Tem filme que chega sem fazer alarde e, quando você vê, está mexendo com assuntos que a gente costuma empurrar pra depois: envelhecer, perder, ficar… e continuar amando mesmo assim.
“Um Tipo de Loucura” (2025) pega um casal que, lá na frente, acaba tendo basicamente um ao outro como “plano A, B e C” — e usa essa relação pra cutucar as certezas que vendem por aí sobre casamento perfeito, carreira como escudo e até a ideia de que amor resolve tudo sozinho.
A direção de Christiaan Olwagen, com roteiro assinado por ele ao lado de Wessel Pretorius, foge do caminho fácil.

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Em vez de apertar o botão do choro, o filme trabalha com sensações misturadas: tem hora que alivia, tem hora que dá incômodo, e muitas cenas te fazem rir meio sem saber se “pode”. É justamente esse desequilíbrio controlado que faz a história bater forte.
No centro está o encontro de Elna (Ellie) e Daniel (Dan), ainda crianças, numa praia da Baía de Walker.
Só que o “primeiro contato” deles não tem clima romântico bonitinho: Ellie vive obcecada pela sensação de limite depois de quase se afogar, e Dan aparece no meio disso — atrapalhando o que ela acredita ser uma espécie de acerto de contas com a própria vida.
A partir daí, os dois grudam de um jeito que o filme vai explicando aos poucos, como se a conexão deles fosse uma coisa teimosa, difícil de romper.
A narrativa vai e volta no tempo, abrindo espaço para mostrar como aquele começo estranho vira convivência, parceria e família — e como nem isso impede que o chão suma.

Em determinado ponto, a história troca a energia de juventude por um cenário mais duro: Ellie está internada num manicômio, e o filme passa a tratar saúde mental sem maquiagem e sem discurso pronto.
Dan, claro, não consegue seguir “como se nada estivesse acontecendo”. Ele atravessa regras, invade o hospício e decide tirá-la de lá do jeito dele — o que coloca os dois numa fuga atrapalhada, quase impulsiva, dentro de uma Ford Taunus amarela.
A partir desse momento, o longa deixa claro que está menos interessado em “dar lição” e mais em mostrar o que o amor vira quando a realidade aperta e ninguém tem manual.
Nessa escapada, uma cena simples diz muito: Dan para para abastecer e, quando olha de novo, Ellie sumiu. Ela reaparece em um brechó, encantada com um vestido de noiva usado — como se aquele tecido segurasse uma vida que ela queria ter vivido de outro jeito.
O filme entra na cabeça dela sem pedir licença e flerta com um humor esquisito, às vezes quase absurdo, para falar de identidade, desejo e daquilo que a gente inventa para suportar os dias ruins.

O elenco segura esse tom instável com firmeza. Sandra Prinsloo constrói Ellie como alguém cheia de camadas — divertida, intensa, quebrada, luminosa — sempre em busca do que considera realmente valioso, mesmo que nem tudo ali seja “pé no chão”.
E Ian Roberts dá a Dan o tipo de presença que não precisa explicar muito: ele está ali, insistindo, errando e tentando de novo, como quem sabe que amar também é aguentar o desconforto de não ter controle.
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