Males ainda incuráveis, como Alzheimer, diabetes, câncer e até depressão, atingem milhões de brasileiros ao longo de gerações. Buscar a cura ou simplesmente uma forma de amenizar essas doenças envolve bilhões em pesquisa e cientistas renomados pelo mundo. Para muitos deles, a resposta pode estar no DNA.

Uma iniciativa inovadora no Brasil pretende incluir a população do país no cenário das pesquisas genômicas globais. Coordenado por Lygia da Veiga Pereira, chefe do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP, o projeto DNA do Brasil pretende sequenciar o genoma completo de aproximadamente 15 mil brasileiros, entre 35 e 74 anos.

Os participantes são funcionários públicos que já fazem parte do Elsa (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto), que monitora a saúde dos trabalhadores de seis capitais brasileiras desde 2008. Agora, os dados clínicos de saúde dessas pessoas serão combinados aos dados genéticos, garantindo maior precisão aos diagnósticos. Segundo ela, o Brasil é marcado pela miscigenação de diferentes povos, incluindo indígenas, europeus, asiáticos e africanos, o que garantiu diversidade ao DNA brasileiro.

Para Lygia, é possível entender quais são as variações genéticas que estão associadas ao risco de desenvolver doenças crônicas, dando esperança aos pacientes. “Esse banco de dados que a gente está gerando vai, imediatamente, ajudar a turma que está fazendo diagnósticos de questões genéticas, ajudando eles a interpretar os resultados desses diagnósticos. Então o que muda, agora, é a escala do nosso conhecimento sobre a nossa população. A gente tinha um conhecimento muito superficial sobre a variação genética no Brasil, e agora teremos um número representativo de brasileiros sequenciados para termos um banco de dados realmente significativo”, explica.

O DNA do Brasil também possibilitará a identificação da pré-disposição às doenças, da respostas aos medicamentos e também levar ao desenvolvimento de novas terapias. Parceira de Lygia na coordenação do projeto, a cientista Tábita Hünemeier afirma que o DNA do Brasil pode revolucionar, também, o entendimento sobre a formação das populações ancestrais.

“A gente quer fazer alguns resgastes históricos porque, dos três ou quatro milhões de indígenas que estavam aqui, a gente tem, hoje, 400 mil. Eles não desapareceram completamente, a gente tem resquícios deles quando falamos em 10% ou 7% de ancestralidade indígena que sobrevive na população de São Paulo, do Rio de Janeiro. Essa ancestralidade é representativa desses indivíduos que desapareceram. Então a gente pode resgatar esses indivíduos de alguma maneira”, comemora.

A estimativa para os próximos anos é mapear entre 100 e 200 mil genomas de brasileiros. O financiamento para sequenciar o genoma completo dos primeiros três mil brasileiros, que correspondem a etapa inicial do projeto, vem da iniciativa privada. Segundo Lygia, para dar sequência ao trabalho, porém, serão necessários mais recursos e novos parceiros.

“Uma parceria com a indústria farmacêutica nacional seria bárbaro, porque nós sabemos fazer pesquisa básica, sabemos fazer isso, mas chega um momento em que a nossa capacidade também é limitada. Eles que são melhores, em geral, em pegar um conhecimento novo e transformar num produto”, explica.

Ainda de acordo com a cientista, esses avanços não podem ficar restritos ao ambiente acadêmico. Segundo Lygia, o Ministério da Saúde já sinalizou interesse na expansão do projeto. Para que a medicina brasileira seja mais precisa, eficaz e de menor custo, a pesquisadora ressalta a importância da manutenção de bolsas de estudo para o desenvolvido de projetos científicos no país, como o DNA do Brasil.

“Eu não sei se a população entende que esses alunos são a nossa mão de obra. Isso não é um luxo, a bolsa de estudos para um aluno de pós-graduação é a forma da pessoa se sustentar enquanto ela estuda e trabalha para a gente. Eu não sei qual foi a última vez que eu sentei na bancada e abri um tubo, são sou mais eu quem faz isso, são esses alunos”, explica.

Depois da conclusão dos primeiros três mil genomas, em um prazo de seis meses, o banco de dados já estará disponível para uso exclusivo dos pesquisadores. A estimativa é que os 15 mil genomas sejam sequenciados em um prazo entre 18 e 24 meses.

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Destaques Psicologias do Brasil, com informações de JP.
Imagem destacada: Reprodução.

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