Já imaginou passar boa parte da sua vida sem saber de um dado importante sobre si mesmo? Pois foi exatamente este o caso do assistente de produção Jamesson Bueno França, de 29 anos, que por ter atrasos no desenvolvimento cognitivo e dificuldades de aprendizagem,  foi tratado boa parte da vida por médicos e psicólogos como um paciente com atraso mental, quando, na verdade, ele tem Síndrome de Down. O diagnóstico só se deu na sua vida adulta, aos 22 anos.

“Minha mãe, a Val, conta que a gravidez foi tranquila, que os ultrassons nunca constataram nenhum problema de saúde, os médicos diziam que estava tudo bem. Nasci no dia 5 de janeiro de 1990. Minha mãe diz que, aos três meses, eu parei de mamar no peito dela porque não tinha muita força para sugar. Ela notou que demorei para firmar o tronco e o pescoço, e tinha o corpo muito mole.”, conta Jamesson.

Ele conta ainda que, apesar de não ter nenhuma característica ou traço físico evidente, o pediatra suspeitou que, por causa dos sinais apontados pela mãe, ele tivesse síndrome de Down. Seu primeiro cariótipo foi realizado com oito meses, mas o resultado deu negativo.

“Ela sempre desconfiou que eu tivesse algum problema e comparou o meu desenvolvimento ao de um primo próximo. Ele andou primeiro do que eu, ele com 11 meses, e eu com 1 ano e oito meses.”

Ainda de acordo com Jamesson, sua mãe notou que ele tinha dificuldade de aprendizagem quando ele entrou na escola, aos sete anos. “Na leitura e na escrita até que eu ia bem, mas em exatas, meu desempenho era muito ruim. Até hoje tenho dificuldades para fazer contas simples de matemática.”

“Ela procurou vários médicos na tentativa de entender por que eu não me desenvolvia como as outras crianças. Eles diziam que eu tinha um atraso mental, mas não conseguiam fechar um diagnóstico.”, continua Jamesson.

“Na primeira escola em que estudei, fui para a classe especial. As professoram notaram que meu desempenho foi um pouco melhor do que o dos meus colegas. Elas sugeriram de eu fazer um teste e ir para a classe comum. Fui, fiquei da primeira à quarta série, não aprendi tanto quanto os outros alunos, mas consegui evoluir dentro do possível.”

O rapaz ainda detalha suas dificuldades na rotina escolar. “Como comia muito devagar, todos os dias, 15 minutos antes de o intervalo começar, a diretora me levava para a sala dela para comer e depois me deixava no recreio com os outros alunos. Não tinha muitos amigos próximos, mas todos me tratavam bem, nunca sofri bullying.”

“Na quarta série, precisei fazer fonoaudiologia por recomendação do pediatra porque falava muito rápido e as pessoas não conseguiam entender. Na quinta série, troquei de escola e continuei estudando em classe comum, mas tive muitas dificuldades e reprovei. Para não reprovar todo ano, passei a ser avaliado por um conselho. Os professores se reuniam e avaliavam o meu desempenho como um todo e não apenas as notas que tirava em provas e trabalhos.”

Segundo Jamesson, no ensino médio, sua professora de química achou que ele não aprendia por preguiça. “Ela achou que não me esforçava o suficiente. Ela chamava minha atenção para estudar. Isso me incomodava porque não conseguia entender a disciplina e mesmo assim ela insistia. Ficava chateado e não tinha vontade de ir à escola.”

A rotina em casa também não era nada fácil. “Era muito dependente da minha mãe e tinha dificuldade para fazer coisas básicas, como amarrar o cadarço e colocar a roupa do lado certo. Ela me levava à terapeuta para fazer testes psicológicos. A psicóloga trabalhava questões envolvendo minha autoestima e autonomia.”

Inseguranças na vida adulta

“Fazia natação, judô e teatro para me socializar e ser mais independente, mas quando cresci, minha insegurança aumentou. Tinha medo de atravessar a rua e de sair de casa sozinho.

Minha mãe sempre tentou descobrir o que eu tinha, ela sabia que havia algo de diferente em mim. Em 2013, ela ficou sabendo que os convênios passaram a cobrir alguns exames genéticos. Procurou uma geneticista, ela fez um exame clínico aprofundado e notou alguns traços bem leves de síndrome de Down.

Minha mãe disse que eu já tinha feito o exame quando bebê, mas a médica explicou que a medicina havia evoluído muito em 20 anos e pediu três novos exames. Os dois primeiros deram negativo e o terceiro confirmou o diagnóstico, do tipo translocação.

Descobri que tenho síndrome de Down aos 22 anos de idade. Aceitei numa boa, nunca me revoltei ou vi como algo ruim.

A notícia pegou toda a família de surpresa. A médica não indicou nenhum tratamento, apenas pediu para fazer um acompanhamento clínico periodicamente.

Escrevi um livro e namoro a Jaque, que também tem síndrome de Down

A partir do diagnóstico, me interessei mais por esse mundo e escrevi o livro infanto-juvenil “Sobrevivendo à Escuridão”. O livro conta a história de quatro amigos, dois com Down e dois sem, que passam por várias aventuras juntos. A mensagem do livro é chamar atenção para a inclusão social das pessoas com a síndrome na sociedade.

Nesse processo, encontrei a Associação Reviver Down e passei a participar de palestras e a ter mais contato com pessoas com a síndrome. Em 2018, a associação promoveu uma balada Down para os adolescentes. Não fui, mas minha mãe foi e conheceu a Jaqueline, minha atual namorada. Ela também tem síndrome de Down.

Uma colega comentou com a Jaque que tinha uma pessoa legal para apresentá-la, que gostava de ler e escrever como ela, mas ela foi categórica em dizer que não queria namorar.

Eu e a Jaque nos conhecemos na segunda balada. Nós conversamos de mãos dadas, dançamos e nos tornamos amigos. Alguns meses depois, a levei ao cinema e a pedi em namoro. Nosso namoro é como de qualquer outro casal. Quando estamos juntos, vamos ao shopping, cinema, restaurantes e balada.

Com o diagnóstico da síndrome de Down, minha vida só melhorou. Amadureci bastante e hoje sou uma pessoa mais segura. Estudei inglês, morei dois anos com minha mãe, meu padrasto e minha irmã em Londres. Em 2018, consegui meu primeiro emprego em uma multinacional, trabalho no setor de almoxarifado.

Estou com 29 anos e hoje tenho um entendimento melhor do meu eu, das minhas limitações e dos meus pontos fortes. O diagnóstico era uma resposta que faltava na minha vida.

Meu sonho é lançar meu livro para que a minha mensagem chegue a mais gente, para que tenhamos uma sociedade que acolha melhor as pessoas com Down, com mais respeito e menos preconceito”.

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Destaques Psicologias do Brasil, com informações de UOL Viva Bem.
Fotos: Reprodução/Arquivo Pessoal.

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