Por que a vilania desperta tanto interesse no imaginário popular?

Sim, é uma pergunta que gira em torno das dicotomias humanas: encantamos-nos com as maldades de Paola Bracho (A Usurpadora), mas choramos e/ou desprezamos as atrocidades de “vilões” da vida real como Suzane Hichthofen.

Por que vilões da ficção, sendo eles da teledramaturgia, cinema, teatro, contos infantis, lendas, literatura, dentre outros meios de produção artística, despertam tanto interesse e paixão das pessoas?

Nos Estados Unidos (e logo chegou ao Brasil em 2012) foi lançada a linha de bonecas da Disney, a “Villains Designer Collection”: todas as vilãs dos contos infantis como Úrsula, Malévola, Cruella De Vil etc. para crianças e colecionadores.

Nas redes sociais, as páginas de vilões das novelas brasileiras geram grande alvoroço e sucesso. Páginas de personagem como Félix Khouri (Amor à Vida) com mais de 3 milhões de seguidores, Nazaré Tedesco (Senhora do Destino) com quase 50 mil seguidores e Carminha (Avenida Brasil) com mais de 100 mil seguidores. Somando as vilãs mexicanas, ultrapassam 5 milhões de seguidores, só no Brasil. Quem esquece de Odete Roitman (Vale Tudo), a ácida vilã que odiava o Brasil ou de Violante Cabral, a azeda vilã de Xica da Silva? Bordões como “maldita catadora”, “marginal” são muito lembradas, referindo-se à personagem Soraya Montenegro (Maria do Bairro).

A maldade humana sempre despertou atenção das pessoas. A questão aqui não é misturar curiosidade com adesão ao que é ruim, maléfico, maquiavélico. As pessoas querem saber como se comportam personagens no que tem de pior dentro de si, uma espécie de “reflexo analítico próprio” ou expurgo daquilo que precisa ser aniquilado, anulado, desfeito da espécie humana. O que é humano, mesmo ruim, desperta curiosidade. Isso é enigmático e mexe com o imaginário popular, ou não teria efeito a frase “a arte imita a vida”… ou “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, já dizia Oscar Wilde.
Quem nunca leu e despertou interesse em saber da história de vilões das religiões, como por exemplo, no cristianismo, as figuras de Judas Iscariotes (o traidor), Dalila, (a mulher que seduziu Sansão e cortou-lhes os cabelos longos, deixando-o fraco), Caim (o assassino de seu bondoso irmão, Abel) ou até mesmo Lúcifer, anjo de luz, criado por Deus, que se revolta contra o Criador e é expulso dos céus?

Nas lendas e mitologias amazônicas, a vilania sempre esteve presente também. Uma delas, a lenda do guaraná: Jurupari, o deus da escuridão, ao sentir inveja de uma linda criança que crescia em beleza e bondade, decidiu transformar-se em serpente e matar o menino instantaneamente.

No cinema mundial, a vilania sempre foi a cereja do bolo de qualquer filme que desejasse grande alcance e sucesso. Lembramos da diabólica dupla Willy Lopez e Carl Brunner, os assassinos de Sam Wheat em “Ghost, do outro lado da vida” de 1990, Jason Voorhees, o sanguinário “Sexta-Feira 13, de 1980 e Poltergeist (1982), o espírito zombeteiro que perseguia a angelical Carol Anne.

Darth Vader, Sauron, Voldemort, Hannibal Lecter, Alex Delarge, Dexter Morgan e Nucky Thompson são alguns desses seres que arrebatam nossos corações com suas vidas multifacetadas e, algumas vezes, incompreendidas. A paixão é instantânea e caminha lado a lado com o desprezo. A dicotomia humana!

Nos desenhos infantis eles também deram o “ar da graça” ao estragarem os sonhos e desejos dos “bom mocinhos”, assim já faziam a deusa Éris (mitologia grega) que com sua maça de ouro deseja o controle do mundo e a deusa Hilda de Polaris (mitologia nórdica), que enfeitiçada pelo anel de Nibelungo, anseia matar a bondosa e caridosa deusa Atena em “Os Cavaleiros do Zodíaco” (1995).

Ah, como esquecer do Lobo Mau (Chapeuzinho Vermelho)? Existem aqueles que amam mais o Frajola do que Piu-Piu ou mais o Coyote do que o Papa Léguas. Há quem ame loucamente mais a Mulher Gato, Coringa e Pinguim do que Batman e Robin.

Figuras imperfeitas e sem qualquer vocação heroica, que realizam a justiça por razões egoístas e vingativas ou através de meios duvidosos, são os protagonistas da maioria das ótimas produções nacionais/internacionais.

O efeito é provocado por intermédio da humanização proposital das causas e perfis dos vilões e anti-heróis, sugerindo situações, aspirações ou pensamentos que todos nós já passamos, tivemos ou presenciamos, trazendo a realidade da vida muito mais pra perto de todos nós, ou tudo apenas gira em torno dos contos de fadas com pleno final feliz?

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Manoel Brandão Neto
Especialista em Psicologia Hospitalar e da Saúde Mestrando em psicologia da saúde (Universidade Federal do Amazonas)



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