Durante décadas, o transtorno do espectro autista (TEA) foi tratado quase exclusivamente como “falha” do neurodesenvolvimento: um conjunto de dificuldades de comunicação, interação social e processamento sensorial que tornaria a vida cotidiana mais complicada.
Só que esse olhar vem sendo sacudido por uma pergunta incômoda (e, para muitos pesquisadores, fascinante): e se parte do que chamamos de autismo for um tipo de variação cognitiva que a seleção natural manteve — e que, em certos contextos, pode até ganhar mais espaço?
Essa hipótese não ignora os desafios reais que muitas pessoas autistas enfrentam. Ela coloca outra peça no tabuleiro: ao lado das dificuldades, aparecem padrões de habilidade que surgem com frequência no espectro, como atenção intensa a detalhes, foco persistente e facilidade para identificar regularidades e regras.
Em uma sociedade cada vez mais guiada por dados, tecnologia e processos, essas características podem ter peso social maior do que tinham em épocas anteriores.
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O que neurônios “acelerados” têm a ver com isso
Um argumento que ajudou a reforçar esse debate veio de um trabalho assinado por Starr e Fraser, da Universidade de Stanford, publicado na revista Molecular Biology and Evolution.
Em vez de ficar no “autismo é genético” (frase ampla demais), os autores tentaram apontar um caminho celular mais específico.
O estudo se concentrou em neurônios excitatórios do neocórtex — células que atuam “disparando” sinais para ativar outras, em uma região ligada a funções cognitivas complexas.
A equipe descreve que, na linhagem humana, esse tipo de neurônio teria passado por mudanças rápidas quando comparado a outros primatas, sugerindo uma transformação intensa na arquitetura que sustenta a cognição humana.
A parte que chama atenção: essa aceleração teria ocorrido junto de uma redução na expressão de genes cuja menor atividade aparece associada, em análises estatísticas, a maior chance de diagnóstico dentro do espectro.
Nessa leitura, um ganho evolutivo (capacidade de processamento mais sofisticada) pode ter vindo acompanhado de um custo biológico: menos “margem de proteção” para certas etapas do neurodesenvolvimento.
O resultado seria um aumento de traços autísticos como efeito colateral de pressões seletivas que favoreceram habilidades cognitivas valorizadas no nosso caminho evolutivo.

Por que os números do diagnóstico entraram na discussão
Outro ponto que mantém esse tema em alta é a escalada dos diagnósticos. Nos Estados Unidos, estimativas do CDC passaram a indicar 1 a cada 36 crianças identificadas dentro do espectro — uma taxa que vira combustível para todo tipo de interpretação.
Parte desse crescimento tem explicações bem estabelecidas: critérios diagnósticos mais amplos, maior acesso a avaliação em algumas regiões, mais conhecimento de pais e escolas, e redução do estigma em certos espaços.
Mesmo assim, existe uma discussão científica sobre a possibilidade de haver também mudanças reais na frequência de traços associados ao TEA, e não só um “efeito lupa” do diagnóstico.
Estudos em países de alta renda (como EUA, Reino Unido, Dinamarca, Coreia do Sul e Japão) costumam aparecer nesse debate justamente por registrarem tendências parecidas.
Aqui entra um cuidado importante: esse tipo de conversa costuma atrair atalhos fáceis e teses sem base sólida.
No meio de especulações ambientais popularizadas por figuras políticas — como a hipótese levantada pelo secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy —, o que diferencia propostas como a de Starr e Fraser é o esforço de apontar mecanismos biológicos plausíveis, em vez de explicações que funcionam mais como slogan do que como ciência.

Acasalamento assortativo: quando “pessoas parecidas” se encontram mais
O neurocientista e psicólogo britânico Simon Baron-Cohen ajuda a explicar um caminho social possível para esse aumento, com a ideia do acasalamento assortativo.
Traduzindo: quando pessoas com características semelhantes acabam se concentrando nos mesmos lugares (universidades, polos de tecnologia, certos mercados de trabalho), cresce a chance de relacionamentos e filhos com combinações genéticas parecidas.
Nesse cenário, indivíduos com perfil mais “sistematizador” — gente que gosta de regras, padrões, sistemas, previsibilidade — tenderiam a se encontrar com mais frequência, elevando a probabilidade de descendentes herdarem uma carga genética que favoreça essas habilidades.
O efeito colateral, segundo essa teoria, seria também um aumento da probabilidade de manifestações do espectro em parte dessa descendência.
E aquela história de “4 tipos de autismo”?
Nos últimos anos, a ciência também começou a discutir subdivisões do espectro com mais nuance, inclusive com pesquisas tentando mapear agrupamentos (subtipos) a partir de genética, linguagem, cognição, saúde associada e trajetória de desenvolvimento.
A ideia por trás disso é prática: entender melhor “que tipo de suporte funciona para quem”, em vez de tratar todo mundo como se estivesse no mesmo pacote.

Se isso for verdade, o que muda no mundo real?
Se o TEA reúne perfis muito diferentes — de pessoas que precisam de suporte alto até pessoas que vivem com autonomia e habilidades específicas marcantes —, qualquer papo sobre “evolução” precisa ser feito com freio e responsabilidade.
O risco aqui é transformar variação humana em ranking, e isso esbarra direto no combate ao capacitismo: valor, dignidade e participação social não deveriam depender de produtividade, desempenho escolar ou “talento raro”.
Ao mesmo tempo, se a sociedade está de fato diagnosticando mais — e possivelmente convivendo com mais diversidade neurológica —, as consequências são bem concretas: escola, saúde e mercado de trabalho precisam parar de funcionar como uma peneira que exclui quem pensa e sente de um jeito diferente.
Isso inclui adaptações sensoriais, estratégias pedagógicas individualizadas, acesso a terapias baseadas em evidências, formação de professores e políticas de inclusão que saiam do papel.
Walace Gomes Leal é neurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).
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