O culto à criança de nossos dias

Crianças são sagradas. Tudo de melhor para elas. Que ao menos nossas crianças vivam bem. As crianças são as flores da via. A alegria da casa. Filho, não se preocupe, papai fará tudo por você.

Expressões como estas às vezes são cansativas. Digo isso como pai, ex-criança e futuro avô. Será que é necessário deixar de amar tanto as crianças? Será que não é a hora de tratá-las como seres humanos?

Eu pessoalmente não gostaria de ter nascido na época atual. Há amor demais. Desde a hora em que você nasce, te transformam num boneco. Seus pais e avós de imediato começam a corrigir em você seus próprios instintos e complexos. Te alimentam demais. Te levam a um massagista infantil. Te colocam pequenas calças e pequenos casacos adoráveis apesar de você ainda nem saber andar. E se você é menina, furam suas orelhas para colocar argolinhas de ouro, aqueles que a tia Joana tanto quer te dar de presente.

No terceiro aniversário, os brinquedos já não cabem no seu quarto; no sexto, não cabem nem no sótão. Te levam a lojas de roupa infantil, passando por restaurantes e máquinas de jogos. As mamães e avós mais exageradas até dormem contigo na mesma cama até que você tenha 10 anos, até que comece a pegar mal. Ah, e quase esqueci. Um tablet! Uma criança precisa necessariamente ter um tablet. E é desejável que tenha também um iPhone. Porque o Sérgio tem um, a mãe dele comprou, e eu acho que ela nem ganha tanto, ganha menos que você. Até a Tânia da outra sala também tem um, e isso porque ela mora só com a avó.

Antes da escola, de maneira geral, se acaba o ‘período das bonecas’ e de imediato começa o de ‘trabalho forçado’. Os pais amorosos se dão conta de que fizeram algo errado. A criança tem sobrepeso, um mau caráter e síndrome de déficit de atenção. Tudo isto é motivo para levar a outro nível o divertido trabalho de ser pai. Esse nível se chama ‘procure um especialista’. Agora com o mesmo entusiasmo te levam a nutricionistas, educadores, neuropsiquiatras, neurologistas e psicólogos. Seus parentes procuram freneticamente algum milagre que permita atingir resultados mágicos revitalizantes sem ter de mudar seu método de criação. Com essas práticas se gasta muito dinheiro, os nervos e muito tempo. O que conseguem? Um resultado nulo.


Também neste período é típica a tentativa de aplicar na criação dos filhos as regras de uma disciplina extremamente dura e uma ética de trabalho. Em vez de realmente cativar o pequeno com algo ou dar-lhe mais liberdade e responsabilidade, os familiares ficam em fila com um chicote nas mãos e com um grito na garganta. Como resultado, a criança aprende a viver sob pressão, forçada a fazer coisas, perdendo a capacidade de se interessar por algo.
Quando a futilidade do esforço se faz evidente, começa a fase da rejeição. Quase todos os pais que até o momento amam demais seus filhos, começam a odiá-los: “Estamos fazendo tudo por você, e você…”. A única diferença é que alguns expressam tal ódio com uma rendição completa enviando o filho a alguma instituição educativa do tipo fechada (escola militar, colégio interno, etc.), enquanto outros gravam na própria mente as palavras “você é minha cruz”, e vivem o resto da vida com essa ideia.

Conformados com o fato de que não sairá nada de bom do seu querido filho, os pais continuam afetando a personalidade do filho já adulto. Matriculam-no numa universidade privada, subornam os professores, lhe compram casa, carro, etc. Se por natureza a criança não é muito talentosa, esta estratégia inclusive dá resultados mais ou menos perceptíveis: a criança se transforma num ser psicologicamente traumatizado, mas um cidadão bastante decente. Porém, pelas feridas causadas pelo excesso de amor paterno, os filhos pagam com sua saúde, suas almas e suas vidas.

O culto às crianças surgiu em nossa civilização há uns 50 ou 60 anos. E em muitos sentidos, é o mesmo fenômeno artificial do Papai Noel que vemos todos os anos nos comerciais da Coca-Cola. As crianças são a ferramenta mais poderosa para promover o consumismo. Cada centímetro quadrado do corpo de uma criança, sem mencionar os litros cúbicos de sua alma, há muito tempo está dividido entre fabricantes de bens e serviços. Obrigar um ser humano a amar a si mesmo com um amor tão desenfreado, é um desafio moral e ético muito complexo. Mas fazer com que se ame desta forma as crianças é muito simples. E é um ótimo negócio.

Obviamente, isso não quer dizer que antes as crianças não eram amadas. Sim, elas eram amadas, e muito. O que acontece é que antes as famílias não giravam em torno das crianças. Os adultos não queriam ser animadores gratuitos, eles viviam suas vidas naturalmente e conforme os filhos iam crescendo, se envolviam nessa vida normal. As crianças sempre eram amadas, mas todos percebiam que elas eram apenas uma partícula de um universo enorme chamado “nossa família”. Nesse universo há pessoas adultas as quais deve-se respeitar, há menores de idade que se deve proteger, há trabalho a ser feito, há uma fé que nos ajuda e seguir nosso caminho.

Hoje em dia o mercado impõe à sociedade a receita familiar construída ao redor da criança. É uma estratégia derrotada, que existe unicamente para tirar dinheiro dos lares. O mercado não quer que a família se forme de maneira adequada porque assim iria satisfazer suas necessidades por conta própria. E uma família infeliz gosta de expôr seus problemas para que alguém ajude a resolvê-los. Este costume tem sido durante muito tempo a base para que muitas indústrias ganhem milhões de dólares. Pelo ponto de vista do mercado, um pai ideal não é aquele que passa o fim de semana com seu filho, que o leva ao parque para ensiná-lo a andar de bicicleta. O pai ideal é aquele que passa o fim de semana trabalhando em horas extras para ganhar dinheiro e levar o filho para um visita ao parque aquático.

E sabe do que mais? Substituamos o verbo “amar” que usamos tanto no decorrer deste artigo por algum outro: ignorar, ser indiferente, descuidar. Porque esta forma de amor paternal é apenas uma forma de egoísmo. Uma mãe enlouquecida e exagerada, um pai viciado em trabalho… não é nada mais que um jogo de instintos. Diga o que quiser sobre o dever dos pais e sobre o sacrifício, uma paternidade/maternidade deste tipo é um prazer grotesco, algo como o amor sem amor.

Um provérbio indiano afirma: “O filho é um convidado em sua casa: alimente-o, eduque-o e deixe-o ir”.

Qualquer um pode alimentar, educar é muito mais difícil, mas saber deixá-lo ir pouco a pouco desde os primeiros minutos da vida… isso é amor.

Autor: Dmitry Sokolov — Mitrich
Fonte: foma.ru
Tradução e adaptação: Genial.guru, Via Incrível

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