Por Bárbara Semerene

No caminho para o trabalho hoje pela manhã, me lembrei da Nise da Silveira, aquela psiquiatra que revolucionou o tratamento da loucura no Brasil no século passado, substituindo os violentos choques que na época costumavam aplicar para “ajustar” pessoas à sociedade por um tratamento que usava a arte para reabilitar os pacientes rejeitados pelo sistema e isolados do convívio. Nise transformou esquizofrênicos marginalizados e esquecidos em artistas, autores de obras hoje expostas no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro (RJ).

Lembrei-me de Nise quando escutava pela rádio CBN entrevista com o governador do Amazonas, José Melo, sobre a chacina no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, que deixou cerca de 60 detentos mortos. Ao ser questionado se a maioria dos presidiários assassinados na verdade não fazia parte de facção criminosa (dando a entender que seria um erro associar a chacina às facções), o governador respondeu:

“Não sei se não faziam parte de facção. O que sei é que não tinha nenhum santo: eram estupradores, matadores…”

Durante a entrevista, o governador do Amazonas defendeu o reforço das forças armadas nas fronteiras e a maior fiscalização como solução para o problema do narcotráfico no País, a superlotação nas penitenciárias e a guerra entre facções. “Qualquer outra coisa que se fizer é enxugar gelo”, concluiu, argumentando que “o governo federal tem estrutura bélica, vamos utilizar esta força viva, esta estrutura que eles têm para fazer o trabalho nas fronteiras e impedir que as drogas saiam de lá para dentro do país”.

Pena que o método humanizador de Nise parece ter ficado restrito aos manicômios

Imagino Nise da Silveira se revirando no túmulo, indignada com esta lógica do policiamento ostensivo como a derradeira solução para conter o crime, e o pensamento de que “bandido bom é bandido morto”. Imagino-a analisando com ternura e comprometimento a questão, com aqueles olhos ao mesmo tempo firmes e doces, interpretados pela talentosa Glória Pires no filme Nise – O Coração da Loucura, que no ano passado esteve em cartaz nas salas de cinema nacionais.

Nise descobriu que a loucura — e toda a angústia e o sofrimento causados pela falta de lucidez e dificuldade de elaboração emocional — eram o motor de grandiosas produções artísticas. Trabalhando a arte com os doentes mentais nos manicômios, conseguiu, de um lado, resgatar o valor e a autoestima deles e, de outro, acessar de maneira inédita o funcionamento singular da psique de cada um, adquirindo uma maior compreensão da sua realidade. Ao acolher a loucura e transformar cada “louco” em artista, os empoderou e resgatou sua dignidade, com um mínimo de autonomia e grande visibilidade social. Nise acreditou naquelas pessoas. Acreditou na possibilidade de transformação pessoal. E foi esta fé que deu forças e determinação para que lutasse contra o sistema vigente e investisse em cada uma delas.

Pena que o método humanizador de Nise parece ter ficado restrito aos manicômios. Prevalece ainda hoje o pensamento de que “bandido bom é bandido morto” porque parte-se do pressuposto que criminosos do naipe de narcotraficantes e estupradores “não tem mais jeito”, “pau que nasce torto nunca se endireita”. E reina a lógica do “vigiar, rotular e punir” como medida efetiva para “conter” a bandidagem.

Urge introduzir a arte no submundo das prisões para despertar a sensibilidade de quem está ali

Esta lógica permeia basicamente todos os setores da nossa sociedade, começando pela criação que damos aos nossos filhos e passando pelo nosso sistema educacional: “vigiar, rotular e punir” para enquadrá-los em nossas regras e expectativas.

Desde que a criança nasce, é comum os pais darem reforços negativos (em vez de positivos) para que ela “aprenda” a obedecer e agir “corretamente”, utilizando de ameaças e manipulação através do medo. O subtexto, na visão da criança, é: só serei amada se eu for como os outros desejam. E, assim, passam boa parte da vida sem saber quem realmente são, reproduzindo comportamentos, sem sequer arriscar olhar para dentro. Seus desejos não conseguem passar da fronteira de seus corpos oprimidos. E assim, seguem a vida na eminência de explodir desenfreadamente a qualquer momento, uma vez que nunca se sentiram acolhidos em sua essência o suficiente para se permitirem se ver no espelho, se respeitar e se expressar com liberdade.

Precisamos de mais Nises da Silveira na nossa sociedade e no nosso sistema penitenciário. Urge introduzir a arte no submundo das prisões para despertar a sensibilidade de quem está ali. Acessando seus potenciais talentos positivos, talvez tenham a chance de expressar o que tem de bom. Assim, quem sabe, teremos superproduções culturais em vez de superlotações.

TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


Compartilhar

RECOMENDAMOS


Psicologias do Brasil
Informações e dicas sobre Psicologia nos seus vários campos de atuação.

COMENTÁRIOS