Por Talita Ribeiro

Eu nasci em 1987, sou da chamada geração Millennial, mas não me identifico com boa parte dos textos que leio sobre isso. Para ser bem sincera, também não vejo ali os meus colegas de colégio e da universidade, não reconheço muitas das pessoas da mesma faixa etária com quem trabalhei, como estagiária, repórter, editora, coordenadora ou freela, nos últimos 14 anos. Talvez por sorte, mas desconfio que o que pesa nisso tudo é eu ter vivido na periferia boa parte da minha vida, ser bolsista desde sempre e ter me formado em uma universidade cuja mensalidade custava menos de R$ 1.000 e em que as salas não eram ocupadas, majoritariamente, por alunos que tiveram a chance de fazer um bom cursinho.

Por isso, sempre que leio textão sobre os “mimados millennials”, acho que falta um corte de classe. Mais que isso, falta um recorte histórico e social, contextualizar de quais jovens vocês estão falando afinal. Porque “o mundo do rio não é o mesmo mundo da ponte”, ou, sendo mais objetiva, a vida de quem tem o chamado “paitrocínio” é muito diferente de quem teve que contar com cotas ou programas sociais para poder estudar.

Quando vejo gestores reclamando que os jovens de 20 até 34 anos são preguiçosos, querem trabalhar pouco, ganhar muito e conquistar promoções rápido, minha primeira reação é rir, de nervoso, confesso. Quem tem 20 e poucos anos é muito, mas muito diferente de quem está perto dos 30 hoje, principalmente na periferia. Isso porque lá a maioria teve que começar a trabalhar aos 15, 16 anos e, consequentemente, tem uns 15 anos de experiência profissional contra no máximo 5 dos “novinhos”. Muitos de nós, mais velhos, já somos ou fomos casados, temos filhos, crediários ou investimentos, e essas coisas mudam a forma como nos relacionamos com dinheiro e, consequentemente, com o trabalho. Além disso, quem foi/é pobre ou “da classe C para baixo”, encara mais obstáculos na hora de conquistar uma oportunidade profissional. No início da carreira, a gente abraça o que aparece e com toda a força, para conseguir, quem sabe lá na frente, fazer o que quiser (ou o mais próximo disso) com o nosso tempo e talento.

Ao escolher definir uma geração com base em uma pequena parcela dela, mais jovem e cheia de privilégios, vocês estão, mais uma vez, marginalizando a maioria que não se encaixa nesse perfil, aqueles que, normalmente, são descartados dos seus processos seletivos, por não falar inglês, espanhol ou francês, por “morar muito longe”, por ser mais um Silva ou Santos, por não ser conhecido no seu mundo pequeno de renda mal distribuída, por não ter um selo de qualidade da universidade x…

Isso me faz afirmar, sem medo de errar, que vocês não conhecem os millenials do Brasil. Nem aqueles que, como eu, saíram da periferia e até do país, trabalhando duro para isso. Vocês não sabem que se alguns de nós podem assumir que não são produtivos de segunda a sexta, das 9h às 18h, e não querem mais ficar enrolando chefes ou clientes, é porque se esforçaram um bocado para aprender como funciona o mercado e, aos poucos, buscam alternativas para atuar nele de forma mais inteligente e otimizada. E que nós queremos sim encontrar um sentido maior para aquilo que fazemos diariamente, não porque somos deslumbrados ou achamos que vamos salvar o mundo – ainda que muitos desejem isso -, mas porque acompanhamos em casa o quanto um trabalho repetitivo e “só para enriquecer patrão” acabou com a saúde dos nossos pais, tios e avós, que, muitas vezes, contam apenas com o SUS para se tratar.

Crescer em uma realidade difícil, porém, não nos impediu de sonhar em ir além, de ter uma vida interessante e cheia de experiências, assim como desejam (e realizam) os jovens de outras classes sociais. A diferença talvez seja que, para conquistar tudo isso, nós temos que trabalhar muito, vencer o nosso medo e o preconceitode quem acha que nos basta o básico, que deveríamos “saber o nosso lugar” e, principalmente, nos preocupar em comprar produtos que nos incluíssem socialmente. Uma parte de nós, mais que nas gerações anteriores, já prefere investir dinheiro e tempo em viagens, restaurantes e outros serviços, não em carro, roupa de marca ou coisa que o valha. E isso não é luxo ou modinha, mas poder de escolha, para além do poder de compra.

Eu entendo que sempre existiu e talvez existirá o tal choque entre gerações, mas é tão raso usar isso como muleta, para tratar todos de uma faixa etária com uma falsa igualdade, que só visa desqualificar aqueles que não se encaixam nas expectativas dos RHs e dos que foram educados para mandar, mas não sabem lidar com questionamentos. Nós somos muitos e diversos, temos histórias e contextos sociais diferentes, enxergar e reconhecer isso é o mínimo para quem quer falar sobre os tais millennials, assim mesmo, no plural.

TEXTO ORIGINAL DE BRASIL POST 

Imagem da Capa: Shutterstock/Sensay

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