Por Rubem Alves

Com duas frases curtas a menina me explicou o jeito de se aprender na sua escola, a Escola da Ponte em Portugal. Era a minha primeira visita e tudo me espantava e me fazia perguntar. As crianças estavam todas misturadas numa única sala, pequenas, grandes, crianças com síndrome de Down. Numa parede estavam escritas palavras com letras grandes referentes à descoberta do Brasil: era o ano 2.000. Apontei com o dedo e perguntei: “E aquelas frases?” Ela me respondeu sem titubear: “É que os miúdos estão a aprender a ler. Aqui não aprendemos nem letras e nem sílabas; só aprendemos totalidades…”

Como é que as crianças aprendem a falar? Aprendendo os sons, um de cada vez? Algum tolo pensará que a linguagem se aprende aprendendo-se os sons das letras do alfabeto? Imagine que você vai ensinar uma criança a falar ensinando os sons… Você vai dar risadas: ffff, ssss, rrrr… As crianças não aprendem sons; elas aprendem “totalidades”, palavras inteiras. Porque sons isolados não fazem sentido. Primeiro a palavra. Depois sons e sílabas.

E como é que se aprende música? Aprendendo cada nota e cada acorde isoladamente? Não. Aprende-se a música inteira. Porque o sentido e a beleza da música não se encontram nas notas e acordes isolados. É preciso ouvir a música inteira para que notas e acordes fiquem belos.

“Inter-disciplinaridade” e “trans-disciplinaridade” são palavras de muito uso e respeitabilidade acadêmica. Mas não gosto de nenhuma das duas. Porque essas palavras pressupõem que o conhecimento começa com as disciplinas isoladas – como as letras e sílabas, os sons e os acordes – e depois, por meio de um processo de “costura” – o “inter”, o “trans” – o sentido vai surgir.

Eu acho que é exatamente o contrário: primeiro, o objeto inteiro. Se olharmos com cuidado para o objeto ele vai nos fazer perguntas. A inteligência, então, vendo o objeto inteiro, se dirige às partes para decifra-lo. Primeiro a mexirica inteira; depois os gomos…

Voltemos à Escola da Ponte. Como parte do programa de se entender o descobrimento do Brasil um grupo de crianças resolveu estudar as caravelas. Uma caravela: eis um objeto a ser compreendido.

Que enigmas contém uma caravela com suas velas enfunadas navegando na direção do Brasil! Acho que o primeiro enigma é “por que uma caravela tão pesada não afunda?” Conta-se de um caipira que, havendo conhecido um navio num porto voltou para casa e anunciou que ferro não afunda nágua. E para provar jogou um machado num poço. Por que um machado que pesa pouco afunda e o navio que pesa muito não afunda? Ai o Arquimedes se apresenta para dar uma resposta: todo corpo mergulhado num fluido, etc, o resto vocês já sabem.

O que flutua melhor? Um navio vazio ou um navio cheio? O que flutua melhor? Um copo vazio na água ou um copo cheio pela metade na água? Faz alguns anos descobriram numa baia da Suécia um famoso navio chamado Wasa. Ele emborcou logo depois de ter sido lançado ao mar porque estava leve demais. Por isso é preciso por “lastro” no navio e é preciso ficar agachado no fundo da canoa para ela não virar. Uma caravela que o Brasil fez para comemorar os 500 anos do descobrimento não pode navegar por perigo de emborcar. Os portugueses de há 500 anos sabiam melhor que nossos engenheiros navais.

Mas tudo isso que eu falei tem a ver com uma coisa chamada “centro de gravidade”. Aquelas varas de ferro curvadas para baixo que no circo os que andam no arame carregam, é aquela vara que põe o centro de gravidade do malabarista no lugar, impedindo que ele caia.

E como é que um navio a vela, tocado pelo vento, pode navegar de atravessado e mesmo contra a direção do vento? Aí a lei de combinação de forças – também chamada “do paralelogramo”- vem em nosso auxílio. Vento e leme combinados produzem a direção desejada, ainda que seja contra a direção do vento.

Mas aí vem a pergunta: “Como é que os navegantes, soltos no imenso mar azul, sabem qual é a direção, sendo que não há um único sinal de terra para orienta-los? É verdade, não há um único sinal na terra, mas os céus estão cheios de sinais, as estrelas. Aí, pra se compreender como se navega é preciso entender a astronomia. Será que as nossas crianças e professores sabem um pouquinha de astronomia, o nome de algumas estrelas e constelações? É preciso até para se entender poesia: “Muitas velas, muitos remos, âncora é outro falar, tempo que navegaremos não se pode calcular. Vimos as Plêiades, vemos agora a estrela polar…” A Cecília sabia que não basta remo e vela, é preciso entender as estrelas.

As caravelas nos conduzem à história, às navegações, à poesia: “”Ó mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão resaram! Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador tem de passar além da dor! Deus ao mar o perigo e o abismo deu. Mas nele é que se espelhou o céu…”

E assim, partindo da caravela e ouvindo as suas perguntas nos tornamos navegadores nos mares da física, da astronomia, da geografia, da poesia…

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