Germer, instrutor clínico na Harvard Medical School e um dos fundadores do Instituto para Meditação e Psicoterapia.

“O instinto vem da resposta à ameaça, mas temos outra resposta que desenvolvemos como mamíferos ao longo do tempo, a de cuidado. O que estamos fazendo é ativar uma fisiologia diferente, mas isso requer prática, não é nosso instinto.” Ele estudou principalmente os efeitos da autocompaixão sobre a vergonha. “Se uma pessoa não lidar com a vergonha, é muito difícil parar de beber, por exemplo”, disse em referência às pessoas que bebem para se sentirem desinibidas.

Efeitos na motivação

Uma pesquisa feita com crianças mostrou que o grupo que tinha mais autocompaixão rendia em média 25% a mais nos estudos após um resultado ruim. Quando uma criança vai mal em uma prova, ela pode encarar o fato através da vergonha e da autocrítica, ao se sentir um idiota ou estúpido por não ter conseguido. Ela pode ainda projetar o problema para o professor ou para o assunto. A saída da autocompaixão, que ajuda as crianças a estudar mais, passa por outro caminho. A pessoa toma consciência que não se sente bem com a falha. Reconhece que matemática é um pouco difícil para ela, mas que está tentando conseguir aprender. Segundo a psicóloga, as pessoas que pensam através da autocompaixão se permitem errar, desligar a cabeça e começar de novo. Elas focam no que têm em comum com os outros, sabem que somos humanos e todos erramos, então não precisamos ser melhores que ninguém para nos sentirmos bem.

Aprenda a ter autocompaixão

A psicóloga criou um exercício para ajudar a desenvolver a autocompaixão. Pense em imperfeições e defeitos que te façam sentir inadequado. Sinta as emoções como elas são – nem mais nem menos – e escreva sobre elas. Depois, escreva uma carta para si mesmo como se tivesse sido feita por um amigo imaginário. Esse “amigo” vai ver os pontos fortes e fracos e reconhecer os limites da natureza humana. Ele é gentil com você e te perdoa. Em sua sabedoria, ele entende sua história de vida e o que te levou a ser como é neste momento. Depois de escrever a carta, guarde por um tempo e sempre releia.

TEXTO ORIGINAL DE UOL

Psicologias do Brasil

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