DELEUZE – O CHARME DAS PESSOAS É A LOUCURA

Por Tiele

Após um dia cansativo de trabalho, a casa se torna o recanto do descanso: a cama quente, acolhedora e o silêncio são imprescindíveis para o repouso necessário. O tempo que esperou na rodoviária foi mais um teste de paciência, talvez não mais atormentador, visto que a indiferença da rotina soa comum. Eis que a lógica é rompida, alguém espantosamente lhe convidou para dançar. À primeira vista, parece ridículo, pois está cercado por pessoas que passam de um lado ao outro com ânimos alvoroçados e pensamentos distantes. Dançar em meio a tudo isso parece estranho, absurdo. Mas o olhar e o toque são convincentes, em meio à vida planejada e rítmica. Surge a música de fundo, passaporte necessário para os olhos que desejam enxergar além, nasce o sorriso e a escuridão da indiferença toma um toque de brilho. De vida. Loucura?
Arriscar-se de tal modo, parece um tanto com uma demência voluptuosa.Contrapor-se ao frenesi do mundo moderno consiste em liberar as psicoses, negar um projeto de vida, o ideal da felicidade comprada, assim, parar para observar os pássaros é externalizar a insanidade, dizer sim às negações que inspiram o charme da vida. Que seja loucura conversar com alguém estranho na praça, bem como dançar, gritar, cantar ou fazer qualquer outra coisa que lhe faça parecer um demente.

Para Gilles Deleuze (1925-1995), filósofo francês, é nesse ponto que reside o maior charme das pessoas. “O verdadeiro charme das pessoas reside em quando elas perdem as estribeiras, quando não sabem muito bem em que ponto estão”. Quebrar as paredes do quarto escuro para deixar a luz do sol irradiá-las é o sintoma de uma vida aberta, a curiosidade é o despertar para o novo. Neste contexto, loucas são as pessoas que têm curiosidade, que despertam curiosidade, que subvertem paradigmas, que buscam e fazem a diferença. Reside nessas pessoas o ideal em criar constantemente o mundo que nunca chega, porque as ideias nunca se esgotam.


A realidade maçante não é condição irrefutável, a busca pelo questionamento e pela contemplação de uma vida que não se submete à plena aceitação da estimulação consumista e não se restringe a rotular os indivíduos no espectro social é um ataque à lucidez. O indivíduo é incapaz de parar e muito menos de ficar parado, e a justificativa é a de não se ter mais tempo, e certamente, a aceleração do tempo faz crer na necessidade de uma vida objetiva, com a práxis mecanizada, e assim, sem espaço para a loucura.
Estar convicto em negar a loucura é suspeito. Deleuze afirma que todos nós somos meio dementes e possuímos o desejo ofegante de sair da linha pelo menos por um ínfimo momento. E de toda forma, transparecer essa demência é um ponto estratégico de atração.
Sendo assim, quando estiver na rodoviária cercado por pessoas (preocupadas com o tempo e despreocupadas com sua existência) e uma delas lhe convidar para dançar, sim, ela será a mais encantadora, atraente, charmosa e louca que você terá visto naquele lugar.

TEXTO ORIGINAL DE OBVIOUS

Imagem da capa: Shutterstock/Magicinfoto

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