Minha mãe não sai do Facebook

O título do meu artigo de hoje foi sugestão de um grande amigo que, ao responder à minha pergunta sobre quais temas poderiam repercutir, me disse:

-Escreve sobre a relação da terceira idade com as redes sociais! A minha mãe não sai do Facebook.

E eu respondi:

-A minha também não.

Estive no litoral no último feriado com minha família e, enquanto meu marido brincava com nosso filho no mar, eu, que não posso me expor ao sol, estava sentada na sombra fazendo o de sempre: observando gente com os trinta e poucos por cento de visão que dizem que eu tenho.

Um homem de mais de sessenta anos estava sentado à minha frente tirando fotos de si mesmo. E ali estava o tão famoso selfie dominando alguém que nasceu na década de quarenta. Ele mudava a posição da câmera e também do rosto, procurando o melhor ângulo (como todos nós fazemos). Acredito que tenha tirado umas vinte fotos pelo menos. Depois passou a manusear o aparelho como se procurasse a foto que mais lhe agradou. Talvez ele tenha usado os filtros, ou não, mas era certo que iria postar a foto no Facebook ou no Instagram, ou ainda enviá-la para um buraco negro sem fim chamado Whatsapp.

Minha mãe ainda não usa os filtros (eu acho), mas entra diariamente no Facebook. Participa de alguns grupos de Whatsapp e acredito que seja difícil para ela hoje em dia imaginar-se longe da tecnologia sem a qual ela viveu por uns sessenta anos. Quando a vejo conectada e vejo o quanto ela se empolga com cada amiga que revê e que consegue agora manter contato, quanto vejo que ela consegue ficar mais perto dos filhos, visto que eu e meus irmãos moramos fora de Limeira e quanto vejo que ela passou a ter mais informações do que antes eu fico feliz por ela ter se conectado. Acredito que, numa avaliação final, a tecnologia termine com saldo positivo.

Enquanto eu tive contato com a internet aos vinte anos de idade, minha mãe passou a vida longe dela. Ela criou os filhos, viajou com a família, foi ao supermercado, passeou com a cachorrinha, fez as unhas, o cabelo e foi a muitos casamentos sem nem sequer carregar um aparelho celular na bolsa. Ela viu a mim e aos meus irmãos crescerem sem tirar fotos do nosso dia a dia. Se quisesse escrever o que sentia, teria que arranjar um diário e trancá-lo a sete chaves. Sim, porque houve um tempo no qual não escrevíamos publicamente o que pensávamos como fazemos agora. Quando ela ganhava os presentes do Dia das Mães, ela não os fotografava para postar, porém ela os guarda até hoje.

Minha mãe passou a vida sem dar check in e sem tirar selfie. Se ela quisesse conversar com uma amiga, teria que pegar o telefone (que por muito tempo tinha um fio ligado à parede) e discar os números que tocariam o telefone de outra casa. Um número de telefone era o de toda a família, então, elas teriam que ter bastante sorte para conseguirem se falar. Sem a tecnologia a vida era mais solitária. Na terceira idade a solidão pode ser maléfica, dessa forma, uma vida conectada depois dos sessenta pode ser saudável. Por que não?

Talvez “ter o mundo nas mãos” encante a minha mãe e talvez isso faça com que a mãe do Zé não saia do Facebook. Elas estão maravilhadas. Elas voltam no tempo postando as fotos da época do colégio e do jardim. Conversam, marcam cafés, mostram suas famílias como faziam antes com as pequenas fotos que tinham dentro da carteira e que só podiam ser mostradas se encontrassem umas às outras no supermercado ou na sala de espera do consultório médico. Elas são jovens de novo. O tempo não existe para o que sentimos. Elas fofocam com as amigas, se entristecem com pedidos de amizade não aceitos, especulam a vida dos outros, se chateiam com não curtidas e com não comentadas em suas postagens – tal qual era na adolescência. Tudo tão humano não é mesmo?

Elas compartilham as tragédias, acreditam piamente em tudo que leem e ficam bravas conosco (os filhos) quando mostramos “que não é bem assim”. Elas erram ao digitar e ao postar, vivem nos pedindo ajuda e não querem que fiquemos fuçando no celular delas. Acho tudo muito divertido.

Foi bonito ver o homem de cabelos grisalhos tirando selfie na praia porque ninguém, absolutamente ninguém publica uma foto de si mesmo que não lhe esteja agradando. Ele ainda gosta de si mesmo! É bonito ver que minha mãe, a mãe do Zé e todas as jovens de mais de sessenta dominaram a tecnologia. Antes havia o crochê, a costura, os livros – todos deliciosos – porém muitas vezes solitários. Hoje há também o Facebook. Que ele possa se intercalar entre a leitura e os trabalhos manuais e que traga alegria a quem passou a vida desconectado, já que hoje isso é cada vez menos possível.

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Viviane Battistella
Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura...



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