O roteiro dessa série brinca com sua atenção de um jeito que quase ninguém percebe

Existe um tipo de série que não tenta “te surpreender” com barulho. Ela faz melhor: escolhe, por você, onde seus olhos vão descansar — e enquanto você acompanha o que parece ser o foco, o detalhe decisivo passa no canto. Mr. Robot funciona muito assim.

É um suspense que opera na base da distração elegante: enquadramento, silêncio, narração e ritmo combinados pra te deixar seguro… e, ao mesmo tempo, levemente fora de posição.

Criada por Sam Esmail e exibida pelo USA Network, a série foi ao ar entre 2015 e 2019, com 4 temporadas e 45 episódios. Hoje disponível no Prime Video.

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No centro está Elliot Alderson (Rami Malek), engenheiro de cibersegurança e hacker que vê o mundo com desconfiança, e acaba puxado para a fsociety por Mr. Robot (Christian Slater), num plano que mira a gigante corporativa E Corp.

É a premissa que parece “só hacker contra empresa”, mas o roteiro logo deixa claro que a briga mais constante acontece dentro da cabeça do protagonista.

A primeira sacada de Mr. Robot é tratar a atenção do público como parte do enredo. Elliot narra, comenta, conduz — e isso cria uma sensação de intimidade que vira armadilha: você começa a confiar na forma como ele organiza os fatos, mesmo quando a série dá sinais de que a organização é… seletiva.

A própria crítica destacou como a temporada 2 aposta em distorções de percepção e em personagens “contando” versões que não se sustentam por muito tempo.

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A segunda sacada está na imagem. A série tem uma linguagem visual reconhecível: personagens muitas vezes posicionados bem embaixo no quadro, com um “vazio” acima, como se o ambiente esmagasse todo mundo. Isso não é firula.

É um jeito bem calculado de induzir desconforto e paranoia, e de manter você procurando ameaça onde talvez não esteja. O resultado é que até cenas comuns ganham cara de “tem algo errado aqui”, e você passa a assistir já no modo suspeita.

Esmail também brinca com o formato. Um exemplo famoso é “eps3.4_runtime-error.r00” (3ª temporada), montado para parecer um único plano contínuo, sem interrupções — uma escolha que transforma a experiência do espectador em corrida: você fica tão ocupado tentando acompanhar o fluxo que perde tempo de observar o que está sendo escondido em plena movimentação. É técnica a serviço do clima, não exibicionismo gratuito.

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No elenco, Rami Malek entrega uma atuação que combina tensão contida com explosões precisas — e foi reconhecido com Emmy de Melhor Ator em Série Dramática.

A série também ganhou o Globo de Ouro de Melhor Série Dramática em 2016, o que diz bastante sobre o impacto que ela teve quando estreou.

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Como resenha, dá pra resumir assim: Mr. Robot é uma série que pede atenção, mas do jeito mais traiçoeiro possível — ela te dá uma história “com cara de lógica”, enquanto muda as regras pelas bordas.

Se você gosta de roteiro que planta informação em silêncio e te faz perceber tarde demais que estava olhando para o lugar errado, aqui tem material de sobra.

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