A pequena vendedora de fósforos

Os Contos de Fada são escritos para entreter as crianças. Mas graças a eles conseguimos entender as manifestações do inconsciente humano. É uma espécie de anatomia da psique. Tramas por trás das narrativas gerando aprendizado que nos auxilia a desenvolver nossas potencialidades.

Aprendemos muito com eles. A Cinderela nos faz entender o amor como um pé de sapato de cristal que carregamos e mostra a luta para encontrar esse outro que se ajusta como um belo par. O limite do tempo, quando à meia-noite acaba o encantamento, nos deixa a pensar que não devemos ultrapassar o limite que mantém esse estado de ilusão dentro de uma relação. Rapunzel ensina o quanto é difícil conseguirmos amar o outro aprisionado por uma mãe-bruxa que dificulta a aproximação que lhe ameaça roubar o único vínculo afetivo de sua vida. Os Três Porquinhos dosam a brincadeira com um trabalho sério para enfrentar os lobos. Chapeuzinho Vermelho lembra a malícia necessária para vivermos essa relação com o lobo – as adversidades da vida.

O conto “A pequena vendedora de fósforos”, de Hans Christian Andersen, narra a história de uma menina pobre que nas vésperas do ano-novo, nas ruas frias e escuras, estava com um pé descalço e sem nada para cobrir-lhe a cabeça. Os cheiros dos gansos assados se espalhavam pelas ruas. Vendia fósforos, mas nesse dia temia voltar para casa. Não vendera nada, e seu pai iria surrá-la.

Era proibida de usar os fósforos. Transgrediu e riscou um deles. Viu-se desfrutando do calor frente a uma luxuosa lareira, mas logo que a chama do fósforo se apagou tudo desapareceu. Riscou o segundo, e um ganso assado veio em sua direção, mas tudo desapareceu quando a luz do fósforo se apagou. Acendeu o terceiro e viu uma bela árvore de Natal cheia de velas que foram subindo para virar estrelas. Uma delas, uma estrela cadente. Ela acreditava que quando aparecesse uma estrela cadente alguém iria morrer. Riscou mais outro e viu a avó que a amava, mas havia morrido. Para não perder esse momento, passou a riscar todos os outros palitos até que a sua avó a carregou. Voaram em esplendor e alegria para onde não há frio, nem fome e nem dor. Estavam com Deus. Encontraram o corpo morto da menina com um sorriso no rosto.

Em cada um de nós existe uma criança perversamente abandonada ao frio da falta de afeto. Quando recebemos emoções calorosas, mesmo poucas, como a chama de um fósforo, sentimos o encanto de algum prazer que a vida nos possa oferecer. Essa privação, tão ligada ao patriarcado, à ganância capitalista, nos impede a expressão livre da criatividade. A desobediência da menina permitiu-lhe viver o fantástico. Viu numa lareira, uma fonte, mesmo efêmera, de carinho e satisfação dos sentidos.

A fome de humanidade lhe atingira por meio de um ganso assado que aguçava olfato e paladar. Atendia ao desejo da fome de afeto, de forma curta, como acontece no ato sexual com apenas a experiência corporal, sem amor ou envolvimento. Diz Jung que da mesma forma que a ferida tem a marca da arma que a provocou, assim também o afeto corresponde ao ato da violência que lhe deu origem.

Precisamos de uma estrutura psíquica como fonte de amor e ternura. Se não existiu, nossa condição humana exige que ela exista e faça esse processo desativado desviar de sua necessidade natural e se revelar na doença, que muitas vezes aparece em intensidade sexual, para efeitos de saciar desejos corporais sem que se possa apreciar a estrela cadente que anuncia possibilidade de mudança. Talvez por isso apareça o pé descalço. Como símbolo do desencontro humano – solidão.
A estrela cadente aparece como a anunciar a morte de um vínculo afetivo insubstituível. Assim morre dentro de cada um a menina que carrega o amor, a gratidão, e todos os sentimentos que deixam o ser existindo. A pobreza de nosso espírito nos assusta. Precisamos do encanto que as estrelas cadentes trazem.
Para os mitos antigos, as estrelas cadentes eram batalhas entre os deuses que espionavam os homens, daí ser o melhor momento para se fazer um pedido. Como bom ou mau presságio, a tradição judaico-cristã fala de anjos e demônios caídos do céu. Poderiam ser as lágrimas da lua prevendo uma tragédia.
Tal tragédia para o eu pode ser um renascimento para a psique como um todo ou para Deus. A criança representativa de uma alma que sofre e pede um mínimo de calor afetivo precisou riscar um palito após o outro para segurar esse afeto maior de uma fonte de amor e ternura. São unidades de afetos que, por sua repetição, conseguem manter esse estado de plenitude até o momento final que eterniza um sorriso.
Pobreza de afeto pode corresponder a vida farta de afazeres que nos subtrai o tempo de apreciar as estrelas. A menina pobre que nos habita, carente de afeto, vive o calor das pequenas chamas, com tão breve desfrutar do que deseja, tem na estrela cadente o aviso de um renascimento para um outro modo de viver.
O ano termina como a morte que ronda o ano que chega como o renascimento que vibra em cada um. Não podemos ser impassíveis. Não há vida sem símbolos. Muita vez estamos como a menina: morrendo com o frio afetivo. Porém ao cair da noite quando o universo se revela em sua grandiosidade, nós nos aquecemos quando transgredimos nossas leis internas rígidas, patriarcais, para nos permitir viver a experiência do fantástico que a vida simbólica pode trazer.

Prof. Carlos São Paulo é fundador do IJBA
Professor convidado do IJEP

Artigo publicado originalmente no Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa

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