Autoria: Izabella Almeida dos Santos

O relato da Anitta me causou um desconforto que foi além da relação da dor e endometriose. Ela me causou espanto pelos 9 anos que Anitta conviveu com a dor sem ter nenhuma atenção por parte dos profissionais de saúde. Nesse momento me passou pela mente os vários discursos de mulheres que fazem ou fizeram parte da minha vida sobre sentirem alguma dor ou algum sintoma físico, optarem por buscar profissionais inúmeras vezes, fazerem os exames solicitados pelos médicos e eles dizerem: “não é nada, os exames estão normais”, “é psicológico”, receitarem uma medicação qualquer e as mandarem para casa.

O pensamento que eu tive ao lembrar dessas histórias foi como essas mulheres foram descredibilizadas. Ninguém escuta a dor delas. Ninguém está se preocupando com o fato de que ELAS CONVIVEM COM A DOR e não importa se há um viés psicológico ou não, a dor é sentida e cabe aos profissionais de saúde darem a devida atenção a essa realidade! Essa indignação me despertou a vontade de pesquisar sobre dores crônicas em mulheres e para minha surpresa (ou nem tão surpresa assim) encontrei vários artigos falando sobre a diferença de percepção e conduta de tratamento de dores agudas e/ou crônicas a partir dos estereótipos de gênero:

Um estudo realizado em hospitais nos EUA e divulgado pela revista The Atlantic perceberam que mulheres demoram muito mais para serem medicadas contra as suas dores do que homens, mesmo apresentando queixas iguais ou muito parecidas. Geralmente, os homens demoram 49 minutos para serem medicados com analgésicos, já as mulheres demoram 65 minutos. Um outro artigo da Revista da Sociedade Espanhola de Dor percebeu que os médicos tendem muito mais a indicar medicamentos para depressão e/ou ansiedade para mulheres do que homens por associarem os quadros de dores que elas sentem a fatores psicológicos, ou seja, alimentando o preconceito e descaso com a percepção que as mulheres possuem sobre o próprio corpo.

No artigo The Girl Who Cried Pain, os autores citam que mulheres são “mais propensas a serem tratadas de forma menos agressiva em seus encontros iniciais com o sistema de saúde até que ‘provem que estão tão doentes quanto os pacientes do sexo masculino”. Este artigo foi publicado no ano de 2001, contudo, a partir do relato de Anitta e das lembranças que eu tenho dessas mulheres, é possível perceber que esse preconceito não está tão distante dos dias de hoje, não é mesmo?

O comportamento desses profissionais de saúde se relaciona com a percepção machista e patriarcal de que mulheres “são dramáticas e/ou estão ansiosas”, desqualificando a dor que elas sentem e a percepção que possuem de seus próprios corpos.

Os estereótipos de gênero presentes em nossa sociedade afetam todos os espaços das nossas vidas, como na relação consigo mesmo, no ambiente familiar, no trabalho, nos espaços sociais, inclusive nos ambientes de referência em saúde. É importante entendermos que um problema social é um problema que afeta a todas as pessoas pertencentes a nossa sociedade.

Logo essa visão patriarcal do mundo sobre o que é considerado ser homem ou mulher, promove uma ideia de que homens são fortes, viris, invulneráveis e “aguentam tudo”, enquanto as mulheres são representadas como frágeis, delicadas, sentimentais e exageradas.

Nessa construção de papéis, espera-se que mulheres busquem mais ajuda e demonstrem maior “vulnerabilidade”, o que não é esperado dos homens. Construções como essas afetam os níveis de saúde da população e o estado socioeconômico do país, visto que os dados encontrados um artigo que pesquisa sobre a falta de procura de homens por atendimento em UBS (Unidade Básica de Saúde), apresentam que homens buscam muito menos ajuda do que mulheres, embora tenham a suas dores muito mais legitimadas do que as delas.

Esse mesmo estudo sobre o atendimento de homens na UBS apontou o impacto negativo que essa falta de autocuidado provoca na vida desses homens, pois eles só buscam a UBS quando apresentam um estado grave, afetando um bom prognóstico. A pesquisa cita os principais motivos que os fazem buscar ajuda: quando a dor está insuportável e/ou não conseguem dar continuidade aos seus respectivos trabalhos.

Outro fator que interfere nessa falta de autocuidado por parte dos homens, é a percepção de que os ambientes de saúde são “feminilizados” e então, resolvi fazer uma breve pesquisa para entender se a percepção desses homens reflete nos números de profissionais homens e mulheres atuantes na área da saúde:

Essa breve pesquisa me mostrou que o gênero dos profissionais da enfermagem, psicologia e fisioterapia são majoritariamente o mesmo: mulheres. Contudo, o único número que se distingue dessa realidade são os profissionais da medicina, que são majoritariamente homens. Esses dados apontam para uma infinidade de percepções, como um dos grandes estigmas referentes ao papel social da mulher: de que ela praticamente nasce com a capacidade de cuidar do outro e se espera que ela cumpra esse papel, logo as profissões de cuidado/saúde são vistas como profissões de mulheres, como se esse fosse o lugar que lhes cabe e claro, vai de encontro com o julgamento desses homens de ser um lugar “feminilizado”.

Acho importante falarmos sobre o princípio de modelo de saúde aqui no Brasil: Atualmente, o país tenta introduzir um modelo interdisciplinar, o qual tem o objetivo de fornecer um cuidado completo e integral as pessoas, considerando o bem-estar físico, mental, espiritual e social a partir da comunicação com todas as áreas do cuidado, ou seja, com todos os profissionais da área da saúde, podendo planejar um tratamento que obtenha maior resultado. Porém, na prática, estamos longe de atingir esse objetivo e o médico continua sendo o centro das decisões e consequentemente, assumindo a posição de maior poder. Esse poder é facilmente percebido no nosso dia a dia, nas nossas famílias, filmes, escolas, visto que umas das profissões mais idealizadas é a medicina, é o auge do status das profissões.

Pensar nesse status de poder que a profissão da medicina possui e na estrutura machista que alimenta a ideia de que homens é quem devem ser fortes e ocupar os lugares de poder, só me faz ter a certeza de que ter mais mulheres nas principais profissões de saúde e homens na medicina é um sintoma dessa estrutura social machista que vai sendo reproduzida diariamente e nos pequenos detalhes.

Essa breve pesquisa me fez perceber o longo caminho que ainda temos que percorrer. Mas eu sei, que quanto mais pessoas ampliarem a sua consciência para essa luta, mais perto estaremos de uma equidade social.

Referências Bibliográficas

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Gallach Solano, E, Bermejo Gómez, M A, Robledo Algarra, R, Izquierdo Aguirre, R M, & Canos Verdecho, M A. (2020). Determinantes de género en el abordaje del dolor crónico. Revista de la Sociedad Española del Dolor, 27(4), 252-256. Epub 13 de octubre de 2020.https://dx.doi.org/10.20986/resed.2020.3802/2020

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Imagem de capa: Anitta, reprodução Instagram

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