Masculinidade tóxica: comportamentos que matam os homens

Por Guilherme Nascimento Valadares

Jogo da primeira divisão do Brasileiro, um dia desses. Das arquibancadas, um pai xinga o bandeirinha diante de um impedimento bem marcado, mas que prejudica seu time:

– Seu corno-filho-da-puta-arrombado-viadinho, vai apitar jogo de várzea!

Os dois filhos pequenos observam atentos ao pai, são provavelmente muito novos pra saber usar palavrões – um faz cara feia e agita os braços, apoiando o patriarca; o outro se encolhe entre as pernas da mãe, puxando a saia dela pra ver se já era hora de mais um cachorro quente.

Já o filho adolescente engrossa o coro, tomando como alvo o próprio time, que aparentemente não está correspondendo às expectativas, “vai tudo dar o cu, seus bando de frouxo!”.

* * *

Num bar, na mesa atrás de mim.

– A Silvinha tá na sua, Diogo. Olha essa mini saia dela, nóssasinhora, lambia até o caroço.

– É, ela tá dando mole, mas não tô bem hoje. Na real tô sentindo falta da Carla (pelo contexto, parecia ser a ex dele).

– Deixa de ser bicha. Vai lá, pô.

Silêncio.

– É uma mocinha mesmo esse Diogo. Vai perder uma foda à toa.

* * *

Empresário passa por dificuldades, adquire divídas que colocam todo seu patrimônio em risco. Mas não abre para a família, nem pede ajuda – por medo de expor sua fragilidade e perder seu posto de homem provedor.

* * *

No churrasco, pergunto a um amigo de vinte e tantos anos que estava cursando graduação, trabalhando em uma grande construtora e, pra completar, montou empresa própria:

– Mas como você está? Digo, de verdade, como fica sua saúde emocional em meio a uma rotina tão pesada?

– Então (ele abaixa a voz, me puxa meio de canto), você não vai acreditar. Tive um princípio de infarto semana passada. Estava em casa, com meus pais, comecei a sentir uma dor estranha, foi ficando forte, forte… até que me levaram correndo no hospital e era um infarto. Sorte que o médico conseguiu me tratar na hora. Mas não vou esquecer mais do que ele me disse depois, “se você seguir nesse ritmo, não passa dos trinta”.

– Caramba! E você vinha conversando com alguém sobre a carga estar muito pesada pra você?

– Na verdade não, estava só aguentando o tranco mesmo, sabe como é.

* * *

Pai vê o filho nascer no dia 24 de maio. No cartório, muda o nascimento pra vinte e cinco, “24 é número de viado”.

* * *

Macho de verdade não chora. Quer sexo sempre que possível. Nunca nega uma trepada. Se não transa, é um bosta. Agrada mulheres pra, no final das contas, transar. Se pudesse ter sexo à vontade sem um relacionamento estável e comprometido, soltaria fogos. Não entende sinais, não entende isso de emoções também, deixa essas coisas pras mulheres. É agressivo e usa a força com quem ultrapassa seus limites. É controlado, mas impulsivo quando ofendido. Ambicioso, desdenha de quem não deseja mais da vida. Despreza comportamentos que indiquem fraqueza, vindos de outros homens. Ele mesmo agir assim? Intolerável.

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As histórias são reais. Nelas, vemos traços comuns em muitos homens:

  • agressividade excessiva
  • medo de ser gay
  • medo de ser fraco
  • medo de ser feminino
  • busca por ser percebido como altamente sexual
  • fechamento emocional (evitar vulnerabilidade)
  • obsessividade com poder e dinheiro (expressadas de modo comum em relações auto-destrutivas com o trabalho)

Tomo a liberdade de usar a palavra “medo”, pois qual outro motivo haveria para usarmos como xingamento constante o fato de alguém ser gay, fraco ou feminino? Odiamos aquilo que de algum modo tememos – seja por medo do contágio ou da identificação com o outro (Jose Léon Crochik comenta sobre, em seu livro “Preconceito, indivíduo e cultura”).

Se não há medo, difícil haver raiva.

Uma materialização dessa loucura é o absurdo argumento de defesa “gay panic” (pânico de gays), que pode ser usado nos tribunais dos EUA para atenuar as penas em casos de assassinato. A “gay panic defense” diz que avanços indesejáveis de homossexuais podem levar a “violenta insanidade temporária”. Em 2014, a Califórnia foi o primeiro estado a banir o uso desse argumento.

Ser homem, em larga medida, é essa construção de identidade baseada no medo.

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Não à toa desfilamos nossa força a todo instante, no melhor de nossa capacidade.

Os musculosos malham, brigam, exibem os bicéps e tricéps. Os inteligentes articulam, comandam, estudam, dominam temas complexos e exibem seu conhecimento. Os bons em games acumulam mortes, pontos, rankings, medalhas e os exibem nas comunidades online, notórias pela presença massiva de outros homens. Os ricos gastam, acumulam, vivem experiências de riqueza, se gabam sobre como o que importa não é o que você tem, mas o que você é, e em seguida ostentam o que possuem.

Clichês e generalizações à parte, o ponto é ressaltar o narcisismo tão comum a nós. O desmedido senso de auto-importância, talvez só equivalente ao pânico de sermos desimportantes, fracassados, fracotes.

Essa situação prende os homens no que é conhecido como “The Man Box” (A Caixa do Homem):

Dentro da caixa, os comportamentos esperados: forte, durão, intimidador, sob controle, respeitado, atlético, poderoso, rústico, assustador, não mostra fraqueza, provedor, macho, grande, não responde a ninguém, jogador, rico, sexual. Fora da caixa, como será julgado caso se comporte fora do esperado: bicha, viado, fresco, fraco, menininho da mamãe, trouxa, afeminado.

O resultado são homens com emocionalidade restrita, sufocados, que acabam por adoecer e morrer, ou se autodestruir, mais cedo. No Brasil, a nossa expectativa de vida está sete anos abaixo das mulheres.

A Associação Norte Americana de Psicologia estima que 80% dos homens nos EUA sofrem de “Alexitimia”, uma condição caracterizada pela dificuldade em identificar e expressar os próprios sentimentos. Há pessoas que se sentem confortáveis sendo desse modo, mas outras tantas, não.

É como se a gente passasse tanto tempo temendo se associar a qualquer coisa vista como emocional demais – ou seja, supostamente “mulherzinha demais” – que, quando precisamos dessa habilidade, nem sabemos como usar. E não por má vontade, mas pela mais pura e simples falta de treino. No limite, isso leva à depressão, até mesmo ao suicídio.

Homens não são mais simples do que as mulheres. São seres tão complexos quanto, apenas condicionados de outros modos.

Essa masculinidade baseada no medo, que busca se provar “macho” a todo momento – estimulando violência, fechamento emocional, homofobia e obsessão com dinheiro, sexo e poder – é tóxica. Ela perpassa homens hétero, homo, trans, pretos, pardos e brancos, deficientes e não-deficientes.

A meu ver, combater a hegemonia dessa masculinidade tóxica é algo benéfico para todos, homens e mulheres, independente de nossa orientação sexual.

Isso não significa proibir homens de expressarem sua agressividade ou sexualidade. Não obriga ninguém a sair falando dos sentimentos ao acordar.

Atacar a masculinidade tóxica é buscar liberdade.

É permitir um leque maior de escolhas sobre como deseja ser, sem que isso coloque em risco o quão homem ele é. Só. Ninguém vai te proibir ou obrigar a nada.

Em comentário recente nesse texto aqui, escutamos de uma psicóloga:

“A masculinidade tóxica tem que ser desconstruída sim. Sou psicóloga e a queixa número um dos meus pacientes homens é:

“Não me sinto cumprindo meu papel masculino.

Não ganho dinheiro pra manter minha família e ser o homem da casa.

Mas só vim porque meu chefe mandou, homem não precisa dessas frescuras não.”

Homem é GENTE. E gente SOFRE. Ponto.”

Escuto relatos similares de outros amigos psicólogos. Estamos falando de algo que efetivamente impõe dor e sinucas emocionais à grande maioria dos homens, cedo ou tarde.

Então como separar a masculinidade tóxica do restante, sem jogar tudo fora?

Penso que toda mudança começa com a tomada de consciência.

Porém, aqui cabe um parênteses, essa não é uma conversa fácil. Eu mesmo me debati anos até entender o que agora compartilho nesse texto. É importante termos paciência e acolher quem pensa diferente de nós. Não dá pra mudarmos a mente de outra pessoa como quem atualiza um software.

Sendo bem sincero, é algo que corre tão fundo dentro de nós e na sociedade, que ainda sofro com isso e não sei se é algo que um dia “vou resolver”. Há muitas tensões envolvidas na experiência de ser homem. Longe de ser vitimização ou comparação com a dor das mulheres, é apenas reconhecer ser duro. E como em qualquer tarefa árdua, a ajuda é bem-vinda.

Eu preciso de ajuda pra ser um homem melhor. Mesmo. Não é uma frase bonitinha, é a própria origem do PdH. Preciso de parcerias reais, de pessoas amigas me acolhendo e lembrando o que fazer e o que não fazer, com seus exemplos positivos e apoio constante. E talvez essa ajuda também possa ser útil a você.

Pois há traços que podem ter sido passados pra nós por corajosos bisavôs, através de impetuosos avôs, por admirados pais, que simplesmente não funcionam mais.

Não precisamos ser os homens que eles foram. E há beleza, creio, em honrar nossas famílias e linhagens tendo a coragem de não seguir seus passos quando não fazem mais sentido.

Proponho uma reflexão: pensar o que significa ser um homem para você. Em seguida, pensar quais dessas características você não precisa ou não deseja mais ter.

Experimente conversar sobre numa roda de amigos, em um momento em que isso não seja levado como piada.

Antes de recusar o exercício por alguma premissa do texto com a qual não concorde, sugiro apenas dar cinco minutos. Dê cinco minutos para digerir quais dificuldades tem enfrentado como homem, antes de pensar que “contigo o lance é matar tudo no peito, sem reclamar”.

Não precisamos ser homens do passado.

Não precisamos ser novos homens.

Podemos, pouco a pouco, estraçalhar as paredes dessa caixinha limitante para que ninguém questione sermos mais ou menos homem por algo que fizemos – ou deixamos de fazer.

Coisa de macho, não?

TEXTO ORIGINAL DE PAPO DE HOMEM

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