Existem pessoas que crescem aprendendo que tudo tem fórmula: boas notas, bom comportamento, currículo impecável e pronto, a vida responde com “sim”.
Intenções Cruéis pega essa crença e começa a apertar o parafuso logo na primeira cena, quando fica claro que a protagonista não está exatamente bem, só está funcionando no modo automático.
Não tem cena espalhafatosa de desespero: o que aparece é um controle rígido, quase mecânico, como se qualquer deslize pudesse desabar o que ela passou anos montando.

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Olivia é esse tipo de aluna que nunca dá motivo para comentário. Educada, aplicada, sempre “certa” no jeito de falar e de agir.
Só que uma tragédia recente muda a textura do cotidiano: a morte de uma amiga não vira catarse, vira um silêncio insistente, daqueles que tomam espaço dentro de casa, na escola e até no jeito de sorrir. Ela continua indo bem, continua planejando o futuro, mas agora tudo parece exigir energia dobrada.
Aí vem o golpe que termina de bagunçar o que já estava frágil: a universidade que ela mais queria diz não. E esse “não” tem peso de sentença, porque não mexe só com um plano acadêmico; mexe com a identidade que ela cultivou a vida inteira.

O suspense do filme se alimenta desse desconforto: quando a pessoa que sempre se garantiu no desempenho descobre que o mérito não dá conta de tudo, o que sobra para segurar de pé?
Em vez de transformar a queda de Olivia em um evento único, o roteiro estica o processo. Primeiro o luto cria rachaduras, depois a rejeição amplia as fissuras, e o corpo começa a reagir com ataques de pânico.
Não é só ansiedade “do nada”: é como se o organismo finalmente dissesse em voz alta o que ela tenta empurrar para baixo do tapete.
A vida ao redor segue normal, mas o jeito como ela percebe tudo muda — e é aí que o filme ganha força, porque o terror está menos no cenário e mais na cabeça dela.
Sem saber lidar com a sensação de impotência, Olivia passa a buscar uma saída onde existe plateia e resposta instantânea: nas redes sociais. Só que não entra ali para se distrair.

Ela usa o ambiente como ferramenta, quase como um experimento: medir reações, provocar, cutucar, testar limites. Atacar vira um jeito rápido de recuperar a sensação de comando. Se ela não consegue mais vencer “do jeito certo”, tenta dominar pelo impacto.
O interessante é que Intenções Cruéis não simplifica isso como “agora ela virou má”. Olivia não muda de personalidade num estalo; ela vai se desmontando por dentro e encontrando, peça por peça, um novo jeito de se afirmar.
Cada investida vem com um grau a mais de ousadia, como se ela precisasse de doses maiores para sentir o mesmo alívio. E como esse alívio depende do outro reagir, a crueldade vira um vício de confirmação: alguém precisa cair para ela ter certeza de que ainda tem força.
Essa ambivalência é o que sustenta a tensão. Olivia está machucada, mas também machuca. O filme não oferece uma escolha confortável para quem assiste, porque a personagem não se encaixa em caixinhas prontas.
Você percebe a dor, mas também vê as decisões. E justamente por isso o suspense funciona: a ameaça principal não vem de um “monstro”, vem de alguém comum descobrindo que pode ultrapassar limites e, pior, começar a gostar do efeito.
Madelaine Petsch segura essa duplicidade com um controle muito específico. O rosto dela muda de temperatura em segundos: uma expressão pode parecer vulnerável e, logo depois, virar cálculo.
Até o sorriso fica suspeito, porque nem sempre significa alegria; às vezes é só a satisfação de ter acertado o alvo. A atuação trabalha com sinais pequenos, e isso combina com um filme que prefere tensão acumulada a sustos fáceis.
Quando Chloe Bailey entra, o contraste ganha corpo. A personagem dela não é “a inimiga padrão” colocada ali só para brigar. Ela funciona como um espelho que irrita, porque expõe outra forma de existir: mais solta, menos obcecada por aprovação, mais confortável com a própria presença. Olivia não reage porque odeia especificamente aquela garota; ela reage porque se sente colocada em comparação o tempo todo — e comparação, para ela, sempre foi sobrevivência.
O conflito cresce nesse terreno de disputa silenciosa: comentários que parecem inofensivos mas vêm com ponta, respostas que chegam um segundo atrasadas para doer mais, olhares que medem território.
Nada precisa virar barraco para ficar pesado. A tensão aparece no detalhe, no clima, no jeito como uma conversa simples pode virar um teste de poder.
O ponto em que o filme fica mais incômodo é quando Olivia para de resistir ao que está fazendo e começa a aceitar esse lado como escolha prática, quase como solução. Não tem glamour, não tem celebração.
O roteiro observa como alguém exausta de tentar ser impecável decide usar dureza como ferramenta, porque ser “correta” já não trouxe segurança nenhuma.
E aí o suspense aperta de vez: não pelo que ela pode fazer, mas pelo fato de ela passar a acreditar que esse é o único modo de continuar.
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