Em alguns lugares do mundo os casamentos são comemorados com tiros para o alto. Algumas horas depois da festa ouve-se novos tiros: significa que o noivo deu a notícia que a noiva era realmente virgem. Em alguns desses lugares meninas são levadas ao hospital depois dessa segunda salva: elas precisam de pontos porque as coisas foram tão violentas que o corpo não aguentou. Oscar Wilde disse que “tudo nesse mundo é sobre sexo, menos o sexo, porque sexo tem a ver com poder”. Mas não aqui. Não no Brasil.

A gente gosta de pensar que o desamor não existe por essas bandas. Que o poder não é algo pelo que lutamos diariamente em todas as nossas relações. Somos brasileiros, relax, paz e amor. Não, não somos. Somos uma sociedade em que o desamor tomou proporções tão grandes que está moldando a sociedade do jeito mais deformado possível. De uma maneira sem um pingo de beleza.

O desamor aqui começa no nascimento. “Pra fazer você não gritou”, dizem as enfermeiras. O bebê nasce e elas o levam para longe. Quando ele volta, é quase um estranho sendo colocado no seu colo. E ele chora. E faz cocô. E não consegue pegar o peito do jeito certo. E as pessoas ao redor olham feio porque ele chora e faz cocô e não consegue pegar o peito. É um bebê e já recebeu julgamentos que um adulto não conseguiria lidar. “Por que essa criança chora tanto?”

Passam-se alguns anos e é hora da escola. Ali você encontra gritos. Faça isso, não faça aquilo, fique quieto e em silêncio. Ninguém quer saber se ela dormiu bem, se comeu direito, se ouviu os pais discutindo sobre dinheiro ou despejo. Faça sua obrigação. Não tente ser diferente dos outros. Olhe para seus pés e siga a manada. Quem se destaca ganha desamor extra, afinal não devia ter provocado, não devia ter reagido. Não devia incomodar com sua existência.

A conta ganha alguns anos e é hora de se interessar mais por essa matéria do que por aquela. Não é coisa de menina. Não é coisa de menino. Você não devia estar aqui. Não devia se vestir assim. Peitos grandes demais. Pequenos demais. Bunda de menos. De mais. Curvas. Sem curvas. Cabelo chamando atenção. Você atrapalha os outros, faz com que percam o foco. Eles são mais importantes. Você é o diferente.

No mundo adulto tudo é ainda pior. Ninguém é bom o suficiente. O chefe grita. As ruas gritam. A polícia te para. Documento: seu, do carro, da casa, do celular, dos óculos escuros bonitos demais para você. Roupa errada, não importa a roupa. Atitude errada, não importa a atitude. Não acredita em deus? Não vai à igreja? Não quer casar? Não pretende ter filhos? É gay? Lésbica? Bissexual? Mas isso nem existe. Nasceu com pênis mas tem nome feminino? Tem uma vagina mas compra roupas do lado masculino da loja? É gorda? Tão magra que parece que usa drogas? Não pode. Não deve. Melhor ir embora.

E então a gente cobra tolerância e amor. Mas o pastor disse que é errado. A escola disse que é errado. O político disse que é errado. A TV disse que é errado. A novela disse que é errado. Disseram que podia apontar e rir. Disseram que podia bater. Disseram que era defender o que é certo. Disseram que cidadãos de bem não são assim. Disseram tantas coisas. Gritaram tantas coisas. Repetiram até que você acreditasse.

A mãe que não foi respeitada na maternidade não aprendeu a respeitar o filho, que foi desrespeitado na escola por um professor que não é respeitado pela sociedade, que não entende que todas as pessoas, concordem ou não em tudo, devem ser respeitadas. Desrespeito. Desamor. Descrédito. Falta de esperanças e de horizontes. Nada cresce em terra seca. E a gente está secando todas as terras ao nosso redor.

Não somos como esses países que dão tiros para o alto. Fazemos isso em silêncio enquanto nos abraçamos. Somos muito piores.

Imagem de capa: Shutterstock/ValeryMinyaev

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


Compartilhar

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS




Carol Patrocínio
Carol Patrocinio é jornalista, feminista, mãe que educa sem gênero e duas vezes (2015 e 2016) indicada como uma das mulheres inspiradoras pelo site Think Olga. É também co-fundadora da Comum. Facebook: https://www.facebook.com/carol.patrocinio Medium: https://medium.com/@carolpatrocinio Newsletter: http://eepurl.com/b1pyhr