Ecologia humana

Vivemos em um tempo de contínuas mudanças. Ideias e valores tradicionais são rejeitados por uma grande parte da população em diversas partes do planeta. Apesar disso, episódios recorrentes de terrorismo, nos Estados Unidos e na Europa, ou manobras políticas feitas pela chamada “bancada evangélica”, entre outras “bancadas” de viés de direita, no Brasil, confirmam que paradigmas e tabus não são quebrados assim tão facilmente. O homem contemporâneo está perdido, mergulhado numa cultura de morte e em compulsões consumistas, hedonistas e individualistas que o levam aos consultórios terapêuticos com transtornos diferentes daqueles do tempo de Freud.
Há um número quase escandaloso de pessoas diagnosticadas com neuroses graves; depressão; ansiedade; transtornos de personalidade; transtornos limítrofes e mesmo perversões. Muitas dessas pessoas, quando submetidas à Análise, se percebem como sujeitos que não tiveram pai ou mãe suficientemente bons e presentes. Foram educados, muitas vezes, ou num rigor religioso excessivo ou num clima pesado, de maus tratos físicos ou psíquicos, sem afeto, limite, lei, valores que lhes dessem chão. São sujeitos entristecidos, melancólicos, agressivos, medrosos, sem iniciativa, vazios por dentro, sem convicções. Não sabem direito como transitar no mundo da linguagem e do desejo.
A crise da pós-modernidade é também a crise da família. Quer se queira ou não, a maioria de nós nasce de um casal. A procriação artificial ainda é feita de modo minoritário e não há dados estatísticos ou estudos de casos conclusivos sobre a atuação disso no inconsciente do sujeito. Não há como esconder que, nos grandes centros urbanos, o ser humano se esqueceu de que é um ser social e de que vive em comunidade. Por estarmos em continuidade histórica, é urgente que se diga que, unidos como membros de um só corpo, precisamos cuidar uns dos outros.


É difundida a ideologia de amar os animais; de preservá-los; de lhes valorizar os direitos. Nada contra. Ao contrário, como vegetariano que sou, admiro e concordo que os animais têm direitos e devem ser respeitados. Que não devem servir de cobaia para experimentos desumanos. Mas também não concordo que o bebê humano seja largado nas sarjetas, espancado, negligenciado ou terceirizado.

Numa época em que os métodos anticoncepcionais são difundidos e alguns até distribuídos gratuitamente, não há razão para que alguém venha ao mundo sem ser desejado. Não há por que procriar sem amor e sem desejo pela vida (vinda) de um terceiro.
É preciso que pais, educadores e terapeutas eduquem e tratem das pessoas que lhes foram confiadas, de algum jeito, com a certeza de que a maneira ideal de preservar a vida, inclusive psíquica, é torná-la digna, trabalhando todos pelo bem comum. Nós sabemos que os animais necessitam de equilíbrio em seu habitat para poderem cumprir a finalidade natural de sua existência.

O que chamamos de ecossistema. Para o animal humano, a dependência do ambiente é enorme. Para se tornar autônomo, o homem precisa de intensos cuidados e educação por muitos anos. E, mesmo depois de adultos, ainda precisamos de um lugar seguro, onde possamos repousar e repor energias.
A vida humana, desde a tenra infância até a velhice e a morte, é cercada de problemas, desafios, obstáculos que necessitamos superar. Como afirmou o psicanalista Erich Fromm, o ser humano é o único animal cuja existência é um problema a ser resolvido. Uma questão a ser decifrada. Mistério e enigma. Quem sou eu? Para que vim a este mundo?

Que sentido deve ter a minha existência? Como marcar esse planeta com a minha presença? A cada etapa da vida, devemos construir nosso modo de ser e existir, mas isso nunca é feito adequadamente se nos entregarmos a um estilo de vida solitário, egoísta e mesquinho. Precisamos uns dos outros, até para saber quem somos.
Entre o fato existencialista enfatizado por Jean Paul Sartre – “o inferno são os outros” – e a proposta utópica de Jesus Cristo e outros líderes religiosos – “amar o próximo como amamos a nós mesmos” – devemos encontrar a melhor saída para a vida em comunidade. Isso tem implicações psicológicas: como cada um individualmente pode fazê-lo. E implicações sociais e políticas: afinal, todos pagam um preço para existir literalmente, os impostos.

A luta por um ambiente justo, onde haja solidariedade e partilha, respeito aos direitos humanos e civis, não deve ser apenas utópica. Deve estar na pauta do dia. Na agenda de cada profissional, na esfera que lhe cabe. Ou morreremos todos em ataques terroristas ou dizimados pela violência urbana, o preconceito, a barbárie.
Quando aceitamos que os recursos e as oportunidades pertencem apenas a uma pequena parcela da população em detrimento de uma grande maioria rejeitada ou excluída economicamente, existir torna-se inseguro para todos. Todos viverão com medo. Qualquer tipo de injustiça ameaça a vida do cidadão.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos não deve ser um documento esquecido, posto de lado. Deve ser como uma cartilha, que todos precisam conhecer e lutar para que seja respeitada e aplicada em todas as partes do planeta. Religiões e culturas não podem lhe impor barreiras em nome de qualquer deus ou tradição.
A Psicanálise afirma que a civilização foi conquistada graças à domesticação da sexualidade e da agressividade inerentes ao humano pelo simbólico. Cada psicanalista, em seu exercício diário, continua a buscar para seu analisando (e necessariamente para si mesmo por ter passado por uma Análise pessoal) modos de sublimação do que há em cada um de nós de obscuro, perverso e inominável. É esta, entre muitas outras coisas, a contribuição da Psicanálise para a construção de uma sociedade mais justa, equilibrada e sadia.

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Paulo Emanuel Machado
Paulo Emanuel Machado é psicanalista, escritor e professor. Tem dois romances publicados: A TEMPESTADE (Editora Scortecci, 2014) e VOCÊ NÃO PODE SER O OCEANO (Edição independente, 2015), ambos baseados em relatos de pacientes e alunos. O primeiro sobre abuso sexual; o segundo sobre a travessia difícil da adolescência.Também possui artigos publicados e contos em antologias. É de Salvador, Bahia, nascido a 10 de janeiro de 1960.



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