Por Carol Patrocínio

A gente quer alcançar objetivos, mas tem que ser do nosso jeito. Nós, enquanto sociedade, sem distinção de orientação política. Entre estar certa ou chegar onde se almeja queremos as duas coisas, como se não soubéssemos que escolher algo é sempre abrir mão do outro. Com o feminismo não seria diferente, afinal vivemos nesse mesmo mundo que nos ensina a sempre querer ganhar tudo que for possível. Existem mulheres feministas. Existem mulheres que não são feministas. Existem mulheres que têm uma atitude feminista pra caramba, mas não se nomeiam assim. Isso não deveria ser um problema. Nem todo mundo chama Joana, nem todo mundo enxerga o céu no mesmo tom de azul, mas todos podemos ser vetores de transformação. Não?

Para entender porque nem toda mulher tem obrigação de se dizer feminista a gente precisa entender que poder se dizer feminista, ainda hoje, é um privilégio. E que o contrário de privilégio é privação. Nem todas nós podemos levantar essa plaquinha por um motivo bem simples: precisamos pagar as contas e quem tem a grana do nosso salário nem sempre — ou quase sempre não — quer saber o que pensamos sobre o mundo.

Existem mulheres que não querem se dizer feministas. Existem mulheres que não podem se dizer feministas. Existem mulheres que realmente não se enxergam como feministas.
A gente está, mais uma vez, discutindo sobre nomenclaturas. Mas por que você não se identifica como feminista se isso pode tanto ME ajuda? Não é sobre o outro, é sobre nós. Sempre sobre nós. Sempre medindo o mundo por nós. Mas a verdade é que nem todo mundo é como a gente, nem todo mundo quer as mesmas coisas e mesmo quando quer, nem todo mundo escolhe o mesmo caminho. Lembra quando sua mãe dizia que você não era todo mundo? Bem, ela estava certíssima!

O ponto é: forças antagonistas não precisam de nome para criarem tensão.
O que vale mais? Eu me dizer feminista ou eu mudar as estruturas ao meu redor para que mais mulheres façam parte do jogo? Eu me dizer feminista ou eu lutar por lugares em situação de vulnerabilidade? Eu me dizer feminista ou contratar mulheres e LGBTs pra trabalhar comigo? Eu me dizer feminista ou eu escancarar o machismo em rede nacional apenas por existir e resistir naquele ambiente? Vale mais um grito militante ou um desenho despolitizado que explique bem a situação?

O importante é levar o nome ou mudar a realidade?

Não sei como é com você, mas tem tanta mulher por aí que se diz feminista e não me representa em nada, sabe? Tem tanta mulher que levanta a bandeira de uma maneira que eu nunca ficaria nem perto pra não acharem que penso igual. O que muda ela se dizer feminista ou não?

Se dizer feminista não é necessário porque o que conta não é o nome, é a atitude. Talvez a senhora do posto de saúde de uma borda de São Paulo, aquela que conversa com as meninas sobre sexualidade com respeito e cuidado, tenha uma postura muito mais efetiva do que milhares de mulheres das regiões nobres. Será que ela se diz feminista? Será que ela pensa nisso? Será que ela precisa de uma teoria que diga que ela está certa?

Viver é uma treta sem fim. Viver em ambientes majoritariamente masculinos é uma treta maior ainda. Ser mulher é uma barreira gigante. Se dizer feminista faz com que essa barreira cresça e fique ainda mais forte. Por isso é um privilégio. Quem tem conta pra pagar e barriga pra encher nem sempre pode ser dar certos luxos. E levantar uma plaquinha é um luxo. Enquanto a gente não notar nossos privilégios não vai ter notado de verdade a privação do outro.

Por que gastamos tanto tempo discutindo o uso de nomes e a semântica das coisas em vez de partir para a prática?

O feminismo, acreditem ou não, se tornou um movimento elitista e academicista. É cobrado que mulheres levantes bandeiras, mas elas precisam se encaixar em certos padrões para isso. Quantas mulheres não disseram o tão sonhado “sou feminista” e foram execradas depois? Quantos homens são metaforicamente apedrejados porque usaram a palavra? Ninguém quer saber quais são seus acertos, apenas apontar suas derrotas.

A gente vive em um mundo punitivista. A gente sente prazer em punir o outro simplesmente porque a gente é punido o tempo inteiro. É o troco. E a cada vez que uma pessoa é punida por tentar ela fica mais próxima de desistir. Seja mulher, seja homem, seja cis, seja trans, seja branco, preto, religioso ou não. Ninguém quer ter os erros apontados na cara. Então é mais fácil não entrar em um relacionamento sério com o feminismo sem saber se você dá conta disso.

Cobrar que todas as mulheres sejam feministas ou se digam assim, mesmo sabendo que vivemos em um mundo que pune quem vai contra a corrente, é no mínimo egoísta, é cruel e aprisionador. A gente pode mudar o mundo sem colocar uma etiqueta em nós.

Lembra quando a gente falava sobre liberdade?

Imagem de capa: Shutterstock/Rawpixel.com

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*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Carol Patrocínio
Carol Patrocinio é jornalista, feminista, mãe que educa sem gênero e duas vezes (2015 e 2016) indicada como uma das mulheres inspiradoras pelo site Think Olga. É também co-fundadora da Comum. Facebook: https://www.facebook.com/carol.patrocinio Medium: https://medium.com/@carolpatrocinio Newsletter: http://eepurl.com/b1pyhr