Tempos de solidão

Por José Machado Pais

Em que pensamos quando falamos de solidão? Como chegar à realidade desse sentimento que vai muito além das palavras que o podem expressar? Esse é um desafio ao qual as ciências sociais se têm esquivado, na exata medida em que os sentimentos se esquivam aos métodos habitualmente empregados para dar conta de outras realidades que não a dos sentimentos. Estes, é certo, são irredutíveis, na sua plenitude, ao conhecimento. A não ser que estejamos perante os nossos próprios sentimentos, isto é, a não ser que os vivamos. Nem assim estamos seguros de os saber interpretar. Por quê? Porque embora vivida individualmente, a solidão é um fenômeno social.
Para entendermos a solidão – mesmo enquanto sentimento individual – há que olhar o seu avesso, que é tecido de laços sociais: ausentes ou perdidos. Por essa razão é que uma possível sociologia ou antropologia dos sentimentos ou das emoções só faz sentido quando buscamos o lado social do que nos parece (ou aparece) como um fenômeno centrado no indivíduo. Por isso mesmo, na conceituação da solidão, proponho a metáfora da moeda para significar um equivalente geral de trocas – de trocas afetivas – pois o sentimento da solidão flui num leito (solus) determinado por duas margens de variabilidade convergente: o isolamento e o relacionamento.
A solidão não é o pouso inevitável de quem está só. Podemos estar sós sem que estejamos em solidão. E podemos viver um sentimento de solidão quando não estamos sós
Porém, há que desembrulhar o sentimento de solidão da ideia de ‘estar só’. A solidão não é o pouso inevitável de quem está só. Podemos estar sós sem que estejamos em solidão. E podemos viver um sentimento de solidão quando não estamos sós. É o que ocorre quando alguém, carente de relacionamentos, olha em seu redor e se vê entre estranhos ou indiferentes.

A solidão diz respeito a um estado de subjetividade enquanto o ‘estar só’ se refere a uma situação visível e objetiva. O isolamento pode ser expressão da liberdade de cada um em querer estar só.
Artistas, escritores e cientistas frequentemente descrevem a sua ‘solidão’ como uma condição necessária à criatividade. A afirmação da individualidade reclama, muitas vezes, a necessidade de ‘estar só’, de ficar mais tempo ‘consigo mesmo’, de ‘falar com os seus botões’, enfim, o sentimento de que ‘mais vale estar só do que mal acompanhado’. Nesse, e apenas nesse sentido, a solidão representa a aceitação plena de uma desejada individuação e não o temor de estar só – fisicamente só, ou pior ainda: ter alguém ao lado, sem viabilidade de comunicação.
Quando o outro está fisicamente próximo mas socialmente distante, quando os muros de silêncio não deixam ver nem ouvir o que o outro tem para dizer, então sim, estamos no terreno da solidão. Ao analisar a solidão dos moribundos, o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) mostrou claramente como ela decorre de um sentimento de exclusão em relação à comunidade dos viventes. Assim acontece quando os idosos são despejados em lares ou hospitais como ‘pesos mortos’, passando, frequentemente, a ser ‘casos’ que ocupam ‘cadeiras’ ou ‘camas’.
cemitério
As sutilezas farmacológicas especializaram-se no tratamento de enfermidades corporais mas não sabem como lidar com o mal da solidão. Não se remedeia a solidão como quem dá remédio a uma doença. Outrora a morte era visível, reconhecida, ritualizada. Ela ocorria em espaços domésticos, em casa se morria e nela se fazia o velório, com a presença de familiares, vizinhos e amigos. Agora morre-se mais frequentemente longe da família, em companhia de desconhecidos e maquinetas. Estamos perante uma solidão ‘civilizada’, que silencia a exteriorização do sentimento perante a dor. Nos enterros, as próprias lágrimas são camufladas por óculos de sol.

Sublimação no cemitério
Como quer que seja, apesar de a solidão ser um fator comprometedor da qualidade de vida dos idosos, há artes de lidar com ela. Uma das histórias mais apaixonantes que acompanhei foi a de Kinkas, um idoso solteiro, com mais de 80 anos de idade. Vivendo sozinho numa casa térrea em um bairro de Niterói, município do Rio de Janeiro, Kinkas tipifica a vivência de uma solidão sublimada, no caso, por meio da valorização da memória dos mortos. Frequentador assíduo dos cemitérios locais, Kinkas vai anotando num caderninho as visitas havidas e por haver. Quando se abeira de algum cemitério costuma pedir licença às almas para entrar “em casa delas”, à saída agradece a hospitalidade recebida.
Numa de suas deambulações prendeu-se de amores por uma mulher, a quem carinhosamente trata por Telvina. Nunca a conheceu ao vivo, mas não tem dúvida de que era tão bonita quanto aparenta ser na fotografia da lápide, “linda de morrer”. Asseverando, com ironia: “Sempre do meio corpo pra cima, porque ela tá ali, só o busto, né?”.

Nas lápides vizinhas jazem os familiares de Etelvina. Estão lá as fotografias de todos eles. Tudo boa gente. Nunca se intrometeram no namoro, nada de represálias, mexeriquices ou fofocas. Na hora de a beijocar, Kinkas convence o falecido marido a virar a cara para o lado. Etelvina faleceu aos 35 anos, ainda Kinkas não tinha nascido. Nada que obste a esse grande amor que perdura há 20 anos e parece sincero e profundo.
Hoje o que mais se valoriza é a morte, não tanto os mortos
Como explicar a incessante busca de convivência com os mortos, por parte de Kinkas? Resquícios de uma cultura em decadência que valorizava os mortos? Hoje o que mais se valoriza é a morte, não tanto os mortos. Outrora, o culto aos mortos era manifestamente público, não faltando as carpideiras. Agora, o culto aos mortos privatizou-se, ainda que em algumas regiões rurais os mortos continuem a ser objeto de culto.

No cemitério Morada da Paz, em Natal, há lanches e piqueniques entre rodadas de cerveja, exposições artísticas, concertos musicais e oficinas de artes para crianças. Ou seja, os vivos acabam por encontrar na cidade dos mortos possibilidades de encontro que, em alguns casos, escasseiam na cidade dos vivos.
As visitas aos cemitérios são uma forma de Kinkas combater a solidão. Os mortos são o alimento afetivo da sua vida. Além do mais, não decepcionam. O mesmo se pode dizer dos animais de que se rodeia, muitos deles com nome de gente. Quando a solidão surge como o resultado de um esbatimento das relações entre os vivos, pode surgir uma busca compensatória de relações com os habitantes de outros mundos: o dos mortos ou o dos animais de estimação. Num ou noutro caso, a geração do relacional corresponde a uma regeneração social produzida pela religação de indivíduos desconectados.
A solidão associa-se a processos de desidentificação relacional, vazios existenciais que favorecem envolvimentos religiosos. O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) sugeria, nas Formas elementares da vida religiosa, que as ritualidades religiosas podem ser soluções mágicas aos problemas da vida. Assim se têm desenvolvido algumas igrejas que prometem aliviar o sofrimento de quem as procura. No Brasil encontrei sugestivos exemplos: Igreja Evangélica Abominação à Vida Torta, Associação Evangélica Fiel até Debaixo d’Água, Igreja E.T.Q.B. (Eu Também Quero a Bênção), Igreja Evangélica Luz no Escuro, Comunidade do Coração Reciclado etc.
cachorro

Os animais de companhia podem também cumprir o preenchimento de vazios relacionais, ajudando a contornar sentimentos de isolamento ou solidão.

Tentando cartografar os sentimentos de perda pela morte de animais, inventariei as lápides das campas do cemitério de animais do Jardim Zoológico de Lisboa. Foram recenseadas 1.338 campas, de onde resultou uma base de dados com 1.524 registros de inscrições em mármore. Tomando um universo dos 657 nomes de animais recenseados, o que descobri foi que uma grande parte dos nomes atribuídos aos animais correspondem a formas de manifestação de uma afetividade que se usa dos nomes para melhor se expressar. Enfim, o relacionamento dos humanos com os animais espelha, frequentemente, as relações que têm entre si.

Múltiplas variantes
Nenhuma homologação conceitual pode recobrir a pluralidade de vivências da solidão, seus múltiplos rostos. À solidão dos desapossados, associada a condições de privação, contrapõe-se a solidão possessória, a que procura preencher o vazio do ser com o delírio do ter. Distinta é a solidão do ressentimento, flagelada por desamores, atormentada por lembranças dolorosas, ferida de orgulho.

Nos labirintos da dramaturgia do cotidiano – retratados pela atriz brasileira Elisa Lucinda, na sua peça Parem de falar mal da rotina – do que nos damos conta é dos cárceres de que somos vítimas ou nos impomos por efeito desse ressentimento. Diferente é a solidão da perda, provocada por ausências sofridas, como a de entes queridos que a morte levou, deixando um vazio que só a saudade pode ocupar.

Em contrapartida, na solidão da disjunção, a conexão presencial com outros perdura, embora carente de nexos afetivos, como acontece com uniões conjugais que se arrastam em sua degradação.

Muitos rostos de solidão espelham tendências depressivas que levam ao enclausuramento ou a uma descrença desnudada de afetos e, sobretudo, de esperança. Expressão do individualismo contemporâneo, surge também a solidão da indiferença, marcada por dificuldades de abertura aos demais ou por uma fadiga da compaixão.

Em grande parte de suas múltiplas variantes, a solidão aparece na sequência de uma série de desenlaces sociais. Na verdade, cada um de nós é uma pressuposição de outros, mesmo de outros que existem em nós e que em nós se atam em sua conflitualidade. Como chegar aos outros que existem fora ou dentro de cada um de nós? Dado que o sentimento da solidão é tecido por desfiliações sociais, a fuga à solidão passa necessariamente pela superação dos desencontros que a produzem, pelo avivamento de laços de solidariedade, pela intensificação de sentimentos de pertença social.

TEXTO ORIGINAL DE CIÊNCIA HOJE

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