Todo tipo de relação, não importa se amorosa ou não, precisa de diálogo. Diálogo requer que a gente fale as coisas. Fale com palavras, de forma que o outro consiga ter certeza do que está sendo dito.

Uma das coisas mais comuns de relacionamentos, de acordo com a experiência de especialista em nada que eu tenho, é o desejo de que seus desejos sejam adivinhados. Sabe aquela coisa de comédia romântica que um personagem diz algo pros amigos e na cena seguinte a pessoa amada aparece tornando aquilo realidade sem que ninguém tenha dado uma dica? Pois é, não existe na vida real. Ok, existem umas coincidências, mas só. Ninguém lê mentes, ninguém adivinha. Não rola. Simples assim.

Quando a gente descobre que essas coisas não rolam no mundo real a gente passa a usar nossas palavras – que também podem ser usadas em libras ou na linguagem que mais se adequar à situação. Se você quer uma coisa, você diz sim. Se você não quer, diz não.

Aí a gente chega na sexualidade. Bem, sexo é um treco louco. E por mais que muita gente não entenda o que isso quer dizer, sexo é sobre poder. É um momento em que o poder, mais do que nunca, precisa flutuar de uma pessoa para a outra e voltar e ir embora de novo. E por isso é tão importante verbalizar as coisas.

O sexo deixa o nosso cérebro meio estranho. A gente não é multi tarefa na hora do sexo – e eu acredito que a gente não seja multi tarefa nunca, na verdade, que isso é só a gente fazendo mal um monte de coisa ao mesmo tempo. Na hora do sexo você está focada em sensações, prazer e expectativas.

No mundo perfeito, na hora do sexo, uma pessoa está ligada a outra, as sensações, prazer e expectativas da outra pessoa. Mas vamos ser realistas: no momento real em que vivemos qual a % de pessoas que fazem isso? Seja no sexo ou fora dele. Pois é.

Hoje, no mundo real, a gente precisa usar as palavras. A gente precisa dizer “mais pra cá”, “aí não”, “assim” e “NÃO”. A gente precisa dizer não. A gente precisa dizer quando não quer algo, quando quer que pare. A gente precisa se treinar para isso, já que fomos treinadas a sorrir e seguir o jogo mesmo não tendo a mínima vontade disso.

Não vivemos no mundo perfeito ou ideal, portanto temos que nos adequar ao que ele pode oferecer sem nos colocarmos em risco. Então falem. Digam com todas as letras o que querem dizer. É difícil, dói e a gente se sente péssima, morre de vergonha de ser a pessoa que pode virar assunto no dia seguinte. Mas foda-se. Não importa o que os outros pensam: cuide de você e do seu desejo, prazer e expectativas.

Quando a gente fala sobre abusos, então, a coisa fica ainda mais complicada. A gente precisa usar as palavras. A gente precisa empurrar os caras – ou as minas – e os tirar de cima de nós. A gente precisa ser contundente e não deixar dúvidas. Não porque eles não tenham sensibilidade, mas porque nem sempre a outra pessoa está prestando atenção ao que o seu corpo está dizendo. Essa não é a linguagem mais popular entre as pessoas. Você nunca vai ser culpada pelo que o outro faz, mas se pode se proteger usando algo simples como a língua que os dois falam, faça isso.

Se a gente não fala, se espera que uma ligação espiritual de almas ou a sensibilidade da outra pessoa – seja do gênero que for – vá funcionar e nos proteger… bem, a gente tá colocando nossa segurança na mão de outra pessoa e sabemos bem que isso normalmente não dá certo.

Você é a pessoa mais importante da sua vida. A gente não controla o que o outro pensa ou diz por aí, então não vale a pena ficar com medo de dizer as coisas porque a outra pessoa pode sair comentando que você isso ou aquilo. A outra pessoa pode fazer o que ela quiser com as palavras dela, inclusive sobre você, e não dá pra controlar. Então não adianta ter medo. Muito melhor se proteger e deixar tudo bem claro do que correr riscos esperando o bom senso alheio.

Imagem de capa: Shutterstock/Peetz

texto publicado no perfil da autora

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Carol Patrocínio
Carol Patrocinio é jornalista, feminista, mãe que educa sem gênero e duas vezes (2015 e 2016) indicada como uma das mulheres inspiradoras pelo site Think Olga. É também co-fundadora da Comum. Facebook: https://www.facebook.com/carol.patrocinio Medium: https://medium.com/@carolpatrocinio Newsletter: http://eepurl.com/b1pyhr

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