Durante muito tempo me preocupei muito mais em ser aceita pelos outros do que bancar quem eu realmente era, com toda gama de nuances que fazem parte do que sou. Durante muito tempo, a busca por ser aquilo que esperavam de mim tinha muito mais valor do que assumir minha identidade, sem tirar nem pôr.

Porém, com o tempo e alguma maturidade, fui percebendo o quão exaustivo era aquilo, o quão penoso poderia ser construir uma vida assim, em que “cumprir o combinado” tinha mais valor que experimentar minha própria narrativa, com todos os erros e acertos desta escolha.

No fundo, eu queria ser amada – todos nós queremos. Mas o olhar do outro sobre mim tinha um peso e um valor muito grandes, e não querer decepciona-los era uma meta que me roubava, pouco a pouco, de mim mesma.

Há uma diferença grande entre autoestima e autoaceitação. Autoestima tem a ver com reconhecermos as nossas qualidades e fazermos uma autoavaliação positiva a respeito de nós mesmos. É claro que ela é poderosa, e nos ajuda a nos posicionarmos com “confiança no nosso taco”, nos tornando conscientes de nosso valor.

Porém, a busca desenfreada por uma autoestima positiva, em que os aspectos negativos ou não tão atraentes são considerados “ruins”, nos faz rejeitar partes de nós mesmos que deveriam conviver harmoniosamente com os traços positivos, sem causar mal estar por nossa totalidade.

É claro que é importante tentarmos evoluir a cada dia. Se uma gordurinha fora do lugar ou o desejo de estudar e crescer são incentivos para eu mudar e ser melhor – principalmente para mim mesmo – ótimo! Porém, isso é diferente de tentar passar uma imagem de perfeição, negando ou recusando minhas limitações, como se elas fossem anomalias que deveriam ser escondidas ou combatidas a qualquer custo.

No livro “Manual da Faxineira”, de Lucia Berlin, há um conto intitulado “Dor”, em que duas irmãs viajam para um resort e, ao se dirigirem para a piscina, a mais nova, Sally, chora ao ver as cicatrizes de uma mastectomia onde antes estava o próprio seio. “Estou horrenda! Não sou mais mulher! Não olhe!”. Sua irmã mais velha, Dolores, segura os ombros de Sally e a sacode. “Você quer que eu seja sua irmã? Então me deixe ver! Sim, é horrendo. As cicatrizes são brutais, horríveis, mas elas fazem parte de você agora. E você é mulher, sim, sua bobona! Sem o seu Alfonso, sem o seu seio, você pode ser mais mulher do que nunca, você pode ser a sua mulher!”

Esse trecho foi um soco no estômago. Pois assim como as cicatrizes visíveis, carregamos inúmeras outras imperfeições visíveis ou invisíveis que não deveriam nos tornar menos mulheres ou menos homens. Temos limites, e aprender a conviver com esses limites sem rejeitá-los ou fingindo que eles não existem deveria ser o usual, comum, normal. Porém, o que temos visto é um mundo plastificado, em que aparentemente todo mundo deu certo na vida, todo mundo dá conta de tudo, todo mundo está sempre de bom humor, bem resolvido, bem amado, bem equilibrado. E começamos a nos sentir uns ETs, incapazes de competir com a perfeição, inadequados dentro de nossa própria pele.

A ditadura da perfeição e a busca por uma autoestima impecável é exaustiva. Pois, no fim das contas, estaremos querendo agradar a quem? À vitrine do Instagram? Ao binóculo da família, amigos, vizinhos?

Gabito Nunes tem uma frase que adoro que diz: “A verdade, o que realmente importa mora dentro de mim, longe do binóculo alheio. O resto é cena, ego, poeira.” E é isso que acredito. Não precisamos ser publicitários de nosso bem ou mal estar, mas entender que somos um conjunto de bem e mal, sucesso e insucesso, conquistas e limitações, certezas e enganos. E se uma hora ou outra os desacertos superarem a excelência, tudo bem!!!

A perfeição é uma armadilha. Porque ao me exigir perfeição, me cobro além da conta, além do que é possível e humano, e acabo abrindo mão do que é do meu feitio e da minha vontade para cumprir um protocolo impossível, que fatalmente terá falhas, e me mostrará que tenho limites. E talvez, tarde demais, eu descubra a perfeição me roubou de mim.

“Autoestima não significa eles vão gostar de mim, e sim tudo bem se eles não gostarem”. Assuma os riscos de ser quem você é, e aprenda a dizer “está tudo bem!” mesmo quando o feijão queima, a meia calça desfia, o projeto atrasa, as mãos suam, você surta, o despertador não toca, o desodorante vence, você diz “não” àquela solicitação ou é rejeitado por alguém. Se perdoe, se pegue no colo, acolha suas falhas e respeite seus momentos de insanidade e inadequação. Assuma seus desejos, mesmo que isso desagrade alguns ou signifique que você deixará de fazer parte daquele “clube-seleto-de-pessoas-perfeitas-que-fazem-ioga-e-meditam-às-5-da-manhã”. Assuma sua vida, seus caminhos e, finalmente, aprenda a se acolher com compaixão, abraçando-se com aceitação e perdão.

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Photo by Noah Silliman on Unsplash

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.