Por Naima Saleh para a Revista Crescer

Se você tem irmãos, provavelmente se lembra de que um de vocês costuma ser (ou ainda é) o queridinho do pai ou da mãe. E muito provavelmente, se o escolhido não era você, em algum momento você fez questão deixar claro que notou o favoritismo e que jamais faria algo assim com seus próprios filhos…

Só que, agora que você é pai ou mãe, não é bem assim que a banda toca. E por mais difícil que seja admitir, a gente sabe que – quase sempre – se sente mais próximo de um dos filhos.

Mas será que ser o favorito é de fato uma grande vantagem? Um estudo realizado pela Purdue University, nos Estados Unidos, revelou que ser o filho preferido não necessariamente faz bem para a cabeça… De acordo com os resultados, entre os irmãos, ele é o que tem maiores chances de apresentar sintomas de depressão.

É isso mesmo: os especialistas observaram que o filho considerado favorito pela mãe tende a apresentar mais sintomas depressivos quando adulto. Uma das hipóteses levantadas para explicar esse fato é que eles se sentem mais responsáveis no sentido de querer corresponder às expectativas dos pais e também de cuidar de seus genitores, quando estes se tornam idosos. A psicóloga e psicopedagoga clínica Carmen Alcântara concorda:

“Os filhos que se sentem favoritos têm mais medo de perder os pais, na medida em que os veem envelhecendo, já que sempre contaram com uma proximidade afetiva muito grande com eles”, explica.

Outra explicação para desenvolver a depressão seria a própria rivalidade entre irmãos, o que, mesmo sem querer, pode ser estimulado por comportamentos dos próprios pais. Ao elogiarem mais uma criança do que outra (enfatizando as boas notas de um enquanto o outro está de recuperação, por exemplo), ao fazerem comparações entre irmãos (“sua irmã nunca me deu tanto trabalho na escola!”) ou ao darem mais carinho e afeto para uma das crianças, os pais podem alimentar o sentimento de inimizade entre os irmãos. É como se essas posturas servissem de gatilho para a rivalidade, a competição, a revolta ou o distanciamento entre os filhos preteridos e o favorito.

O estudo foi realizado com 725 jovens adultos de 309 famílias que faziam parte de um projeto longitudinal chamado Within-Family Differences Study, que visa compreender melhor o relacionamento entre filhos e pais. O estudo focou na preferência da mãe por um dos filhos, avaliando quatro critérios distintos: proximidade emocional, conflito, orgulho e desapontamento.

O que é ser o filho favorito

Mas calma, apesar da mãe e do pai terem mais proximidade com um dos filhos, o favorito, não significa que eles amem mais essa criança do que as outras. Quer dizer simplesmente que, por uma série de motivos, eles se identificam mais com uma das crianças. “Filhos diferentes têm personalidades e comportamentos diferentes e é natural que qualquer pessoa, incluindo pai e mãe, se identifique ou tenha mais afinidade com um que com o outro”, explica o psicólogo clínico Luciano Passianotto.

Uma vez que as próprias crianças são diferentes entre si e, portanto, apresentam necessidades distintas, não dá para esperar que os pais tratem todos da mesma forma. Não dá para cobrir de beijos uma criança que diz que não gosta de ser apertada e que não suporta “melação”, nem para tratar com mais rispidez um filho mais sensível. O que funciona para um, pode não funcionar para o outro.

Mesmo assim, vale ressaltar que essas diferenças não devem abrir precedentes para injustiças: “Quando se dá direitos a um e não aos outros, os filhos tendem a notar e apontar. Essa é uma questão delicada principalmente porque alguns direitos são conquistados com a idade, outros com talentos ou conhecimentos específicos, e, às vezes, o injusto é manter direitos exatamente iguais”, explica Luciano.
Onde já se viu dizer que prefere um filho?

Infelizmente, essa questão do filho preferido ainda é um grande tabu – apesar de filhos e pais perceberem que a preferência existe, pouquíssimo se fala sobre o assunto. Fizemos uma enquete no site da CRESCER perguntando aos pais se eles tinham um filho favorito e – veja só – 62% deles responderam que não. Isso só mostra como é difícil falar sobre esse tema…

“Para muitos existe a crença de que a paternidade e a maternidade deveriam gerar uma capacidade ilimitada de entender e empatizar com todos os filhos da mesma maneira, o que não é verdade”, explica Carmen. Isso faz com que o fato de se identificar mais com um filho do que com os outros seja um fator de culpa para os pais, algo que eles tentam dissimular e desmentir. “Os pais normalmente têm medo de causar desconforto, tristeza ou revolta nos filhos preteridos e a negação é a forma mais fácil de tratar esse tema com o qual não sabem lidar”, completa Luciano.

Em vez de sofrer se você tem mais afinidade com um filho que com o outro, que tal valorizar aquilo que cada um tem em especial? Passar um tempo a sós com cada criança também pode ajudar seu filho a perceber que ele tem, sim, o espaço dele. E que amor de mãe não se divide, apenas se multiplica.

Imagem de capa: Janko Ferlič on Unsplash

 

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


Compartilhar

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS




Psicologias do Brasil
Informações e dicas sobre Psicologia nos seus vários campos de atuação.