Depressão. Doença psíquica que vem aumentando na atualidade… Silenciosa. Muitas vezes, fatal. Pode aparecer com sintomas de tristeza, desânimo profundo, cansaço excessivo, perda de sono, de prazer, de apetite, de interesse pelo mundo exterior. Da capacidade de amar.

O tema vem influenciando muito a Cultura, de modo geral. No Cinema, vários filmes trataram sobre o assunto, como é o caso de “As horas” (The hours, 2002), de Stephen Daldry, que conta histórias sobre três mulheres, passadas em épocas diferentes. A obra é um tratado sensível e complexo, onde as personagens são ricamente descritas sob a ótica da Depressão, promovendo diversos ângulos para a análise.

A primeira conta a história da escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman), que em 1923 escrevia sua obra prima Mrs. Dalloway, enquanto enfrentava uma grave crise depressiva com ideias suicidas.

A segunda história se passa na Los Angeles de 1949, onde uma dona de casa grávida (Julianne Moore) planeja uma festa de aniversário para seu marido. Tem uma família comum: um marido trabalhador, bom companheiro e bom pai, típico sujeito da classe média americana e um filho encantador. Vive em um cenário neutro, sem conflitos. No entanto, é incapaz de pensar algo diferente da morte, o que fica evidente em seu olhar e em suas ações. Começa a ler o romance Mrs. Dalloway, identificando-se com a protagonista.

A terceira, narra um episódio na vida de uma descolada mulher nova-iorquina (Maryl Streep), que tem uma companheira compreensiva, uma filha adorável e um amigo que tem AIDS e está à beira da morte.

A Depressão sempre foi entendida como sinal de fraqueza, fracasso de vida e não como uma patologia. Isto vem mudando, bem como sua representação na Cultura. O filme mostra como a doença modifica-se, de acordo com a época… Na época em que viveu a escritora Virginia Woolf, sujeitos deprimidos ficavam em casa repousando, sendo os casos graves internados, sem muitas possibilidades de tratamento.

A personagem da dona de casa sofre calada: na América pós-guerra, durante o otimismo do american way of life, não há espaço para tristeza. Ela tem tudo para ser feliz naquela sociedade, não há porque sofrer ou estar deprimida, ela não consegue entender o que ocorre consigo e nem saber que está doente. A personagem moderna, por sua contemporaneidade, pode gritar, nomear o seu sofrimento, buscar a compreensão de sua dor… e ser compreendida, uma vez que, nesse momento, a Depressão já é uma patologia disseminada e aceita.

As três mulheres mostram o histórico de uma patologia que, embora muito tempo desprezada, hoje é cada vez mais respeitada, compreendida e tratada. De acordo com a teoria psicanalítica, a Depressão representa uma posição de fuga, em que o sujeito que não quer saber daquilo que o afeta, impotente de sustentar o seu desejo.  É sua resposta frente à angústia. Emerge quando o desejo se retrai e avança o gozo da pulsão de morte. Diante da falta, o sujeito depressivo sofre muito. Estando nessa posição, ele fica paralisado, sem nada querer saber sobre a vida, para não se referenciar à sua falta fundamental.

A patologia corresponderia a um luto que não se elabora, tal como denominado por Freud, luto patológico. Ao invés de investir sua libido nas coisas e em sua vida, o sujeito deprimido fecha-se em si mesmo, ficando ensimesmado. Dessa forma, a Depressão é a sua resposta, a escolha que lhe beneficia, embora lhe cause muito sofrimento, constituindo uma defesa contra a angústia presente na vida e uma satisfação dolorosa, masoquista, de evitar e esquivar-se de si e dos outros.

Nos casos em que ainda apresenta um certo grau de autonomia, é fundamental que o indivíduo busque ajuda especializada; na impossibilidade de procurar por si mesmo, a família deve acompanhá-lo. O acompanhamento médico, aliado à Psicoterapia, configura-se na melhor forma de tratamento para a Depressão, ume vez que o sujeito poderá nomear sua dor, enfrentar sua angústia e, de um modo progressivo, reinvestir sua energia em si mesmo… sustentando seu desejo!

Obs: se você ainda não viu, não deixe de assistir ao Filme!

Raíssa Tebet

Psicóloga Clínica, especialista em Neuropsicologia e Psicologia Hospitalar, com ênfase em acompanhamento Pré e Perinatal.

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