Como a medicina adotou o mindfullness

Por Letícia Gonzalez

No dicionário Houaiss, dor é uma “sensação desagradável”. Aflição interna, não pode ser calculada por exames e segue, 200 anos após a descoberta da morfina, assunto não resolvido para a medicina. Remédio demais vicia, remédio de menos não faz efeito. Na década de 70, uma alternativa à química se abriu com o trabalho do americano Jon Kabat-Zinn, um biólogo empolgado com a meditação. Ao adaptar técnicas orientais, ele montou um programa de exercícios para o cérebro e convidou pacientes insensíveis a analgésicos a testá-lo. O alívio veio rápido.

Assim, Zinn inaugurou o uso ocidental da meditação, que batizou de mindfulness, no ambiente médico. Além de amenizar dores, acabou servindo de modelo para centenas de terapeutas. Doenças relacionadas ao estresse, como hipertensão, foram as primeiras tratadas com o sistema, que incluía oito semanas de aula e sessões regulares em casa. A partir dos anos 2000, as comprovações científicas começaram a se multiplicar. Primeiro vieram as melhoras na imunidade e, logo, no tratamento da depressão e da ansiedade. Em 2010, pela primeira vez, uma equipe de Harvard mostrou mudanças anatômicas no cérebro após a meditação — áreas relacionadas à atenção ficavam maiores e mais fortes, enquanto áreas responsáveis por respostas agressivas de sobrevivência, menores e menos ativas.

Aprender a parar
Era o que faltava para que outras áreas da saúde mental se interessassem. O psicólogo americano Alan Marlatt, morto em 2011, foi um dos pioneiros em incluir técnicas de mindfulness no tratamento de vícios em drogas. Os resultados foram positivos, principalmente em relação às recaídas, menos frequentes — quando ocorriam, eram menos desestabilizadoras. No Brasil, o centro de treinamento de MBRP, como é chamado o método de Marlatt, foi aberto na Unifesp em 2015. É lá que a psicóloga Isabel Weiss pesquisou sua eficácia contra o tabagismo, num estudo-piloto com pacientes do SUS em tratamento para parar de fumar. No grupo, que praticou meditação, além da terapia regular, a volta ao cigarro foi três vezes menor.

Os resultados, que ela apresenta este mês em Washington no congresso da Amersa (Associação para Educação Médica e Pesquisa sobre Abuso de Substâncias), seguem a linha dos já encontrados em outras compulsões, como a bulimia. Mais do que combater fases agudas, o mindfulness se mostrou eficaz em prolongar os períodos de bem-estar. E por isso foi adaptado também a pacientes esquizofrênicos e aos cuidados paliativos, que acompanham doentes sem chance de cura.

Recentemente, uma nova fronteira de pesquisas se abriu. Em Harvard e no Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, pesquisas tentam descobrir como a atenção plena, fenômeno não exclusivo da meditação, pode melhorar a vida no envelhecimento. A pesquisadora brasileira Elisa Kozasa conta que, em idosos, o tai chi chuan, que trabalha a concentração, trouxe maiores benefícios que a hidroginástica.

Além da terapia
Os achados das últimas décadas levaram o Reino Unido a incluir o mindfulness no sistema público de saúde. Por aqui, a Unifesp oferece treinamentos a pacientes do SUS em São Paulo, por meio do programa Mente Aberta, por onde passaram cerca de 400 pessoas. Grupos para depressão, ansiedade ou obesidade realizam encontros semanais. “Nas avaliações feitas seis meses depois, encontramos melhoras significativas”, diz Marcelo Demarzo, coordenador do programa. Além do caráter terapêutico, o médico ressalta o potencial preventivo da atenção plena. “Ela dá ferramentas para que as pessoas tenham saúde mental e evitem doenças relacionadas ao estresse.” Parece melhor do que remediar.

Imagem de capa: Shutterstock/Benjavisa Ruangvaree

TEXTO ORIGINAL DE REVISTA TRIP

 

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