Por Ana Beatriz Rosa

Um dia desses eu fui surpreendida com uma mensagem de um número diferente no meu Whatsapp. “Oi, é a Luiza*. Ganhei o meu celular!”, dizia o texto que veio acompanhado de uma selfie sorridente e animada. O anúncio comemorativo partiu de uma prima mais nova e, naquele momento, não pude deixar de pensar o quanto que ela havia crescido. Isso porque, no momento da mensagem, também pude me recordar de diálogos em que ela tentava convencer a mãe da necessidade de um smartphone, enquanto recebia a negativa por parte da adulta. “Quando você fizer 10 anos, quem sabe, podemos pensar sobre isso”, argumentava.

Mas o dilema vivido de permitir ou não o acesso da criança a um dispositivo eletrônico como o smartphone não se restringe a uma única família. O desejo de consumo e da conectividade é praticamente intrínseco às novas gerações. De acordo com um levantamento da Nielsen Ibope, 15% dos 68 milhões de usuários da internet pelo celular no Brasil têm entre 10 e 17 anos. Outra pesquisa do Comitê Gestor de Internet revelou que os aparelhos de celular são mais utilizados do que a televisão e os computadores entre jovens de 6 a 12 anos. Mas como medir o uso de smartphones na infância?

Para a psicológa Adriana de Paula, as tecnologias podem se tornar ótimos estímulos para os mais novos, uma vez que desenvolvem a atenção e a agilidade mental. O problema, no entanto, é como esses aparelhos estão sendo incluídos na rotina.

“Não basta deixar a criança apenas focada no aparelho, é preciso um diálogo sobre o conteúdo e ofertar opções de atividades, com outros tipos de estímulos que não sejam voltados só para as tecnologias. O mau uso pode ser nocivo não só para a criança, mas para toda a família”, explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Uma pesquisa do King’s College, de Londres, Inglaterra, reuniu dados sobre como o uso dos celulares antes de dormir, por exemplo, pode afetar os hormônios e o desenvolvimento infantil. De acordo com o estudo, o conteúdo dos smartphones pode ser tão estimulante que atrasa o período de relaxamento da criança. Ainda, as luzes emitidas pela tela afetam a percepção do cérebro e mantêm o órgão sob estado de vigília.

É preciso atrasar o contato de crianças com smartphones?

Nos Estados Unidos, a campanha Wait Until 8th (Espere até a 8ª série, em tradução livre) defende que pais e responsáveis apenas permitam o uso de smartphones por crianças a partir dos 14 anos. O movimento se preocupa com a quantidade de tempo em que os mais jovens estão dedicando às telas e às atividades individuais, quando poderiam estar brincando e interagindo com outras pessoas.

“O vício nos aparelhos é como qualquer outro vício porque rouba a pessoa de todas as outras atividades e tira a possibilidade de convivência e aprendizagem com outras coisas. A criança pequena que brinca com o amiguinho aprende nessa convivência conceitos importantes, como regras e limites. Se ela se foca no jogo individual online, tudo acontece na hora em que ela quer e no tempo em que ela quer. Isso pode gerar um adulto muito mais intolerante e irritadiço. Você perde a noção do outro e isso é muito ruim”, explica a psicóloga Adriana de Paula.

Bruna Galliano é mãe do pequeno Leon, de 1 ano e 10 meses. Apesar da pouca idade, Leon já entende o funcionamento do touch screen e, com o dedinho, busca as telas para descobrir o “poder” de cada clique. É justamente por entender que o filho nasceu nessa geração que Galliano decidiu limitar o acesso do bebê aos aparelhos.

“Eu não acho legal o uso dos aparelhos. Quero ensiná-lo a participar dos momentos em família, mesmo que ele esteja agitado. Para mim ele ainda é muito novo para usar um tablet ou celular. Eu sei que existem muitos aplicativos legais, não tem como fugir disso. É a realidade que a gente vive. Mas eu estou tentando esperar mais um pouco. Eles já nasceram sabendo apertar a tela. As vezes eu estou vendo televisão e ele vai até a tela e toca com o dedo para tentar mudar de canal”, compartilha a mãe em entrevista ao HuffPost Brasil.

Outro ponto de atenção, de acordo com a campanha americana, é sobre o tipo de conteúdo que as crianças estão sendo expostas. Para a vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Ana Sandra, os pais precisam colocar limites no uso dos smartphones e estar sempre atentos aos conteúdos que os pequenos interagem.

“Precisa ser um uso consciente e, acima de tudo, orientado e fiscalizado pelos pais. As crianças, pela idade e estrutura cognitiva, não tem condições de saber o que é melhor para si. O meu filho não pode definir quantas horas ele vai passar em frente a uma tela”, explica a psicóloga em entrevista ao HuffPost Brasil.

Quando o uso responsável é um aliado

A médica Mariana Croda é mãe de duas meninas e convive com o desejo da mais velha de ter um celular desde os 6 anos de idade. Foi nessa fase que ela viu os primeiros amigos ganhando os seus próprios aparelhos. A ideia da médica era presentear a filha com o celular apenas aos 11 anos, mas adiantou o presente quando a família precisou mudar de cidade, no ano passado.

“Utilizamos um aparelho antigo e dissemos que o aparelho era da casa e não propriamente dela, que tem 9 anos. Na prática é dela, e não me arrependo. Foi crucial nesse difícil período de adaptação, estreitou o relacionamento com os parentes de longe e me deu segurança para me comunicar com ela nos períodos que estou fora. Ela se esquece do celular por dias e vejo que meu temor era um tanto desmedido”, compartilha em entrevista ao HuffPost Brasil.

Croda explica que a filha utiliza, principalmente, aplicativos de mensagem instantânea e de vídeos, como o Youtube. O grande medo da mãe é em relação ao tipo de conteúdo que a filha está interagindo. Por isso, ela utiliza restrições no celular e nos sites. Isso faz com que a menina apenas tenha acesso aos apps liberados.

“Sempre que posso, vejo o que ela tem acessado e finjo não saber da maioria das coisas que fala nas redes sociais, preservando de algum modo sua individualidade. O Youtube é só o kids e com um combinado de que ela só pode acessar se tiver um adulto por perto. Esse controle é para evitar o acesso a conteúdo inapropriado, mas também para diminuir a exposição a sites que incentivam o consumismo através de influenciadores, o que julgo ser o mais complicado atualmente”, compartilha.

Priscila Josefick é mãe de Valentim, de apenas 2 anos. O pequeno não possui um aparelho próprio, mas gosta de assistir a desenhos na televisão e no celular dos pais. Para a mãe, a tecnologia serve de apoio quando o filho está muito agitado, por exemplo.

“Ele gosta muito de música e vê alguns vídeos no Youtube. Eu procuro não me culpar por permitir o acesso do meu filho a essas tecnologias, porque só quando você é mãe ou pai entender certas situações. Às vezes eu preciso realizar alguma tarefa e ele precisa estar entretido com algo. Mas nunca trocaria uma brincadeira do mundo real por um jogo ou aplicativo”, explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Josefick confessa que ela mesmo tem uma relação complicada com os aparelhos. Para a mãe, redes sociais são sinônimos de ansiedade. “Sou muito apegada ao Instagram e me vejo com medo de perder as atualizações da vida digital, mesmo meu cérebro me dizendo que eu não vou ser afetada por nada daquilo”, conta. “O Valentim já se acostumou a me ver com o celular. Muitas vezes, ele mesmo busca o meu aparelho e me entrega. Por mais que eu ache gentil o gesto dele, eu não quero que ele associe a minha imagem com a do celular em todos os momentos”, desabafa.

De fato, o exemplo dos pais na educação infantil é crucial, defende a psicóloga Ana Sandra. Para a vice-presidente do CFP, é preciso que os pais limitem o próprio uso, caso queiram exigir isso dos pequenos. “O que a criança faz ou aprende não está desconectado do ambiente que ela vive”, explica.

Para Josefick, os pais não podem ser reféns dos aparelhos, mas não precisam ter “opiniões fechadas sobre os uso das tecnologias”.

“A gente tenta ser tão perfeito que sofremos com algumas decisões. Eu não quero que o meu filho tenha acesso a tablets, por exemplo. Mas ai eu vejo as mães usando o aparelho e confortáveis com isso. Tem que ser natural e tem que ser leve.”

O meu filho está pronto para ter um smartphone?

Algumas reflexões sobre o uso dos aparelhos por crianças:

– A criança tem idade suficiente para ter um smartphone? Não existe a idade ideal, mas a faixa etária dos 10 aos 12 anos é a mais indicada de acordo com os especialistas. Apesar disso, a decisão sempre será dos adultos. Converse com os pequenos e procure entender os argumentos deles. Mas deixe claro os motivos de você está limitando, ou não, o acesso ao celular.

– Mantenha o controle. Dependendo do aparelho, os pais e responsáveis conseguem formatar restrições de acesso e bloquear conteúdos. Não é porque a criança está no quarto da casa que ela está protegida de conteúdos abusivos.

– Procure conhecer o tipo de conteúdo que gera interesse e prende a atenção dos seus filhos. Um bom mapeamento é sempre estar de olho nos aplicativos que a criança faz uso.

– Converse e esteja presente. A tecnologia é apenas uma ferramenta e jamais substituirá o afeto e a atenção familiar.

Imagem de capa: Shutterstock/DoublePHOTO studio

TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST

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