O sucesso e identificação do público tem sido tão grande, que além da série, o catálogo ganhou também o documentário “Dirty John, The Dirty Truth” onde ex parceiras e conhecidos de John são entrevistados contando suas versões da história e possibilitando ao expectador a análise de como seus comportamentos e narrativas se repetem.
Mas afinal, o que se esconde por trás das artimanhas de John?

(Cuidado, spoilers)

O perfil psicológico de John – o que está por trás de um parceiro tóxico?

John é um prato cheio para análises quando se trata das características de sociopatas e parceiros que possuem um perfil abusivo e manipulador.

Sociopatas – uma mente fria e calculista

Conhecidos como pessoas desprovidas da sensação de remorso ou culpa os sociopatas não possuem qualquer possibilidade de experimentarem empatia, enxergando as pessoas de seu entorno familiar e social como extensões de si próprio. Isso leva a percepção dos outros como objetos facilmente manipuláveis para satisfação de seus desejos e alcance de objetivos pessoais.

Além de ser dependente químico de medicações como morfina, John enxergava em suas parceiras a oportunidade para enriquecer, sustentar seu vício e encontrar no outro uma forma de conseguir dinheiro fácil e estabilidade.

Tudo o que elas sonhavam encontrar

Seu potencial criativo para mentiras fazia com que John encenasse em seus perfis nas plataformas de encontros amorosos o parceiro ideal, transmitindo a imagem de alguém confiável, estável, profissional e pai de família. Suas fotos, descrição e pensamentos eram previamente elaboradas com a intenção de despertar nas futuras parceiras a imagem que desejava.

Justificando o injustificável

A alta capacidade de manipulação que sociopatas como John possui, faz com que as lacunas deixadas entre uma mentira e outra quando confrontadas por suas parceiras se tornem uma oportunidade para justificar o injustificável. Mesmo que se apresente evidências concretas que tornem seu discurso mentiroso, habilidades de persuasão são articuladas para que o jogo vire a seu favor não tornando possível ameaças ao papel de bom moço

Perigoso

Qualquer um que confronte sua integridade e versão passa a ser uma ameaça na percepção de um sociopata. Isso faz com que as pessoas corram riscos reais de golpes ou violência para que, ao se sentirem lesadas ou intimidadas, deixem o caminho livre ao agressor. Na série, a filha mais velha de Debra, Victoria, por confrontar sem medo as atitudes e aparência de John a leva a se tornar um alvo, sendo vítima de manipulações que a fazem perder o emprego e ser mal interpretada pela família diante das brigas.

O que faz Debra se tornar um alvo? O perfil psicológico da vítima

Todos podemos ser vítimas de um sociopata, mas características evidentes de nosso perfil faz com que sejamos vistos como alvos fáceis de pessoas como John. Que características são essas?

Mesmo diante de tantas evidências como a falsa profissão, lacunas, afastamento dos familiares e vínculos financeiros contestáveis, o que permite personalidades como a de John repetir o mesmo golpe com tantas mulheres diferentes?

Para introduzir o perfil de Debra, utilizaremos uma frase da psicologia forense: “entre vítima e agressor existem mais semelhanças do que diferenças”. O que isso quer dizer?

Sociopatas de qualquer tipo determinam o perfil de sua vítima buscando características que tornem possível seus golpes e que garantam sua familiaridade com a zona familiar que escolhe e seus conflitos, prevenindo-o de surpresas desagradáveis que possam atrapalhar seus planos.

Tanto na série como na vida real, Debra assim como as anteriores parceiras de John possuem características que possibilitam essa aproximação: o sucesso que possuem profissionalmente contrasta os fracassos de sua vida afetiva. Debra fora casada outras vezes e conhece John em um momento que se sente fragilizada depois de passar por experiências negativas nos encontros anteriores, favorecendo as qualidades que John tenta destacar em si e manipulando o romance e envolvimento. Tudo se torna possível por sua personalidade ser marcada por alguém insegura, com baixa autoestima e que manifesta sua personalidade sonhadora por viver um grande amor.

Quais passagens da série ilustram a iniciativa de John para manipulação?

Quais características da história poderíamos chamar a atenção para que a experiência de Debra Newell nos sirva de exemplo e prevenção?

Perfil: o perfil de John na plataforma amorosa assim como relatam as falas de parceiras anteriores remete a ideia de “ser tudo o que sonhavam”. Quando pensamos em seres humanos e relacionamentos, tudo que lembre uma propaganda não se aplica na vida real podendo levantar questionamentos e dúvidas.
Sempre a vítima: outra característica que remete a propaganda enganosa é que em suas histórias John se coloca sempre na posição de vítima, tornando questionável a genuinidade de seu discurso, uma vez que se torna improvável que alguém sempre ocupe o lugar de vítima por ser “tão bom”, ingênuo ou bem-intencionado.
A arte de mentir com convicção: as lacunas da vida de John sempre eram justificadas com histórias que preservassem a identidade de uma pessoa com boa índole, como o fato de sua ausência na cadeia ter sido contada a Debra como uma passagem no exterior exercendo a medicina em uma grande ONG.

Outra passagem da série que nos chama a atenção é sua naturalidade e convicção em mentir quando busca um advogado na intenção de contratar seus serviços para anular os inúmeros processos e queixas que carregam o seu nome justificando se tratar de mal-entendidos ou mentiras das mulheres queixosas. A convicção e busca por um profissional proporciona credibilidade em seu discurso, reforçando a percepção que a vítima possui de estar diante de alguém injustiçado e bem-intencionado.

Isolamento: quanto mais distante a vítima se tornar de pessoas que desejam o seu bem como seus familiares, mais fácil se torna a convivência e manipulação por excluir as confrontações constantes de terceiros. Neste sentido, fica evidente a maneira como John articula o afastamento de Debra de suas filhas, fazendo-a acreditar que as desavenças familiares são fruto de ciúmes, inveja e sabotagens injustificadas.
Intimidade precoce: desde o início, John busca Debra em sua casa e rapidamente faz movimentos para demonstrar seu desejo em aprofundar o relacionamento e compartilhar suas finanças. De maneira gentil propõe que a busque no primeiro encontro em sua casa, manifesta que o desejo de morar com ela em uma grande casa na beira da praia apenas não é viável por pagar pensão aos filhos do casamento anterior e, em pouco tempo de convivência, toma a iniciativa de confiar a ela uma grande quantidade em dinheiro que desperta confiança recíproca, fazendo-a revelar o esconderijo de uma grande quantidade de dinheiro em espécie em sua residência.
Baixa tolerância a frustração: uma das características dos sociopatas é a baixa tolerância a frustração. Esta característica fica evidente logo no início da série quando John ao não convencer Debra a ter relações íntimas no primeiro encontro mobiliza um comportamento hostil fazendo-o com que saia de sua casa furioso e passando uma impressão ruim de si próprio. O comportamento é reparado com palavras doces onde conta que seu envolvimento emocional e intenso desejo o levou a estragar tudo com sua atitude impulsiva. Justificando assim, um comportamento negativo com um grande sentimento.

O desfecho trágico

Não revelaremos o desfecho trágico desta história que de fato ocorreu na vida real de Debra, mas vale lembrar que mesmo que de maneira trágica, nem sempre histórias como a da protagonista possuem um final feliz. O envolvimento com pessoas sem escrúpulos como John, pode levar a graves consequências, nos fazendo reforçar: ao identificar algumas destas características em seu parceiro(a), não deixe de buscar apoio profissional para se fortalecer permitindo-se fazer questionamentos válidos das atitudes do outro e da razão que o mantem em uma relação abusiva.
E ainda, se você conhece alguém que possa estar sendo vítima de violência de qualquer tipo, não deixe de denunciar anonimamente pelo telefone 180.

Maitê Hammoud
Psicóloga Clínica
CRP 06/112988
www.maitehammoud.com.br

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*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Maitê Hammoud
Psicóloga Clínica, Formada pela Faculdades Metropolitanas Unidas, com curso de aperfeiçoamento em Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae. Atendimento de adolescentes, adultos e terceira idade. Vivência clínica com violência doméstica, transtorno de personalidade borderline, transtorno de estresse pós-traumático, psicossomática, processo e elaboração de luto, depressão, ansiedade, relacionamentos interpessoais, drogas, entre outros.