Por Breno França

A educação anda em pauta.

Com centenas de escolas públicas ocupadas pelo Brasil, com uma PEC sobre a mudança do currículo do Ensino Médio tramitando no Congresso Nacional e com uma fase do ano sempre repleta de vestibulares, matérias sobre estes e outros assuntos relacionados pipocaram nos telejornais e nos portais de notícias nas últimas semanas.

Diante da exposição, o assunto também rendeu debates na sociedade civil e alimentou o sonho de muita gente que já passou pela escola e gostaria de vê-la um lugar melhor.

Fora o artigo sobre vestibulares, sobre modelos internacionais de ensino e até sobre os temidos ‘apagões’ na hora da prova, queremos aproveitar a onda para abordar a pauta de uma maneira um pouco mais lúdica.

A seguir, uma pequena reunião de coisas que poderiam ser ensinadas na escola se, quem sabe um dia, pudéssemos fazer uma tentativa menos pautada no ‘passar de ano e prestar vestibular’ e mais nos verdadeiros desafios da vida real e na formação ampla como cidadãos e indivíduos.

Para não alimentar polêmicas desnecessárias, vale fazer a ressalva: não se trata de uma proposta de reforma da educação, da defesa de uma escola partidária (sic) ou de uma tese super bem sustentada de quem passou anos estudando a questão. Não temos essa ambição. Trata-se apenas de uma lista despretensiosa de coisas que nós do PapodeHomem, com nossas visões e experiências limitadas, sentimos falta de ter aprendido (melhor?) em algum lugar em algum momento da vida.

Dito isso, reitero o convite para sua participação nos comentários. Nesse caso, alimentado pela pergunta: O que você gostaria de ter aprendido na escola?
Habilidades pessoais

1. Falar em público/se expressar

Uma das primeiras dificuldades que surgiram quando levantamos a pauta aqui na redação foi a de saber se comunicar. A questão vai desde fazer discursos para grandes plateias, escrever um bom email para seu futuro chefe (foi assim que acabei contratado pelo Guilherme, sabia?) ou abrir um problema na relação para seu(a) parceiro(a).
2. Libras e formas de acessibilidade

Segundo o último censo realizado pela IBGE em 2010, quase 10 milhões de pessoas são surdas e quase 6 milhões são cegas no Brasil. Isso dá algo em torno de 5% da população do país. E uma grande parcela delas simplesmente não consegue se comunicar direito com os outros 95%.

Eu nunca tive um amigo surdo ou mudo, mas também nunca poderia ter tido. Das poucas vezes que trombei com um indivíduo com uma dessas deficiências, fiquei totalmente deslocado e foi completamente inútil para ele. Me parece uma boa política ensinar às crianças como se comunicar com essas pessoas, não só através da Língua Brasileira de Sinais como outras práticas. É um horizonte que se expande para os dois lados.
3. Noção espacial

De tempos em tempos a gente se pega numa conversa que gira em torno de: será que tal objeto cabe ali? Será que aquele lugar fica mais perto ou mais longe do que aquele outro? Quanto tempo será que leva pra fazer isso ou aquilo?

Na escola a gente aprende as formas geométricas, as direções, os fuso-horários, os mapas, mas nenhum de nós por aqui chegou a participar de uma dinâmica que ensinasse proporções da vida real ou como se localizar. E isso já acabou nos fazendo falta.


4. Defesa pessoal

Mês que vem um de nós, não vou falar quem, vai fazer exame de faixa no Krav Maga. E toda vez que essa pessoa fala sobre a experiência de estar aprendendo uma forma de se defender, me lembro de como não sei fazer absolutamente nada nesse sentido e fico me cobrando: um dia ainda vou aprender a lutar alguma coisa.

Não se trata de estimular as pessoas a reagir a um assalto. Pelo contrário. Pessoas iniciadas em algum tipo de luta geralmente têm mais autocontrole e sabem usar a violência apenas em momentos de extrema necessidade. Isso fora a filosofia belíssima que várias lutam têm e que nós poderíamos aprender e reaplicar na vida.
5. Ter paciência

Você está aguardando um ônibus, esperando para ser atendido no consultório ou mesmo pleiteando uma promoção na empresa e aí se pega ansioso ou confuso por não saber o que fazer enquanto o tempo passa.

Na escola, como na vida, situações como essa se repetem. A gente já tomou muita bronca da inspetora por sair correndo da sala pra ver quem chega primeiro na fila da cantina, mas ninguém nunca nos propôs uma conversa sobre ter paciência e aguardar a sua vez. Todos os dias no trânsito de São Paulo somos lembrados o quanto isso poderia ajudar.
6. Cozinhar

Seja para se tornar menos dependente da indústria alimentícia, para aprender a saborear melhor os alimentos, para economizar dinheiro mesmo ou para se livrar da divisão da louça suja, saber cozinhar é uma das coisas que mais faz falta para uma porção de nós.

Tirando que quem sabe cozinhar quase nunca se queixa de ter gastado tempo fazendo isso, tem uma porção de coisas que passar esse tempo na cozinha pode te ensinar sobre a vida. E não é difícil imaginar aplicações das matérias de física, química, biologia, matemática, etc, né?
7. Nutrição

Junto com as aulas sobre cozinhar poderiam vir as aulas sobre nutrição, afinal de contas, quem sabe quantas calorias têm as coisas? Qual o impacto que os alimentos têm no nosso corpo? Qual o real motivo pelo qual nós devemos nos alimentar melhor fora o ‘porque sim’ dos nossos pais?

A lição poderia estimular as crianças a cuidarem de uma horta, aprender a ler o rótulo das embalagens ou que o pastel e a coxinha ficam mais gostosos se você não come ele todos os dias da semana.

8. Fazer exercícios

A gente já falou diversas vezes sobre a importância de fazer exercícios e todo mundo tá careca de saber como eles podem aumentar nossa qualidade vida e nossa própria percepção sobre nós mesmos, mas se hoje sofremos tanto para mudar nossos hábitos sedentários, porque não tentamos impedir que eles comecem.

Eu tive a sorte de ter alguns bons professores de educação física que passavam séries de aquecimento e nos ensinavam modalidades novas ao invés de só soltar uma bola de futsal e deixar a gente brincar. Mas tenho conhecimento de que, via de regra, não é assim.

Além do mais, acredito que fazer exercício todo dia ao chegar ou sair da escola seria mais benéfico do que cantar o hino nacional, mas é só a minha opinião.


9. Primeiros socorros

Seja sincero comigo: O que você faria se alguém começasse a passar mal na sua frente na rua? E se fosse alguém da sua família? Sinceramente, ligar pra ambulância e aguardar ou torcer pra ter um médico por perto nem sempre pode ser o suficiente.

Para além do lavar, soprar ou dar um copo d’água com açúcar, porque não aprendemos a fazer pequenos curativos, ajudar alguém a desengasgar e outros procedimentos básicos. Acho que colocar um pouco disso nas escolas não ia matar ninguém. Pelo contrário.
10. Como se vestir bem

A gente também já disse que, na verdade, estilo importa e fingir que não se importa é fazer um estilo, então que tal se a gente aprendesse a se vestir bem nem que fosse só para determinadas ocasiões?

Uma entrevista de emprego. Um casamento. A própria formatura. A gente não precisa colocar regras de etiqueta no lugar da aula de matemática. Mas poder consultar alguém sobre o assunto uma ou duas vezes por ano não seria ruim.

Enquanto isso não acontece, a gente tem o Bruno Passos.
Tarefas comuns

11. Fazer compras

Então você se pega sabendo se alimentar melhor, vestir melhor, viver melhor, mas tudo descamba porque você vai às compras e sente como se não tivesse dinheiro pra fazer nada.

A sociedade nos estimula a comprar o tempo inteiro, então que tal a escola, que ocupa tanto do nosso tempo, passasse a fazer um contrapeso nos ensinando a fazer boas compras?

Analisar o preço e o custo das coisas, deixar os congelados pro final, conter o impulso para levar apenas o necessário, escolher bem frutas, legumes e verduras, ler os rótulos, não cair na tentação das promoções, economizar mais, etc. Eu gostaria e vejo soluções possíveis para abordar diversas matérias também.
12. Pequenos reparos domésticos

Quem aí já trocou a resistência do chuveiro? Trocou uma lâmpada? Consertou a maçaneta? Instalou uma prateleira?

Quando a gente passa a morar sozinho, topa com esses problemas todos os dias e muitos de nós batemos cabeça, adiamos ou simplesmente pagamos caro por não saber fazer coisas básicas. A internet ensina como fazer tudo isso? Ensina! Mas a oportunidade de mostrar a importância de zelar pelas suas próprias coisas seria importante pra muita gente.
13. Noções de mecânica

Agora imagine que você tem uma sala cheio de crianças que adoram saber como as coisas funcionam. Desde um relógio de pulso até um avião. Imagine as opções que se apresentam para estimular a turma a ser curiosa e aprender a entender sobre tudo!

Ninguém precisa sair da escola com diploma de engenharia, mas seria útil não ser mais enganado pelo mecânico de estrada por saber que o radiador não tem nada a ver com o disco de freio. Ou tem?
14. Noções de informática

Se noções de mecânica não te convenceram, que tal aprender um pouco sobre informática? A área só cresce, as coisas estão cada vez mais digitais e o emprego das pessoas que estão na escola hoje provavelmente vai lidar com isso diariamente.

Então que tal dar uma noção de como sites e aplicativos são criados, como podemos consertar um ou outro problema no nosso próprio computador, e até mesmo como dá pra melhorar aquele seu joguinho favorito de código aberto? Conheço uns caras que fizeram isso e se deram bem, mas não graças à escola.
15. Segurança virtual

No mesmo pacote vinha as noções de segurança virtual.

Que tal saber reconhecer um site seguro, não se expor desnecessariamente a vírus, criar uma senha segura e escapar de pessoas mal intencionadas na internet? Vai ser difícil dar conta de todas as variáveis possíveis, mas dá pra evitar que as histórias, cada vez mais comuns, de gente que se deu mal por bobeira na internet.
16. Gerenciamento de tempo

Ainda na pegada do fazer compras, que tal aprender a distribuir melhor o seu tempo. Fazendo nossos projetos e orçamentos, percebemos que nossa principal dificuldade é mensurar quanto tempo gastaremos fazendo as coisas. Ninguém nunca nos ensinou isso.

Seja porque é uma habilidade importante pro mercado ou porque nós queremos ter uma vida mais ajustada, aprender a lidar com o tempo se mostra cada vez mais importante hoje em dia.

17. Pagar impostos

Eu não sei vocês, mas eu fico desesperado ao saber que num futuro próximo vou ter que declarar meu imposto de renda. Se um dia eu abrir uma empresa então, me dá dor de barriga só de saber como funciona o esquema do ICMS.

Se pagar imposto é uma das únicas certezas da vida e uma das maiores dificuldades dos brasileiros, por que não aproveitar para ensinar a gente a fazer direito e estabelecer uma boa relação com nosso dinheiro? Por que não aprender qual a parcela de grana que a gente dá pro governo resolver os problemas a cada transação? A conscientização sobre nossos direitos e deveres pode começar por aqui.
18. Economizar/Guardar dinheiro

Muito se fala sobre como ganhar dinheiro, mas eu tenho percebido que tão importante quanto ganhar é saber como e onde guardar. Se você tivesse 500, mil, 5 mil, 10 mil, 100 mil reais economizados, onde você aplicaria?

A verdade é que nós brasileiros sabemos muito pouco sobre como as regras do jogo funcionam e o dinheiro que é duro de entrar acabar escapando facilmente pelo ralo. Para saber como economizar e como fazer o nosso suado dinheirinho render, que tal aprender e valorizar isso desde pequenos? Imagina que louco ter educação financeira nas escolas?

Enquanto isso não acontece, temos o Eduardo Amuri.
19. Conseguir crédito

Agora vamos sonhar com o dia em que o brasileiro médio passar a exercer um pouco mais o pensamento empreendedor. Imagina o dia em que essa criatividade que o brasileiro já provou que tem for colocada cada vez mais a serviço de bons negócios e novas empresas?

Para tirar tudo isso do papel, será preciso uma boa dose de equilíbrio e ajuda por parte do governo (desde que seja não atrapalhar), mas parte disso também depende da iniciativa privada de dar crédito.

Uma vez fizemos um exercício muito interessante na minha escola e aquilo foi tão marcante que eu gostaria de ver replicado por aí. Resumidamente, nós inventávamos um negócio com base na matéria, defendíamos pra turma, conseguíamos determinado crédito e tentávamos manter o ‘falso negócio’ de pé numa espécie de software criado pra isso. Não passava de um joguinho, mas dava uma tremenda visão de como essa coisa de criar empresa funciona na prática.


20. Fazer contratos

Outra coisa tão importante quanto é aprender a fazer contratos. Eu te desafio a passar uma vida inteira sem precisar fazer algum. Impossível. Não importa qual escolha você faça, você terá que assinar um contrato com alguém, desde esses “termo de compromisso” que você só dá check na internet, até o seu contrato de trabalho ou de aluguel.

E cara, sinceramente, se a gente aprender a escrever tanta coisa chata na escola, será que não dava pra roubar uns minutinhos pra introduzir essa forma real de manifestação da língua portuguesa?
21. Negociar

Por último, ainda dentro dessa questão financeira, que tal aprender a arte da negociação?

Se somarmos todos as pequenas perdas que tivemos ao longo da vida por não barganhar uma condição melhor de trabalho e de remuneração, vamos perceber o tamanho do prejuízo. É claro que ser um bom negociador não vai secar a fonte do desperdício, mas vai fazer você se vender melhor, aprender a dizer não pra determinadas coisas, conseguir mais prazo para realizar tarefas chatas e mais tempo para tarefas legais.

Dava até pra argumentar com a professora a quantidade de lição de casa. Já pensou?
Relações pessoais

22. Direitos e deveres civis

Se é importante aprender sobre os impostos que você paga, como fazer boas compras e como economizar dinheiro, o que dizer sobre os direitos e deveres civis, não é mesmo?

Me parece tão óbvio que nem vou me estender muito nesse tópico. Imagine apenas que você soubesse lidar tão bem com a justiça quanto os advogados do Fluminense.
23. Sobreviver sem tecnologia

Me diz aí o que você faz quando acaba a luz na sua casa? Pior, o que você faz quando acaba só a internet da sua casa?

Estamos dialogando com uma era onde estamos cada vez mais dependentes da internet, mas e no dia que der o bug no milênio, você saberá o que fazer? A escola pode cumprir um papel importante tanto na valorização das relações humanas como nas orientações de segurança para o caso de se perder e ficar sem sinal no celular.
24. Noções de sustentabilidade

E se você aprendesse a economizar energia e água? E se você aprendesse a não desperdiçar comida?

Me lembro que da sexta à oitava série só se falava de aquecimento global nas aulas de geografia, mas muito pouco ou nada se falava sobre o desperdício de comida, sobre a importância de separar o lixo, sobre subir poucos andares de escada, etc. A gente tem duas chances de fazer alguma coisa pelo planeta: presenciar uma grande merda que não vai nos dar outra alternativa a não ser mudar radicalmente de estilo de vida ou começar a propor coisas novas a partir das crianças. Alguma palpite sobre o que é melhor?
25. Fazer amigos

Quantos anos você tem? Com quantos amigos da escola você ainda fala?

As escolas não estão realmente preocupadas em construir laços de amizade. Você pode até ter feito muitos trabalhos em grupo, mas é muito improvável que você tenha contato com mais de cinco pessoas da sua sétima série.

Você pode até dizer que ter amigos é coisa rara, mas a escola poderia minimamente se importar em saber se você se dá bem com as outras pessoas da sua sala de aula, afinal de contas, ali é provavelmente onde você passa a maior parte do seu tempo durante anos fundamentais, né não?
26. Começar um relacionamento

Os dois próximos tópicos vão falar basicamente sobre ajuste de expectativas.

A verdade é que a cabeça de um adolescente é uma tremenda bagunça. Nessa idade, a gente se empolga e se frustra umas três vezes por dia e ninguém se propõem a falar pra nós o que está acontecendo ou apontar direções e ajustes.

Eu aposto que seria um exercício válido ensinar os jovens a alinhar suas expectativas e exercitar sua autoconfiança para começar relacionamentos novos sejam eles afetivos ou profissionais.
27. Terminar um relacionamento

Da mesmíssima forma, ao cultivar um relação mais franca conosco e com os outros, a gente pode ter muito mais liberdade para pular fora do barco quando achar que fora a hora, minimizando os traumas.

A verdade é que saber como comunicar pros outros que você não está mais a fim é uma tarefa das mais difíceis, não é a toa que muita gente legal tem uma atitude escrota nessa hora.

No fim das contas, tem muito jovem por aí precisando de ajuda psicológica ao invés de professor particular. Tive muitos colegas que transformaram problemas pequenos em grandes traumas que acabaram prejudicando várias atividades de sua vida inclusive e principalmente o rendimento na escola.
28. Sexualidade

Se no campo das emoções, as dúvidas são tantas. Imagine no sexo.

Eu fico indignado como a escola é a parte que mais ocupa tempo na vida das pessoas justamente no momento onde elas estão passando por transformações tão profundas e como o problema é tratado como tabu. Se a escola não ocupa o espaço de dar informação sobre o assunto, os jovens vão buscar em outros lugares, e sabe-se lá onde vão encontrar.

Posso ter uma visão pessoal muito influenciada, mas, no meu caso, não se falou de sexo mais do que duas vezes nas aulas de ciência.
29. Planejamento familiar

Assim como seria importante ter orientações sobre a vida sexual, eu gostaria de ver pessoas dispostas a conversar com os jovens sobre seus objetivos de vida.

Vejo escolas transmitindo aos jovens a ambição de prestar vestibular e fazer uma faculdade unicamente porque isso interessa a elas. Mas vejo muito pouca conversa e conselhos sobre o que os jovens esperam da vida, como se relacionam com seus pais, quando pensam em ter um filho ou quando querem sair de casa.

Sinceramente, os momentos que mais admirei meus professores foram quando tivemos conversas sinceras sobre a vida. E gostaria de ter tido mais oportunidades.

***

E você? O que pensa?

TEXTO ORIGINAL DE PAPO DE HOMEM

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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