Por Angelina Chapin

Em 2011 um colega de Angie* no Museu Nacional Smithsonian de História Natural a levou a um corredor isolado e agarrou suas nádegas sem seu consentimento. Alguns meses depois, a estudante pesquisadora recebeu um cartão colorido com “desenhos enfeitadinhos” do responsável pelo ato, o então doutorando Miguel Pinto. O cartão dizia apenas “sinto muito”.

Angie contou que ficou indignada “com a estupidez e o absurdo” do pedido de desculpas. “Esse é o tipo de cartãozinho que a pessoa pode mandar para uma amiga cujo peixinho de estimação morreu”, disse a cientista, hoje com pouco mais de 30 anos, ao HuffPost, falando ao telefone. “Para mim, o cartão trivializou o problema.”

Pinto acabou admitindo para seu chefe e em entrevista ao site The Verge que apalpou Angie contra a vontade dela num evento de happy hour do museu. Mas disse que se tratava de um “flerte”, não de agressão sexual. Nos cinco anos seguintes – até que Pinto acabou sendo expulso do museu, em 2016, após um acúmulo de outras acusações contra ele –, Angie disse ao The Verge: “Muitas vezes eu ficava tão deprimida que mal conseguia funcionar”. Em vez de reconhecer quanto seu comportamento a havia afetado ou prometer que mudaria, Pinto nunca mais voltou a falar do assunto.

“Ele mentiu para uma mulher mais nova para conseguir ficar a sós com ela e então agarrou seu traseiro”, disse Angie. “A ideia de que ele podia estar pedindo desculpas sinceramente parecia absurda.”

No último mês o mundo vem assistindo a uma enxurrada de “meas culpas” públicas apresentadas por homens que foram expostos como predadores sexuais. Charlie Rose, acusado de assédio sexual por oito mulheres, disse ao Washington Post: “Peço desculpas sinceras por meu comportamento inapropriado. Estou envergonhado.” Depois de o senador democrata Al Franken ter sido acusado de bolinar e beijar à força uma âncora de uma rádio, ele pediu desculpas e disse estar “enojado” com seu próprio comportamento. Tanto Harvey Weinstein quanto Louis C.K. expressaram “remorsos” depois de várias mulheres os terem acusado no New York Times de assédio sexual. E Kevin Spacey, comentando a acusação de conduta sexual inapropriada feita contra ele por Anthony Rapp, disse: “Se eu de fato me comportei como ele descreve, eu lhe devo um pedido sincero de desculpas”.

Críticos ironizaram essas declarações, que descreveram como não sinceras (tanto Charlie Rose quanto Harvey Weinstein negaram algumas das acusações feitas contra eles), egoístas (quantas vezes Louis C.K. mencionou sua própria fama?) e que teriam a finalidade de desviar a atenção (será que Kevin Spacey teria realmente precisado se assumir como gay quando estava pedindo desculpas por comportamento sexual inapropriado?). De fato, estão longe de serem perfeitas.

Pedir desculpas por assédio ou agressão sexual é um processo complicado. A vítima muitas vezes quer algum tipo de reconhecimento por parte do perpetrador, especialmente quando ele –e quase sempre o perpetrador é homem – foi a única outra pessoa a testemunhar o incidente. “As vítimas querem muito que o que aconteceu seja reconhecido”, comentou Tod Augusta-Scott, psicólogo que trabalha com homens no Canadá acusados de violência sexual e doméstica. “Querem que o perpetrador não negue o que fez, não minimize a importância do que fez e não coloque a culpa nelas.”

Mas, como explicou por e-mail a psicóloga Lori Haskell, de Toronto, que trabalha com vítimas de violência sexual, “um pedido de desculpas incorreto pode deixar a vítima furiosa e se sentindo impotente. Um pedido positivo é um começo, algo que abre para a vítima a esperança de ser compreendida ou reconhecida.”

Pedidos de desculpas feitos rapidamente e superficialmente logo depois do ato, como os que foram feitos por celebridades ou o que Angie recebeu de Miguel Pinto, confundem um arrependimento passageiro com um processo de assumir a responsabilidade pelo ato cometido, algo que exige muito mais tempo e energia.

“Na minha experiência, as vítimas quase nunca acreditam num pedido de desculpas feito imediatamente”, disse a professora de saúde pública Mary Koss, que trabalha com vítimas e perpetradores de violência sexual no Arizona. “O que você vai fazer para reparar o mal que causou à vítima? Como você vai mudar para que não volte a cometer o mesmo ato? Essas perguntas não podem ser respondidas em 23 horas.”

Esses pedidos de desculpas “a jato” às vezes são um ato egoísta, feito “muitas vezes pensando mais no responsável pela violência que na vítima”, disse Koss.

Para Haskell, “um pedido de desculpas precisa ser uma oferta, e não um pedido velado feito à vítima do tipo ‘aceite isso para que eu possa me sentir melhor’. A pessoa já tirou muito da vítima. Pedir ainda mais dela faz parte da mesma dinâmica do perpetrador que se sente no direito de pegar o que bem entender.”

O texto completo você pode ler no BrasilPost

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