Você está PRESENTE junto às pessoas que ama? E nos outros relacionamentos?

Dr. Maurício Silveira Garrote

Quando ouvimos essa pergunta nossa primeira resposta é: “estou sim, claro”. Isso porque em geral entendemos como “estar presente” estar espacialmente perto de uma pessoa. Por exemplo: “estou presente junto aos meus filhos, pois moro com eles e os vejo todos os dias”.

Entendemos estar presente também como aparecer nas datas socialmente importantes junto às pessoas. Por exemplo: “estou presente junto à minha avó, pois vou a todos os seus aniversários” ou “…já que passo toda véspera de Natal com ela”.

Mas na verdade não é tão simples assim. Para um ser humano registrar afetivamente a presença de outro não basta este outro estar em seu campo visual, ou a seu alcance auditivo, ou mesmo tátil. Para que outro ser humano sinta nossa presença é necessário que OFEREÇAMOS nossa presença a ele. Em outras palavras, que ESTEJAMOS integralmente lá onde as pessoas estão nos vendo. Por exemplo, posso estar espacialmente junto à um grupo de amigos sem estar PRESENTE junto a eles naquele momento. Posso estar com meu corpo lá, mas pensando em outra coisa, afetivamente ligado a outra coisa, aquilo que o senso comum chama “estar só de corpo presente”.

Outra coisa que acontece com muita frequência é estar PROPOSITALMENTE apenas de corpo presente. Quando estamos junto às pessoas com as quais não queríamos estar, ou em ambientes que são hostis, nosso psiquismo automaticamente “bloqueia-se” em relação àquela situação e passamos a não sentir as emoções circulantes, da mesma forma que não prestamos mais atenção no que está acontecendo. Parece estranho? Pode ser, mas acontece muito frequentemente na contemporaneidade, especialmente com o uso dos dispositivos portáteis (fones de ouvido, tablets, celulares), que facilitam muito que nos ausentemos daquele momento e local que nos incomoda.

Observemos as pessoas no metrô, nos bares, na rua – todos estão ouvindo alguma coisa que não é o que as rodeia, através de fones de ouvido, conectados a seus celulares. Recentemente, vi uma família de cinco pessoas num restaurante impecavelmente isoladas, cada um em seu mundo, cada um com um dispositivo eletrônico que lhe facilitava “afastar-se da atualidade e das pessoas a sua volta”. Podemos dizer que estavam “almoçando juntos”?

Uma revolta contra dispositivos eletrônicos? De forma alguma. Antes desses dispositivos já fazíamos isso, apenas com mais empenho e criatividade. Pelo contrário, o sucesso de tais dispositivos é resultante da intensificação desse mecanismo psíquico que podemos chamar de DISSOCIAÇÃO [uma parte pequena está aqui (automática), mas a maior parte (a que pensa, a que sente) está em outro lugar] PSÍQUICA.

Para que o outro nos sinta humanamente próximos é necessário que DISPONIBILIZEMOS NOSSA PRESENÇA. O que quer dizer isso? Significa disponibilizarmos toda nossa pessoa humana para aquele encontro, nos propormos a escutar a outra pessoa, vê-la, acolhendo emocionalmente tudo que provém dela, ou seja, SENDO AFETADOS por tudo o que a pessoa traz naquele momento. Sabemos que estamos presentes junto a alguém quando a sua PRESENÇA produz em nós modificações emocionais e FÍSICAS.

A palavra compaixão, em sua origem grega, como utilizada no Novo Testamento, por exemplo, significa “sentir em suas entranhas o que o outro está sentindo naquele momento”, isto é, meu corpo se transforma no contato que tenho com aquela pessoa, além do que eu escuto ou vejo. E por que nosso mundo mental foi ao longo de séculos desenvolvendo meios de se TORNAR AUSENTE do outro ou do grupo, mesmo que aparentemente? Bem, aí já é assunto para uma próxima conversa…

Sugestões de temas, dúvidas sobre algum conceito de nossos artigos? Participe da nossa nova coluna “Pergunte ao Psiquiatra”! Envie um e-mail para: mauricio.psicologiasdobrasil@gmail.com, que nosso colunista Dr. Maurício Silveira Garrote terá o prazer de respondê-lo!

 

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Maurício Silveira Garrote
Médico especialista em Psiquiatria Clínica pelo HC FMUSP (1985) e Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, com a tese "De Pompéia aos Sertões de Rosa: um percurso ao longo da Clínica Psicanalítica de pacientes com diagnóstico de Esquizofrenia" (1999).



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