Eu sou ansioso, e agora?

Por Mariana Poubel

Todos os dias, milhares de pessoas ao redor do mundo procuram psiquiatras, psicólogos ou até mesmo prontos-socorros para buscar ajuda para diminuir ou para acabar com a ansiedade.

A ansiedade é vista como uma das maiores vilãs do cotidiano, especialmente nas grandes metrópoles. Mas… será que é isso mesmo? Será que ela deve ser exterminada? Será que uma vida sem ansiedade seria verdadeiramente plena?

Será que também devemos acabar com a tristeza? Com a dor? Com o medo?

Basta um olhar mais atento ao nosso dia a dia para perceber que em vez de eliminação, a ideia é regulação, ajuste, modulação. Como um rádio, cujo som muito alto passa a ser estridente e incômodo, enquanto o som muito baixo se torna impossível de ouvir, de modo que o que buscamos é essa altura mediana, que nos traz seus benefícios (como relaxamento e bem estar no caso de uma música agradável, e um sistema de alerta eficiente no caso da ansiedade).

Mas na prática, como a psicologia, de forma particular a análise do comportamento, pode ajudar na modulação da ansiedade? O primeiro ponto a ser destacado é a importância de uma análise individualizada. Temos que ir além do diagnóstico, além da queixa (“o ser ansioso”) e verificar a frequência, intensidade e forma de expressão dessa ansiedade no dia a dia desse indivíduo. Torna-se essencial a busca de elementos da história de vida que tragam sentido para a origem e elementos atuais que favoreçam sua manutenção. Os ambientes em que o paciente se encontra inserido na maior parte do tempo podem oferecer simultaneamente reforços e punições diante das respostas ditas como ansiosas.

Como exemplo, podemos ter um paciente que diante de crises de ansiedade ouve por parte de parentes e amigos “o que você está sentindo não é nada; basta você querer que você consegue”, sinalizando desvalorização do seu sofrimento. E ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas podem se oferecer para executar tarefas para o paciente, apresentando a possibilidade de fuga e esquiva de situações difíceis ou embaraçosas. Portanto, um primeiro pilar que sustenta a interpretação do comportamento humano é que sua ocorrência, por mais inesperada que possa parecer, tem em si alguma função.

“Tem-se que o comportamento-alvo para trabalho é multideterminado, de tal sorte que o uso de apenas uma técnica para lidar com repertórios de ansiedade pode não ser justificada. A ansiedade é um fenômeno que demandaria uma análise caso a caso (análise idiográfica) das contingências envolvidas em seu controle” (Banaco e Zamignami, 2004; Sturmey, 1996 apud Ana Karina C.R. de-farias e cols).

Outro ponto importante se refere à psicoeducação dos pacientes. Estes, mais informados passam a conhecer, nomear, descrever e entender melhor seus pensamentos, emoções, reações fisiológicas e encadeamentos comportamentais tornando-se mais aptos para o questionamento e dando o primeiro passo em direção à mudança. Dentre os tópicos mais relevantes quando se fala em regulação das emoções, está a aceitação das mesmas. E o primeiro desafio está em construir uma ideia de aceitação que não significa ser passivo.

“Aceitar não é concordar ou achar bom. Da mesma forma, não é assumir uma postura conformista e resignada. Aceitar implica receber as coisas como são apresentadas, sem tentar controlar as emoções” (Wilson Vieira Melo, 2014).

É importante entender que a desregulação na vivência das emoções encadeia e também é reforçada pela desregulação cognitiva e comportamental. A ruptura deste ciclo torna-se possível quando equilibramos a busca pela mudança, e o consequente desenvolvimento ou aprimoramento de habilidades, com a aceitação das nossas vivências.

Após essas etapas, por meio do vínculo terapêutico já bem estabelecido e do autoconhecimento do paciente também já bem refinado, a utilização de técnicas comportamentais, como as de respiração e relaxamento passam a fazer mais sentido e seu uso não é mais apenas para suprimir sintomas. Todas as etapas que envolvem o processo terapêutico requerem tempo e treinamento, pois envolvem mudanças substanciais na forma de o paciente agir diante das contingências.

Imagem de capa: Shutterstock/sunabesyou

TEXTO ORIGINAL DE COMPORTE-SEhttp://www.psicologiasdobrasil.com.br/wp-admin/post-new.php

Referências

De-Farias, A.K.C.R. e cols. (2010). Análise comportamental clínica: aspectos teóricos e estudos de caso. Porto Alegre: Artmed.

Melo, W.V. (2014). Estratégias psicoterápicas e a terceira onda em terapia cognitiva. Novo Hamburgo: Sinopsys.






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