Não sou aquela mãe

Por Stephanie Mash

Não sou aquela mãe que passa horas sentada no chão com vocês, brincando com My Little Pony.

Não sou aquela mãe que constrói cidades inteiras com Minecraft.

Nunca aprendi a jogar Pokémon e nunca vou (nunca mesmo).

Tenho plena consciência de que deixo a desejar nesse aspecto, como mãe.

Fico grata por ter meu marido, que é ótimo quando se trata de assistir a desenhos e jogar videogames. Sorrio quando o vejo jogando bola no quintal (No quintal. Nada de jogar bola dentro de casa. Jesus!). Dou risada quando ele e as crianças brincam de lutar, de fazer cócegas, quando brincam sem parar.

Mas eu não sou essa mãe.

Eu fui aquela grávida jovem, prestes a dar à luz, que estava morrendo de medo mas determinada a pôr você no mundo e amar você como ninguém jamais amou.

Fui a mãe solteira de duas crianças, que trabalhava horas por dia mas mesmo assim brincava de dançar com meus dois filhinhos.

Cantávamos na voz mais alta possível, e nossas gargalhadas eram mais altas que a música. Antes de você nascer, eu era aquela mãe que comia cheesecake de cereja para ver você dançar (e por causa do cheesecake).

Assim que vi você pela primeira vez, percebi que você mandaria no meu coração para sempre.

Duas outras vezes eu conheci meus bebês lindos recém-nascidos, e duas vezes meu coração cresceu para que vocês todos coubessem nele. Quando você era nenê, eu era aquela mãe que não dormia para ficar olhando você.

Ainda consigo senti-lo, tão pequenininho, aconchegado contra meu peito. Quando vejo você dormindo hoje, ainda o imagino aconchegado em seu pijaminha-macacão, com cabelos revirados e cílios escuros sobre aquela pele perfeita.

Eu fui aquela mãe que passava a noite inteira embalando vocês, dando tapinhas, balançando e fazendo “sh, sh, sh” quando vocês choravam. Eu era aquela mãe que entrava em pânico com cada arranhão ou galo. Eu era a mãe que beijava os machucados para sararem. Eu fui a mãe que passava horas intermináveis esperando vocês serem engessados quando quebravam um osso ou que colocava um curativo em seus dedos (tesouras seguras para crianças – que piada).

Fui a mãe em cuja perna você se agarrou e não soltava mais no dia em que fomos visitar pré-escolas para escolher a sua. Fui a mãe que estudou online para poder trabalhar em casa, porque vocês precisavam de mim.

Eu sou a mãe que assina bilhetes da professora, checa a lição de casa e prepara o lanche para vocês levarem à escola. Sou a mãe que vai ao médico com vocês, ao dentista e às reuniões de pais e mestres.

Sou aquela mãe que há anos só usa roupas compradas em brechós, só para que vocês possam ir ao colégio usando roupa que deve ter sido costurada à mão pelos atletas mais famosos do mundo.

Sou aquela mãe que faz piadas idiotas, que canta desafinado e faz palhaçadas, só para ver vocês abrirem um sorriso. Sou aquela mãe que não trocaria seus sorrisos por nada neste mundo.

Sou aquela mãe que ama vocês muito mais do que eu jamais conseguiria explicar. E a mãe que tenta tanto mostrar isso a vocês.

Mas na maior parte do tempo, sinto que também sou a mãe que está fracassando.

Sou a mãe com depressão crônica recorrente. Sou a mãe com transtorno de ansiedade generalizada. Sou a mãe com TEPT (transtorno de estresse pós-traumático). Sou a mãe que tem enxaquecas crônicas. Sou a mãe que sofre de dor crônica.

Sou a mãe que vai ao médico mais vezes que à cabeleireira. (Nem me lembro da última vez que fui ao salão, hahaha. Mas você tem hora marcada amanhã.)

Sou a mãe que luta todos os dias para fazer as coisas que precisam ser feitas para que vocês possam viver uma vida “normal”.

Sou a mãe que lava suas roupas, mesmo quando preciso me sentar para separar as peças coloridas das brancas. Sou a mãe que garante que a conta de água seja paga, para que vocês possam tomar banho.

Sou a mãe que corta suas unhas, compra sua pasta de dentes e lembra vocês de usar desodorante.

Também sou a mãe que esquece coisas. Não as coisas grandes, tipo aniversários ou Natal, se bem que no caso da Fadinha dos Dentes, já houve alguns deslizes. Mas esqueço coisas que vocês me contaram.

Esqueço que quando você estava jogando videogame ontem, você marcou 58 pontos e ganhou um prêmio… o que era mesmo? Um frango? Não sei. Esqueci.

Mas também sou aquela mãe que é capaz de perceber quando vocês estão chateados, bastando um olhar, e que os ouve quando vocês estão tristes ou bravos e quando estão felizes e animados, apesar de eu geralmente esquecer os nomes de seus queridos pôneis, os pontos marcados por LeBron e como marcar pontos.

Sou a mãe que quer acabar com todos seus dragões e soprar fogo em cima de qualquer pessoa que ouse ferir um de vocês.

Também sou a mãe que muitas vezes sente tanta dor que não consegue fazer o jantar. Sou a mãe que deixa vocês comerem macarrão e pizza pronta demais.

Sou a mãe que está com pilhas de roupa lavada em cima do sofá porque meus braços doem tanto que não consigo dobrar as roupas.

Sou a mãe que fica nervosa muito facilmente. Sou a mãe que sente vontade de se esconder quando tudo fica demais para ela.

Sou aquela mãe que chora escondida no banheiro quando sente que decepcionou seus filhos.

Sou a mãe que fica acordada à noite, preocupada com vocês. Sou a mãe que queria poder guardar todos seus abraços e seus “eu te amos” e pegá-los de volta nos dias em que não há abraços, apenas portas batidas com raiva.

Sou a mãe que ama vocês TANTO.

Vocês são meus filhos, que salvam minha vida todos os dias. Eu sou a mãe que está tentando ser aquela que vocês merecem, mesmo quando não sou aquela que vocês talvez quisessem.

Texto original do Brasil Post

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