Por Alfredo Simonetti 

No sentido da busca de um nó amoroso ideal vamos considerar a existência de dois tipos de amor: o amor de deficiência e o novo amor. O primeiro é o amor romântico, o amor que todos conhecemos e buscamos para nos salvar daquela sensação angustiante na qual somos lançados, desde o instante em que nascemos. Essa sensação está na pergunta: somos amados? O segundo é o novo amor, um tipo raro e desconhecido de relacionamento amoroso que, algumas vezes, alguns de nós conseguem alcançar quando nos livramos das garras do amor de deficiência.

O amor de deficiência é o mais comum, é quase universal, acontece com todo mundo, é o amor que todos conhecemos, que estamos acostumados a viver e a sofrer, é o amor idealizado, no qual supomos encontrar uma pessoa maravilhosa que nos ama, que nos deseja, e somente a nós – ou seja, é o amor da criatura encontrada. Este é o amor onde o outro surge como obturador do vazio existencial, como apagador da angústia que nos devora a partir de dentro. É um amor de salvação, que nos dá uma sensação de completude e de segurança maravilhosa, é a tal felicidade.

Paradoxalmente, porém, ele também é angustiante porque se perdemos essa criatura encontrada, ou se descobrimos que ela não nos ama como imaginamos – ou que mesmo nos amando, pode ainda assim desejar outras pessoas, mesmo que imaginariamente – acabamos por cair de volta naquela sensação de desimportância, de desamor, de frustração e de incompletude que a maioria de nós carrega escondida dentro do peito.

É claro que se dependemos tanto assim de alguém para nos sentir bem na vida, vamos querer possuir e guardar esta pessoa para nós; ao mesmo tempo, vamos viver num inferno de ansiedade temendo o dia em que possamos perdê-la. Mesmo que efetivamente nunca venhamos a perdê-la, mesmo assim, sofremos só de imaginar tal possibilidade. É que se o outro é o ar que “eu” respiro, sem ele não respiro, morro – então, o melhor que tenho a fazer é tratar de mantê-lo bem próximo, bem vigiado.

Esta história de que o outro é que nos faz felizes é bonita e romântica, mas, na prática, é uma das fontes de tensão no relacionamento amoroso. Neste sentido, dizer para alguém “Você é o ar que eu respiro” não é uma declaração de amor, é uma ameaça! O amor de deficiência é também um amor de ambivalência: ao mesmo tempo em que nos completa, também nos deixa famintos.

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