Por: Laila Wahab
Advogada e psicóloga especialista em Psicologias cognitivas

“Sem o amor que encanta, a solidão de um eremita espanta. Mais e mais espantosa é, todavia, a solidão de dois em companhia! ” -Ramon de Campo –

Nestes tempos de isolamento social, o diagnóstico a respeito dos relacionamentos dos casais fica evidenciado. Se há cumplicidade ou distanciamento, se há afeto ou indiferença. Dentro do ambiente familiar afunilado por restrições de isolamento social, fugir não tem para onde, tampouco mergulhar em trabalho resulta na almejada fuga inconsciente. Então….

Quando foi que ele ou ela mudou seu jeito de ser? Havia mais risos e motivos para partilhar alegrias? O que mudou?

Muitas vezes dizer exatamente o que sente ou o que mudou, pode ser difícil. Identificar ou até expressar adequadamente o que vai em seu íntimo, ou talvez medo de criar uma situação mais truncada, uma desconfiança, que afete ainda mais negativamente a relação, pode fazer com que o casal não converse sobre as dificuldades na relação. Fecham-se em si mesmos e não desfrutam a presença um do outro e as alegrias já conquistadas no relacionamento.

O distanciamento, a correria no dia a dia, interesses diversos, a falta de paciência. O distanciamento seja ele real ou imaginário, gerar angústia, sentimento de menos valia e desesperança em um ou em ambos. O que mais é afetado é o que mais ama? Talvez o que traga mais características de dependência, insegurança. Fato é que há alguém na relação que se sente deixado de lado por um comportamento que pode variar de silencioso, indiferente a agressivo.

As manifestações iniciais de seu parceiro começam a se tornar espaçadas, quando ligava várias vezes ao dia para perguntar se você estava bem, o que estava fazendo, se almoçou, etc. Ou mensagens de texto, uma gif engraçada, ou um “bom dia” musicado. O interesse era criar uma conexão que você lembrasse dele. Quando não atendido ou suprimido do afeto esperado, começam a despontar no horizonte sintomas de insegurança, resultado: menor contato físico, menos intimidade.

Quando o sentimento de insegurança em um dos dois se torna mais intenso, perguntas do tipo “você ainda me ama? ”, “Com quem você almoçou?”, “Onde esteve?”, “Por que demorou?” Podem perturbar a paz na vida familiar. Também é comum comportamentos dicotômicos, que vão de um extremo ao outro, como por exemplo, excesso ou total falta de preocupação com a aparência.

No cenário da insegurança, as respostas relativas a compromissos sociais ou profissionais sem a companhia do cônjuge, soam parecidas ou exatamente iguais a: “claro”, ou “como sempre”, ou ainda “que novidade !”.

Frases com provocações, ou atitudes desesperadas podem ser frequentes, na tentativa desesperada de manifestar insegurança e o medo latente de perder sua atenção. Nesse momento dizer ao seu companheiro(a) que seu sentimento de distância seja apenas “coisa de sua mente” certamente não auxiliará tampouco aliviará a tensão. Melhor é encarar e descobrir se de fato é real o distanciamento de sua parte e auxiliar a resolver esse problema.

O que fazer?

O ideal é perceber a tempo os primeiros sinais e não deixar chegar ao ponto das provocações. Se o seu parceiro precisou perguntar se você o ama, sinaliza que não está claro em sua mente, seja por falta de verbalizar ou por coisas que não demonstrem seu amor.

O distanciamento é o resultado de atitudes ou palavras descuidadas que ferem o outro, na relação conjugal, fazendo se sentir desvalorizado, negligenciado.

“Bored Couples” de Martin Perr, retrata casais desconectados. Martin Perr é um fotógrafo, cronista, que através de seu trabalho interessantíssimo, retrata a sociedade através de suas “críticas ilustradas”. Obviamente suas lentes captam casais separados não pelo divórcio ou distância, mas total falta de interesse um pelo outro.

“Bored Couples” de Martin Perr

Quando não há companheirismo os casais costumam substituir o vínculo e os momentos de alegria que estariam partilhando juntos, por algo ou alguém com quem julguem tão ou mais importante, seja: bares, amigos, trabalho, dinheiro, vícios etc.. Atualmente é muito comum terminarem se divorciando e recomeçarem algumas vezes com o mesmo comportamento levando a novo fracasso. Também não é incomum permanecer em um relacionamento marcado pelo afastamento emocional. As pessoas podem não mais amar o parceiro, mas ainda assim por medo, preferem estar ao lado dele do que sozinhas. E correrem o risco de fracassarem em um novo relacionamento.

Não se conhecer acaba dificultando todo o processo de descoberta do outro, abrir mão do individualismo, pode auxiliar na recuperação de um relacionamento.

Quando a relação que estamos vivendo nos desperta atenção, cuidamos e reforçamos o vínculo com aquela pessoa considerada especial, fazemos isso sem outra finalidade que não a de olharmos juntos para um futuro compartilhado. Infelizmente, muitos são os relacionamentos que começam quando os dois estão cheios de expectativas irreais, ou medos e inseguranças.

Ter consciência da existência desses momentos críticos, ou estar atento aos sinais que surgem no curso da vida a dois, pode nos ajudar a construir um relacionamento mais sólido, menos suscetível a desabamentos diante dos percalços que espreitam os relacionamentos dos casais.

A distância afetiva não é um sintoma somente do afastamento de casais, mas muitas das vezes uma forma utilizada por algumas pessoas como artifício de proteção, para não de deixar apanhar pelo outro, a quem não se sente seguro de se entregar. Ou por medo de sofrer, ou por razões de egocentrismos.

Nossos vínculos afetivos passam por diferentes fases, e é inevitável estar menos presentes em algumas situações. Nem sempre estamos dispostos a oferecer a nossa atenção, escuta e compreensão. Mas, é um ato de amor, ainda mais quando não se pede nada em troca denotando uma relação madura; onde existe a intimidade, a confiança, o carinho e o cuidado mútuo, sendo essas características básicas de um relacionamento verdadeiro.

O vínculo afetivo é a base onde tudo o mais acontece, fundamentalmente o amor flui, e os conflitos e as dificuldades são apenas desafios a serem ultrapassados em conjunto. Contudo, para a distância afetiva, ao contrário, os problemas e obstáculos não significam barreiras a serem vencidas, mas justamente são obstáculos ao amor, para que não se desenvolva.

Notadamente nos relacionamentos heterossexuais, homens e mulheres são diferentes, física e psicologicamente. Mulheres sentem dores terríveis durante o período menstrual, com humor que varia como montanhas russas, mulheres choram quando emocionadas, choram quando com raiva, ou quando amam. Mulheres querem conversar quando o homem chega em casa calado, querendo ler jornal tomar banho e conversar sobre assunto nenhum. Homens choram em final de campeonato de futebol quando seu time perde. Ou quando bebe muito com os amigos. Mas, tais “inimigos” farão das diferenças motivo para estarem juntos de um jeito muito interessante, feito um quebra-cabeça, onde cada um tem a peça que falta no outro.

É orgânico homens e as mulheres são diferentes, veem as coisas de forma distinta, com algumas exceções, essa tende a ser a regra. Com o passar do tempo, a rotina acaba por afetar o casal. As diferenças podem ser úteis, ser compatível não significa ser igual. Então não conclua que seu casamento foi um erro. Por esta razão a demonstração de afeto é tão bem-vinda, não só as mulheres gostam de se sentirem amadas e cortejadas, se bem que é o alimento nas relações humanas, mas o homem tenderá a valorizar a demonstração de afetos, caso contrário não terá entendido o significado do amor.

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