Por Ana Beatriz Barbosa para o BrasilPost

Sexta-feira à noite e você passou o dia se planejando para um jantar perfeito com o seu namorado(a) que já havia sido acertado desde o início da semana. Próximo do horário combinado, ele pergunta se você não prefere ficar em casa e diz que está muito cansado para sair.

Você aceita, mas em vez de dizer que estava chateado (a), o mau humor toma conta do seu ser e você resolve rebater com o tratamento de choque: silêncio total. Se ele te questiona o que aconteceu, a resposta é monossílabica: “tudo bem”. A partir de então, o plano é ignorá-lo o resto da noite.

Talvez não seja uma coisa que você goste de admitir, mas, muitas vezes, você pode ser passivo-agressivo e este hábito deve estar afetando os seus relacionamentos – sejam eles românticos, familiares ou até mesmo profissionais.

“O comportamento passivo-agressivo é uma expressão dissimulada de hostilidade. É uma ferramenta que as pessoas usam em situações em que querem evitar conflitos, por exemplo. Aparentemente, você se mostra aberto e receptivo aos desejos do outro, mas internamente você tem uma resistência em concordar com essas necessidades. Aos poucos, você vai se tornando uma pessoa irritada, mal humorada, mais agressiva e hostil”, explica a psicóloga Vânia Calazans em entrevista ao HuffPost Brasil.

“Não estou brava.”

Nos relacionamentos, o comportamento pode incluir o silêncio como reação a uma situação que você não concorda, a teimosia, a ironia, as mensagens com duplo sentido, a interpretação do papel de vítima, a crítica e os comentários sarcásticos, a ignorância e até mesmo a procrastinação.

Talvez você se identique com algumas dessas situações e até mesmo ache elas rídiculas, mas, para quem tem o comportamento passivo-agressivo tão enraizado, percebê-lo é bem mais fácil do que simplesmente mudar de comportamento de um dia para o outro.

Em alguns casos, esse comportamento pode ter sido aprendido ainda na infância, em contextos em que falar sobre a tristeza, a frustração ou as suas próprias necessidades era desencorajado.

Ainda, o passivo-agressivo pode ter esse comportamento se convive em um ambiente mega competitivo, e usa dessas estratégias para “se manter no controle”.

Em casos mais intensos, o comportamento pode ser diagnosticado como um transtorno de personalidade – e certamente a pessoa precisará de ajuda profissional para conviver com essas características.

“Os transtornos de personalidade são transtornos que permanecem por toda vida. É preciso um acompanhamento profissional para que ela não lide sozinha com esse transtorno. Essas pessoas não expressam os seus sentimentos claramente. Elas não dizem: ‘não quero fazer ou quero fazer’. É sempre uma situação contraditória entre aquilo que ela sente internamente e o que ela expressa”, explica a psicóloga.

Aprenda a identificar alguns padrões e gatilhos de comportamentos passivo-agressivos:

1. Fale sobre os seus sentimentos. Se você estiver chateado, questione-se: estou me comunicando da melhor forma sobre o que eu estou sentido? Eu quero melhorar o relacionamento, ou quero que o outro se machuque tanto ou mais do que eu?

2. Abandone um pouco o sarcasmo. Às vezes, ser direto e honesto é a abordagem mais eficiente.

3. Aprenda os seus próprios limites. Se você não quer fazer algo, não diga que vai fazer. Não há problema em expressar isso em voz alta.

4. Não veja o feedback como um ataque pessoal. Reconheça a diferença entre feedback e o julgamento.

5. Procure um terapeuta. Se você precisar de ajuda profissional para entender por que não se sente seguro para falar de suas necessidades ou não sabe exatamente o que desencadeia a sua hostilidade, não tenha medo em questionar isso com a orientação de um profissional.

A agressão passiva pode até parecer uma forma bem leve de combatividade, mas ela acaba deixando cicatrizes negativas nos relacionamentos porque cria uma dinâmica desequilibrada, em que a pessoa com comportamentos passivos-agressivos sempre mantém a vantagem, seja se colocando no papel de vítima ou responsabilizando o parceiro por suas frustrações.

“Conviver com uma pessoa assim é viver em uma montanha-russa de emoções, porque elas são irritadas e vítimas de autopiedade. Elas alternam a violência com pedidos de desculpas e quem convive com essas pessoas fica numa situação de difícil entendimento. Você vai sempre estar na espera da próxima situação de conflito. Ao mesmo tempo em que elas são amargas e queixosas, elas são carentes, querem carinho e se manifestam até mesmo de uma forma mais submissa”, argumenta Calazans.

O resultado de tudo isso? Brigas constantes e um acúmulo de emoções que podem desgastar qualquer relacionamento. É preciso um trabalho diário para conseguir alterar a forma como uma pessoa se expressa, ainda mais se ela mantém esse hábito.

Até porque, em muitas vezes, ter uma reação passivo-agressiva não é algo consciente. É mais uma forma de criar uma autoproteção, já que ao “blindar” os nossos reais desejos, criamos uma espécie de muro contra a intimidade e a vulnerabilidade.

Se você convive com alguém que tem algum tipo de transtorno de personalidade, ou se você se identifica com algumas características passivo-agressivas, talvez você leve um tempo para aprender como lidar com tudo isso.

“É comum que as pessoas entendam essas situações como uma característica natural daquele relacionamento. Mas, a partir do momento que você começa a sofrer as consequências disso, se desgastando e se afetando, a coisa vai ultrapassando os limites do saudável ao ponto de impactar o seu humor e equilíbrio emocional. Busque ajuda. Ou você rompe esse ciclo, ou você coloca limites claros para não entrar nessa dinâmica”, aconselha Vânia Calazans.

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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