Há um bom tempo tinha a vontade de escrever sobre o importante tema do casamento e os votos que são feitos pelo casal. Não precisa ser nenhum especialista para saber que hoje em dia, cada vez menos as pessoas estão interessadas em se casar e as ilusões sobre casamento estão caindo por terra, o que é algo difícil de dizer se é bom ou ruim, pois a perspectiva muda para cada pessoa.

Quero fazer uma interessante crítica à forma estabelecida para os votos, mostrando que de certa forma, são eles que afugentam muita gente de assinar papéis e subir em altares…

O que me inspirou a escrever esse texto foram as palavras do grande filósofo e escritor suíço Alain de Botton, do seu livro “O curso do amor”, que recomendo a leitura a todos. Um livro super instigante, do início ao fim, que mostra sem floreios como são de fato os relacionamentos a dois, sem as ilusões mostradas nos filmes de Hollywood, que em sua maioria ou terminam com um “e foram felizes para sempre…”, ou com a morte de um dos dois! Já reparou nisso?

Vamos às palavras do livro…

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Nenhum de nós é especial. Casar-se com alguém, mesmo a criatura mais adequada, no fundo significa identificar por que tipo de sofrimento ainda estaríamos dispostos a nos sacrificar.

No mundo ideal, os votos de casamento seriam reformulados. No altar, o casal haveria de exprimir assim: “Aceitamos não entrar em pânico quando, daqui a alguns anos, o que estamos fazendo agora começar a parecer a pior decisão que tomamos na vida. Porém, também prometemos não sair procurando outra pessoa, pois reconhecemos que não pode haver outra alternativa melhor. Todo mundo é sempre impraticável. Somos uma espécie muito louca.”

Depois da solene repetição da última frase pelos presentes, o casal prosseguiria: “Vamos nos esforçar para ser fiéis. Ao mesmo tempo, temos consciência de que nunca poder dormir com outra pessoa é uma das tragédias da vida. Lamentamos que nosso ciúme tenha tornado tão necessária essa estranha mas sensata e inegociável restrição. Prometemos fazer um do outro o repositório único de nossos arrependimentos, em vez de distribui-los por uma vida de conquistas sexuais. Analisamos as diferentes alternativas de infelicidade e nossa decisão foi nos unirmos.”

Os cônjuges traídos não teriam mais a liberdade de se queixar furiosamente de eu esperavam que o parceiro se contentasse apenas com eles. Melhor, poderiam clamar de maneira ainda mais pungente e justa: “Esperava que você fosse fiel ao tipo específico de compromisso e infelicidade representado por nosso casamento, que foi tão duro de conquistar.”

Desse modo, um caso não seria uma traição de uma alegria íntima, mas de uma promessa recíproca de suportar as decepções do casamento com coragem e recato impassível.

Alain de Botton

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Achei magníficas suas palavras e a proposta obviamente teórica de mudança dos votos de casamento. Ao ler esse trecho de livro fiquei refletindo sobre o quanto é exatamente a maneira imperativa colocada no voto de casamento que deixa as pessoas com um medo terrível de casarem: “Prometo ser fiel na alegria, na tristeza, na saúde e na doença. Todos os dias da minha vida”.

Essa frase não dá nenhuma margem para o imponderável, ou seja, para as curvas que podem surgir no caminho, às mudanças de postura e mentalidade de um dos cônjuges, ou à perda da atração física pela outra pessoa.

Esse último ponto é extremamente delicado de tocar, mas alguém precisa ter essa coragem não é mesmo? Estou dando a cara pra bater nesse momento!

É bem mais comum do que pensamos, haver depois de alguns anos, a perda completa do interesse sexual pelo cônjuge, mas não a perda do desejo sexual interno. Principalmente por parte das mulheres, que infelizmente, por conta da nossa sociedade ainda ser muito machista, acabam se reprimindo em demasia.

O que estou dizendo é que muitas vezes a pessoa ama muito a outra, mas não com um desejo sexual. Na linguagem mais filosófica, aquele amor se transformou em amor filia, como se fossem dois amigos íntimos, que dividem tudo, menos o sexo.

Para muita gente se torna um impasse essa situação. No caso dos homens, grande parte decide se divorciar se isso acontecer, e os que são cafajestes ficam com vidas duplas, dividindo o tempo entre a esposa e a(s) amante(s). As mulheres, muitas continuam casadas, transando com o marido quase como se fosse pra “cumprir tabela”. Aprofundar essas questões dá pano pra manga. Não farei isso aqui para não deixar o texto longo demais!

Quero enfatizar mais a questão psicológica por trás da promessa feita nos votos. Você sabe que tudo que se proíbe tende a ser mais desejado não sabe? Basta ver as grandes proibições da sociedade: “Proibido venda de drogas para menores de 18 anos”, “Proibido colocar lixo nesse local”, “Proibida a entrada de menores de 18 anos”, “Proibido estacionar nesse local”, “Proibido ultrapassar pela direita”…

Você já viu alguma dessas proibições ser respeitada 100% das vezes por 100% das pessoas? Já sei a sua resposta! Parece que temos atração pelo proibido. Então minha sugestão é que não tornemos os votos de casamento uma proibição quanto à possibilidade de se relacionar com outra pessoa, mas como uma ESCOLHA. Eu ESCOLHO estar com outra pessoa porque sei que essa é a minha melhor opção.

Esta foi até uma das brilhantes falas que aprendi com o grande escritor e professor Gustavo Gitti. Ele disse uma vez num vídeo que assisti dele mais ou menos assim: “Casamento é você todos os dias ter um universo de possibilidades! Sair do trabalho podendo ir para onde quiser, mas você opta por voltar para a mesma casa todos os dias, porque sabe que lá é o melhor lugar para se estar…”.

Confesso que fiquei emocionado com a forma como ele falou isso! Dava pra perceber a sinceridade da sua fala e o seu olhar de ternura nutrido pela sua esposa. Com essa consciência, um casamento tem tudo para durar muito mais, quem sabe até mesmo a vida inteira.

Quero concluir citando um exemplo real de casamento que ocorreu um pouquinho fora dos moldes e me inspirou imensamente. Trata-se de um grande amigo dos meus pais que nos visita de vez em quando. Em uma das vezes que ele nos visitou contou um pouco sobre seu casamento e falou que na hora dos votos disse: “Prometo TENTAR ser fiel na alegria, na tristeza…..”. Daí o padre o interrompeu e as pessoas na igreja ficaram de olho arregalado! Perguntou pra ele: “Como assim tentar? Você tem dúvidas quanto ao desejo de casar com sua noiva?”.

Daí ele disse: “Muito pelo contrário! Nunca ansiei tanto por esse momento! Mas prometer algo de tamanha profundidade seria impossível. Não posso saber como eu serei daqui a 10, 15, 20 anos…”.

Daí o padre falou: “Entendi! Vamos prosseguir? Vou retornar do começo. Diga os votos às sua noiva…”.

“Prometo TENTAR ser fiel na alegria, na tristeza….”.

E desse TENTAR, eles estão juntos até hoje, cerca de 30 anos depois. Ele nunca a traiu por outra mulher e eles formam um casal maravilhoso. Eu tenho uma grande admiração por eles.

Que essa reflexão sirva para você tirar todo esse peso quanto aos votos de casamento, e se isso fez sentido para você e claro! Não tenha se casado ainda, considere tudo isso como uma possibilidade para fazer diferente e assim ser mais verdadeiro e realista! Garanto que esse minha proposta pode de fato ajudar a manter casamentos por muito mais tempo e com muito mais verdade entre os casais…

Imagem de capa: Shutterstock/IVASHstudio

 

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*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Isaias Costa
Bacharel em Física. Mestre em Engenharia Mecânica e Psicanalista clínico. Trabalha como professor de Física e Matemática, mas não deixa de alimentar o seu lado das Humanas estudando a mente humana e seus mistérios, ouvindo seus pacientes e compartilhando conhecimentos em seu blog "Para além do agora", no qual escreve desde 2012.