O mercado de trabalho brasileiro vive, desde 2015,um momento de mudanças agudas, relacionadas ao aumento do desemprego e da informalidade. Neste cenário, a insegurança é generalizada. Mesmo quem está empregado, está empregado em condições que causam sofrimento psíquico, porque esses trabalhadores vivem sob a pressão do possível desemprego e da deterioração das condições de trabalho. E é justamente para tratar desse assunto que os pesquisadores Thatiana Cappellano e Bruno Carramenha lançaram em novembro o livro “Trabalho e sofrimento psíquico”.

O livro expõe e analisa resutados de uma pesquisa feita a partir de encontros, entrevistas e questionários online com cerca de 800 pessoas. Nesta pesquisa, os autores identificaram uma série de transtornos que transcendem a segurança com o emprego.

O principal dado levantado é que, para 78% dos entrevistados, o trabalho contribui ou contribuiu para o surgimento de algum tipo de doença. Dentre as mulheres negras entrevistadas, o percentual é ainda maior: 85% fizeram a afirmação.

Ruy Braga, chefe do Departamento de Sociologia da USP e orientador da pesquisa de Cappellano e Carramenha, explica que “historicamente, as mulheres e as mulheres negras são colocadas no interior da classe trabalhadora nos setores mais submissos, submetidos às condições mais extremas de dominação e de exploração.” , portanto, seria compreensível que o trabalho e a falta dele causem mais sofrimento em mulheres negras.

A pesquisa ainda revela que, para 75% das pessoas entrevistadas, o trabalho é causa de sintomas como ansiedade, estresse, dor nas costas, desânimo e algo apresentado como “Síndrome do Fantástico”, a tristeza e desânimos presentes nas noites de domingo, próximo ao horário que o programa da TV Globo é exibido.

A pesquisa também apontou que todos os grupos de entrevistados se sentem obrigados a criar um “semblante do trabalho”, uma máscara social para lidar com o emprego — ou a falta dele.

Aqueles que estão afastados do trabalho por motivo de saúde sentem que precisam provar constantemente que estão doentes, se privando de uma vida social, temendo o rótulo de “vagabundos”. Já grande parte dos desempregados relatou que procura mostrar o tempo todo que está em busca de recolocação no mercado.

De acordo com o estudo, os semblantes sociais são criados como uma forma de corresponder às próprias expectativas, às da família e de outros círculos sociais.

Para Rui Braga, a melhor maneira de mitigar o adoecimento, o sofrimento psíquico e a angústia é aumentando a segurança do emprego.

“Historicamente, o Brasil tem uma economia muito marcada pela informalidade. A informalidade gera insegurança de renda e de emprego. Por isso, precisamos de políticas públicas capazes de dar conta da formalização da informalidade, que pode vir pela contratação com algum nível de proteção, pela regularização de pequenos negócios, ou de qualquer forma que garanta uma renda mínima para esses setores que hoje estão na informalidade. Essa é a melhor maneira de lidar com a insegurança.” , diz Braga.

O orientador também opina sobre como seria possível reduzir o adoecimento nos empregos formais, “… no mercado de trabalho formal, que no Brasil também é marcado por inseguranças, você tem que ter uma atuação mais efetiva por parte do Estado. Você tem que ter uma lei contra a demissão imotivada. As empresas não podem ajustar suas contas prioritariamente, ou exclusivamente, sobre os ombros de quem trabalha. É necessária uma atuação mais forte do poder público e da legislação brasileira, com maneiras de coibir esses altos índices de rotatividade.”, finaliza Rui Braga.

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Destaques Psicologias do Brasil, com informações de Nexo Jornal.
Foto destacada: Reprodução.

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