Se você está lendo este texto, é bem provável que seja uma daquelas pessoas que costumam classificar como “cheia de manias”. E o que nós propomos é te ajudar a descobrir se as suas manias são apenas resultado da sua personalidade, ou se podem ser TOC, o Transtorno obsessivo-compulsivo. Para começar, leia os dois exemplos fictícios a seguir e tente identificar qual destes personagens teria mais probabilidade de apresentar um transtorno obsessivo-compulsivo.

“João organiza metodicamente seu armário. Em cada gaveta e prateleira, há uma lógica que orienta a disposição dos itens e ele se incomoda quando essa ordem é perturbada.”

“Maria não consegue sair de casa sem conferir se desligou o fogão. Antes de ir trabalhar, ela volta para se certificar, acende e apaga algumas vezes as chamas, até ter certeza de que está tudo certo.”

A opinião do especialista

De acordo com o psiquiatra Luiz Fernando Petry, o comportamento que descrevemos para Maria é o que mais tende para o obsessivo-compulsivo, uma vez que não necessariamente há uma lógica por trás dele. Não há, é claro, nada errado em se certificar de que todas as bocas do fogão estão desligadas antes de ir para o trabalho.

Ainda segundo o psiquiatra, o problema existe quando este hábito se transforma em um ritual e passa a gerar desconforto e sofrimento para quem o pratica — ou seja, Maria perde meia hora todos os dias acendendo e apagando a chama do fogão. Neste caso, ela poderia ser diagnosticada como um distúrbio psiquiátrico de ansiedade que é bem real: afeta quatro milhões de brasileiros, segundo estimativas da OMS.

Aquilo que popularmente chamamos de mania tem mais a ver com um comportamento rigoroso e metódico. “Geralmente, é uma questão de personalidade — umas são mais rígidas e outras menos, mas elas encontram uma lógica que justifica o porquê de fazerem as coisas daquele jeito — seja porque facilita decisões, porque economiza tempo, entre outros. Em geral, as manias não incomodam a pessoa que faz. Quem se incomoda são os outros”, explica Luiz Fernando Petry.

O que muda quando se trata de um comportamento obsessivo-compulsivo é que o indivíduo simplesmente não consegue agir de outra forma sem acreditar que algo de muito negativo vai acontecer.

“Nas síndromes obsessivas compulsivas, o que acontece é um fenômeno chamado obsessão, que é bem mais complexo, em que a pessoa tem um cenário de pensamentos e medos ou preocupações com coisas que parecem absurdas, e que geram uma imensa angústia. E assim desenvolve de maneira intuitiva um grupo de comportamentos que aliviam essa sensação”.”

“Em muitos casos, as atitudes quase ritualísticas de quem desenvolveu o TOC estão relacionadas com medos reais, expressos de maneira exacerbada. “Ele pode, por exemplo, estar associado à necessidade que o indivíduo tem de controlar algum tipo de impulso, normalmente violento”.

Por exemplo: a pessoa vê uma faca, começa a ter pensamentos invasivos de que ela pode ter a vontade de pegar a faca e usá-la para machucar alguém. “Para evitar isso, ela cria intuitivamente um ritual para ter certeza de que aquele pensamento vai embora”, exemplifica o psiquiatra.

Outro aspecto que pode induzir a esses comportamentos é algum acontecimento impactante ou transformador na vida dos sujeitos, conforme detalha a psicóloga Tatiane Maraschin Fermiani. “Muitas vezes, a pessoa sofre um trauma — como, por exemplo, ser assaltado na rua —, e aí começa a desenvolver rituais de segurança, como trancar a porta várias vezes”.

Por outro lado, a mania pode ser apenas um traço de personalidade ou estar atrelada a outras condições “Dentro da psiquiatria, o termo mania é usado dentro de outros transtornos, como o transtorno bipolar, que tem o momento de depressão, em que a pessoa está com o humor deprimido e/ou o humor eufórico e a mania”, elucida ela.”

“Como saber se você tem TOC e como tratar?

As únicas pessoas que podem diagnosticar um transtorno obsessivo-compulsivo são os psicólogos e psiquiatras, já que não existem exames que possam detectar essas doenças e, portanto, isso é feito por observação clínica. Apesar disso, é possível antecipar se uma pessoa pode estar desenvolvendo ou já ter desenvolvido o TOC e precisa de ajuda observando algumas perguntas:

• Há uma lógica ou justificativa para esses comportamentos?
• Os comportamentos acontecem para melhorar a vida da pessoa ou causam sofrimento ou danos para o seu dia a dia?
• Essa pessoa sofreu algum trauma que possa ter motivado esse comportamento?

Se a resposta for que não há um raciocínio lógico e as atitudes repetitivas ou ritualísticas do indivíduo têm justificativas absurdas e quase místicas, ou ainda, esses comportamentos atrapalham a vida da pessoa, é hora de procurar ajuda.

“O TOC abrange um certo número de tipos e sintomas, mas que têm a mesma natureza. São pensamentos intrusivos que geram angústia, tem a ver com dúvidas absurdas, sortilégio, ou seja, a pessoa diz ser azarenta, agourenta, é um pensamento mágico ou místico que em geral não tem nada a ver com a religião que a pessoa pratica”.

Outro aspecto para ficar de olho, segundo a psicóloga Tatiane, é o contexto de saúde mental do indivíduo. “Os sintomas do TOC não são exclusivos deste. Muitas vezes, há o que a gente chama de comorbidade, que são outras condições associadas. O transtorno de ansiedade, por exemplo, traz também a questão de organização, e isso vai se agravando e junto com a ansiedade a gente tem o TOC também. Caso a pessoa já tenha um transtorno ou a depressão, ela pode vir a desenvolver o TOC também”.

A definição de um tratamento vai, segundo os profissionais, depender da identificação dessas comorbidades e da gravidade do TOC. Em alguns casos, a abordagem selecionada pelos profissionais é medicamentosa, mas em muitos deles há a opção de tratamento com psicoterapia e exercícios, ou uma associação destes métodos terapêuticos com algum tipo de medicação.”

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Destaques Psicologias do Brasil, com informações de Gazeta do Povo.
Foto destacada: Bigstock

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