Por Carol Pereira

Por que traímos? Por que pessoas felizes traem? Quando falamos em “infidelidade”, o que exatamente queremos dizer? Um caso, uma história de amor, sexo pago, uma troca de mensagens, uma massagem com final feliz? Por que pensamos que os homens traem por tédio e medo de intimidade, enquanto as mulheres o fazem por solidão e anseio por mais intimidade? Um affair é sempre o final de uma relação? Estas são algumas das perguntas que introduzem a palestra da psicoterapeuta belga Esther Perel sobre infidelidade no TED Talks. Este texto reúne algumas das respostas oferecidas por ela.

Perel comenta como os conceitos associados a relacionamentos mudaram ao longo do tempo. A monogamia, por exemplo, já significou passar a vida inteira com a mesma pessoa, enquanto hoje basta ficarmos com uma pessoa por vez para sermos considerados monogâmicos. Prova disso é que uma frase como “Sou monogâmico em todos os meus relacionamentos”, nos dias de hoje, não causa estranheza.

Ela comenta que a monogamia, em seus princípios, não apresentava nenhum vínculo com o amor, já que a fidelidade das mulheres era vista somente como um jeito de os homens controlarem a origem dos filhos, o que garantiria o destino “correto” para suas heranças. Quando o casamento era somente um empreendimento econômico, portanto, era nossa segurança econômica que a infidelidade ameaçava. O problema é que agora, com o casamento transformado em um acordo romântico, a infidelidade passou a ameaçar nossa segurança emocional.

Porque a infidelidade machuca? Uma das justificativas de Perel está relacionada a nosso ideal romântico: esperamos que nosso par preencha uma lista infindável de necessidades, como ser o melhor amante, o melhor amigo, o melhor pai ou mãe, o confidente fiel, companheiro emocional, par intelectual etc. Se essa configuração funciona, nos sentimos a pessoa certa: o escolhido, o único, o indispensável, o insubstituível. O que a infidelidade nos diz é que não somos nada disso.

Como ameaça nossa autoestima, a infidelidade é mais que dolorosa: é, quase sempre, traumática. O que explica, então, a inclinação atual das pessoas para ter casos? Não se trata de termos novos desejos agora, mas do fato de que vivemos em uma era na qual impera a busca pela concretização de nossos desejos. Vivemos a cultura do “mereço ser feliz”. Perel afirma: “se costumávamos nos divorciar por estarmos infelizes, hoje nos divorciamos porque poderíamos estar mais felizes”. Se antes o divórcio era uma vergonha, hoje, a nova vergonha é escolher ficar quando você pode partir.

Se ir embora ficou mais fácil, por que as pessoas ainda têm casos amorosos? É comum atribuirmos a traição a algum defeito no relacionamento ou a uma falha moral do traidor. Para a psicoterapeuta, porém, “não há como milhões de pessoas serem todas casos patológicos”. A maioria dos pacientes que recebe não é de “paqueradores crônicos”, mas de pessoas profundamente monogâmicas em suas crenças que se encontram em conflito entre seus valores e comportamentos. Por que correm o risco de perder tudo? Geralmente, os pacientes relatam um anseio por uma conexão emocional, novidade, liberdade, autonomia, intensidade sexual, um desejo de recapturar partes perdidas de si mesmos ou uma tentativa de resgatar a vitalidade.

Uma conclusão importante é que, quando uma pessoa busca algo novo, nem sempre está dando as costas ao companheiro, mas sim a si própria, à pessoa que se tornou. Não estão à procura de novidades em um outro alguém, mas à procura de um novo “eu”.

Perel comenta que muitas histórias de traições acontecem depois de as pessoas enfrentarem perdas, como a morte de alguém próximo ou más notícias sobre saúde. Ela acredita que esses acontecimentos suscitam questões como “Então é só isso? Existe algo além? Vou viver mais 30 anos assim?”. Por isso, considera que alguns casos podem ser uma tentativa de driblar a mortalidade; uma busca pela sensação pulsante de estar vivo.

Ao contrário do que se costuma pensar, os affairs têm mais a ver com desejo que com sexo: desejo por atenção, por se sentir especial. A própria impossibilidade de ter o amante é responsável por manter o desejo. A incompletude seria, portanto, uma máquina de desejo. Além disso, há o poder atrativo do proibido: quem faz o que não deveria se sente fazendo o que realmente quer. A psicoterapeuta comenta: “Já disse a muitos dos meus pacientes que, se trouxessem para seus relacionamentos um décimo da ousadia, imaginação e vivacidade que colocam em seus casos extraconjugais, eles jamais precisariam de mim”.

Embora a maioria dos casais que vivenciam traições continuem juntos, são poucos os que fazem da crise uma oportunidade; alguns apenas sobrevivem. Para o parceiro traído, a descoberta do caso pode ser uma chance para exigir mais; assim, não precisa mais sustentar uma condição que certamente também não funcionava bem para ele. O acerto de contas que sucede uma traição pode abrir espaço para conversas profundas e honestas que ficaram décadas sem acontecer. O medo da perda, nesses casos, pode reacender o desejo.

Perel pergunta: Quando uma traição é descoberta, o que os casais podem fazer? Para ela, a cura começa quando o traidor admite seus erros. Um passo seria terminar o caso, mas outro importante e essencial seria o ato de expressar culpa e remorso pela mágoa causada. Entretanto, ela afirma: “A verdade é que noto que muitas pessoas que têm casos extraconjugais podem se sentir terrivelmente culpadas por magoar seus parceiros, mas não se sentem culpadas pela experiência em si.

E essa distinção é importante. Cada caso extraconjugal redefinirá uma relação, e cada casal determinará qual será o legado da traição. Mas as traições chegaram para ficar; não irão embora. Os dilemas do amor e desejo não suscitam apenas simples perguntas de preto no branco, bom e mau, vítima e traidor. A traição em um relacionamento vem de várias formas. Há muitos modos de trair o parceiro: com desprezo, com negligência, com indiferença, com violência. Traição sexual é apenas um modo de magoar um parceiro. Em outras palavras, a vítima da traição nem sempre é a vítima no casamento.”.

Se o discurso de Perel parece favorável às traições, ela esclarece: acreditar que é possível extrair coisas positivas de uma traição não corresponde a defender que traições aconteçam. E acrescenta: “Eu não recomendaria que alguém tivesse um caso, assim como não recomendaria que alguém tivesse câncer. No entanto, sabemos que muitas pessoas que já adoeceram falam sobre como a doença mostrou a eles uma nova perspectiva”.

As traições causam mágoas, mas também podem ser o ponto de partida para crescimento e autodescobrimento. Quando um casal procura a psicoterapeuta em busca de ajuda para acertar as contas após a descoberta de uma traição, ela não hesita: “Atualmente, no Ocidente, a maioria das pessoas têm entre dois ou três relacionamentos ou casamentos, alguns deles com a mesma pessoa. O primeiro casamento de vocês acabou. Gostariam de criar um segundo casamento juntos?”.

* Texto baseado na palestra “Repensando a infidelidade … uma palestra para quem já amou”. Você pode assisti-la aqui:

Imagem de capa: Shutterstock/fizkes

TEXTO ORIGINAL DE OBVIOUS

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