Por Felipe Floresti

No último dia 20 foi comemorado o Dia Mundial de Combate ao Bullying, data instituída pela Unesco para chamar atenção ao fato de que um a cada três adolescentes entre 13 e 15 anos é vítima de agressões vítimas ou verbais, regularmente, por seus colegas de escola. A data, porém, passou em branco no colégio Goyases, em Goiânia (GO), quando um aluno de 14 anos disparou contra seus colegas, resultando em duas mortes e quatro feridos.

Para tentar entender o que estamos fazendo de errado na formação de crianças e adolescentes, conversamos com Luciene Regina Tognetta, professora do departamento de Psicologia da Educação da Unesp e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (GEPEM).

Pelo que você acompanhou, somente o bullying explica o caso?

Todas as características apontam para isso. O bullying é um fenômeno complexo e multicausal, com características próprias, que aparecem nesse caso. O autor da violência tinha pensamentos suicidas, tinha admiração por atos de violência, era excluído, não participava de grupos, e era rechaçado por colegas que tinham a intenção de diminuí-lo ou fazer com que desaparecesse daquele contexto. Era considerado diferente, então não lhes cabia.

Foi revelada também admiração pelo nazismo e o massacre de Columbine. Essa cultura de violência também contribui para que essas coisas aconteçam?

Não dá para deixar de estabelecer uma relação com aquilo que é valor para a pessoa. Quando eu sinto desvalor, procuro me associar com aqueles que são meus iguais. Ele não teve tempo de se matar, mas é o que costuma acontecer nesses casos. O suicídio tem conteúdo psicológico muito forte. Muitos adolescentes têm uma ideia romântica da morte. Do heroísmo daquele que tem o poder. A arma é um sinônimo de poder. Faz com que eu me sinta melhor com o grupo social que me despreza.

Qual o papel dos pais nesse contexto?

Não estou dizendo que eles eram de um jeito ou de outro, mas o estilo de educação parental tem uma correlação com o personagem que eu assumo nessa relação de convivência. Vítimas de bullying têm muitas vezes pais autoritários que não permitem que o sujeito se veja como valor. Ele está sempre tentando se superar para agradar aos pais. Também podem ser filhos de pais negligentes, assim como os autores de bullying. Quando não impõem limites, a criança não sabe até onde pode ir. Não tem os valores ligados à sua identidade. Vai acometer os outros a esse tipo de situação, pois não tem um juízo de valor.

O que mais contribui para a ocorrência desses episódios?

A família não é a única a contribuir na construção de identidade. Depende muito da capacidade de resiliência e assertividade do sujeito, que é a capacidade de resolver problemas sem estabelecer uma relação de submissão nem usar da violência. Isso é algo que deveria ser ensinado na escola, assim como se ensina português, geografia, matemática. E não é de um dia para o outro ou só com uma campanha.

As escolas têm responsabilidade?

Estamos em um país que há apenas 17 anos está fazendo campanhas de conscientização, mas não tem políticas públicas especializadas naquilo que a própria lei determina (o artigo 5º da lei 13.185 obriga escolas a adotarem medidas de prevenção e combate ao bullying), que é a formação de professores. Não temos uma política pública voltada para aqueles que vão atuar diretamente com a formação moral desses meninos. A escola não pode se esquivar disso.

Qual o caminho então?

A escola tem responsabilidade na prevenção de problemas de convivência. É responsável pela formação desses meninos, e convivência é um tema tão importante quanto matemática, português, ciências. O professor é um profissional em desenvolvimento humano e precisa reconhecer as características de seu objeto, que é o aluno. Temos que lembrar que o bullying é uma questão complexa e não vamos conseguir mudança com planos de atuação específicas, somente quando os problemas acontecem, até porque não dá para trazer de volta as vidas que foram perdidas.

Existem exemplos de ações eficazes?

Com o GEPEM (grupo de pesquisadores que desenvolve estudos sobre bullying, desde sua natureza psicológica até as implicações que esse problema traz ao cotidiano da escola) fazemos um trabalho com equipes de ajuda. São estratégias reiteradas pela literatura, ou seja, fruto da pesquisa científica, que atua na prevenção do bullying nas escolas. É o peer suport, ou suporte entre pares, que está sendo implantado em 11 escolas do Brasil. (Quem quiser saber mais sobre a iniciativa, pode acessar o site www.somoscontraobullying.org)

Como o Brasil pode evoluir no combate à esse tipo de violência?

Não temos pesquisas que abordam as características desses personagens, suas questões psicológicas. A gente precisa de pesquisas de diagnóstico, mas falta financiamento. Falta pesquisas em educação. O trabalho é de longo prazo e temos que buscar caminhos. O dia de combate é bonito, mas não tem resultados.

Imagem de capa: Shutterstock/Fh Photo

TEXTO ORIGINAL DE REVISTA GALILEU

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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