Precisamos falar sobre ‘violências’: agressão é só tapa na cara?

Por Laiz Chohfi

Ela chegou no consultório dizendo que estava tendo altos e baixos. Não sabia mais se deveria ou não se separar do marido. Ele, que a deixava sem dinheiro nem pra água de casa, agora estava oferecendo presentes e dando beijos de boa noite – embora ainda a deixasse sem dinheiro nenhum pras compras da casa…

Ela disse que não estava mais entendendo o que estava acontecendo, se de fato ele era uma pessoa boa ou não. Não sabia mais no que acreditar, pensava que poderia estar vendo coisas onde não tem, que talvez ele fosse mesmo o homem maravilhoso do qual ela sentiria falta – ele disse, por várias vezes que, depois de se separar, ela veria o quão maravilhoso ele era. E ela chorou muito nesse dia enquanto falava.

Muitas vezes a gente pensa que violência é só “tapa na cara” e derivados. Que sempre exige um contato físico. E isso está certo? De certa forma, sim. Mas violência é muito mais do que violência física somente. E hoje vamos falar dessa violência velada, que é a violência possível a partir das palavras.

A vinhetinha de caso aí acima nos permite pensar um pouco a esse respeito. Deixar alguém que, no momento, depende de você, sem ter como se virar sem ser pedindo, é muita humilhação. E humilhação é violência. Com palavras e ações, que não são necessariamente “porrada”. É colocar o outro num lugar de muita vulnerabilidade, é fragilizar o outro. Além disso, deliberadamente confundir o outro, não ser claro ou escolher transmitir duplas mensagens, também é agressão.

GIL

Falei aí acima de confundir o outro. Vamos à uma vinhetinha pra pensar a esse respeito mais aprofundadamente?

Ela dizia que tinha vivido um relacionamento abusivo. Seu namorado, ela descobrira depois, tinha outras três namoradas. Dizia pra ela que esses relacionamentos já tinham acabado, que um deles inclusive havia sido um relacionamento aberto, e que não teria o menor problema eles ficarem juntos. Segundo ela, ele a cada dia ele dizia uma coisa diferente. Podia ser o nome de uma ex (na verdade, atual), a data de início ou do término do relacionamento… Enfim, ela sempre tinha entendido mal, entendido errado, estava esquecida ou qualquer coisa do gênero. No fim, ela acabou terminando com ele quando ficou sabendo dos outros três relacionamentos. Sentia-se muito mal por ter sido enganada e por não ter percebido nada.

Mentir, omitir, insinuar ou confundir pode ser violência também. Fez o outro sofrer? É violência. A régua é o sofrimento do outro, não o que eu penso como sendo ou não violência. É o corpo do outro que dita o tom e o limite. Outra trilha de pensamento comum nesses casos é mais ou menos assim: nossa, mas que trouxa ela! Vai ficar com um cara assim por que? É como se a culpa fosse só dela, como se ela tivesse escolhido não enxergar. Como se ela tivesse culpa de o cara ter sido um babaca. E adivinhe só? Culpabilizar também pode ser violência. Claro que ela tem uma parcela de responsabilidade. Mas é de responsabilidade, não de culpa.

Última vinhetinha do dia:

Ele havia agredido a professora. Pegou-a pelo braço quando ela o usava de exemplo de “aluno que não se deve ser” para a turma. Durante a conversa, a mãe, que estava junto, disse que a professora só achou aquilo que aconteceu fora da normalidade porque ela não tem filhos. Se tivesse, entenderia que essas coisas acontecem e não teria se chocado a ponto de levar a situação para a diretoria da escola.

Muitas violências acontecendo nesse último causo. Primeiro, a mais óbvia, que é a agressão do aluno à professora. Essa é física, o que a torna quase que indiscutível nesse caso. Mas e as veladas? A primeira delas que eu gostaria de falar a respeito é a da mãe para com a professora. Deslegitimar o que a professora disse por ela ser quem é, ter a história e/ou família que tem é violência também. Então por não ter filhos ela não tem o que dizer da situação?! E, agora, a violência mais escondida dessa história: a da mãe em direção ao filho. Desresponsabilizar, dizer que o que o outro faz é aceitável, que nada tem problema, “sempre passar a mão na cabeça” pode ser violência também. E sabe por que? Porque impedimos o outro de crescer a partir do ato de se responsabilizar pelas próprias ações no mundo.

Portanto, é muito importante que prestemos atenção nas nossas ações e palavras por aí afora. Tudo que a gente diz pode deixar marcas no outro. Palavras podem ser tão ou mais violentas do que agressões físicas. Fique atento!

TEXTO ORIGINAL DE HYPENESS

* Laiz Chohfi trabalha como psicóloga na Universidade de São Paulo (USP). É pesquisadora no LEFE-USP (Laboratório de Estudos em Fenomenologia Existencial e Prática em Psicologia), professora na Universidade Paulista (UNIP) e atende em consultório particular. Mãe de dois gatos, é amante de (dirigir) bons carros e está constantemente pensando na próxima tatuagem.

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