Os profissionais de saúde precisam descer do salto

Definitivamente, os profissionais de saúde precisam descer do salto! É comum vermos Psicólogos e Psicanalistas acusando Médicos de serem obtusos, de não considerarem os aspectos subjetivos do sujeito, de tomarem o caminho da medicalização como solução única para o sofrimento humano, etc., etc. Por um lado, em muitos casos isso é a mais pura verdade. Por outro, não faltam Psicólogos e Psicanalistas que pautam o próprio trabalho pela crença monolítica de que toda e qualquer condição de adoecimento pode ser explicada subjetivamente. Tais profissionais psicologizam tudo, demonizam qualquer intervenção medicamentosa e qualquer processo de avaliação clínica não pautada em técnicas psicoterápicas. Só posso pensar uma coisa sobre tais profissionais – sejam Médicos, Psicólogos ou Psicanalistas – que eles são arrogantes e muito, muito pretensiosos! Só a arrogância e a pretensão podem explicar atitudes tão unilaterais e reducionistas do ser humano.

Recentemente, vivenciei um caso emblemático sobre isso: uma pessoa próxima, idosa, começou a apresentar sinais e comportamentos de paranoia, esquecimento, agressividade, fantasias de conotação sexual, e outros. Levamos a pessoa a dois Psiquiatras renomados (que também são Psicanalistas) e a dois Psicólogos referenciados como experientes no atendimento a idosos. Nenhum dos Psiquiatras pediu qualquer exame clínico, o que achei estranho! Passaram medicação e pronto, sequer agendaram novos encontros a fim de conversarem com paciente e familiares. O que entendo ser necessário para um aprofundamento no entendimento do quadro quando a demanda diz respeito a distúrbios de ordem cognitiva e emocional. Os Psicólogos iniciaram terapia sem encaminhar o paciente para um Neurologista, Gerontologista ou Psiquiatra, apesar de ser um paciente com mais de 80 anos, ou seja, sério candidato à demência.

Resumo da ópera: continuamos a procurar um profissional, defendi que era importante termos um parecer neuropsiquiátrico antes de definir como conduzir o caso. Enfim, conseguimos um profissional, Psiquiatra, que fez duas consultas iniciais com mais de uma hora cada com o paciente e com familiares; pediu inúmeros exames (de imageamento, laboratoriais, etc.). Diagnóstico: o paciente apresenta demência vascular, decorrente de vários micros AVCs no decorrer da vida que comprometeram regiôes frontobasais. O paciente precisa sim de medicação, mas não as óbvias receitadas pelos Psiquiatras anteriores. O paciente precisa sim de psicoterapia, mas não as óbvias conduzidas pelos Psicólogos anteriores. Ou seja, o paciente sofreu esse tempo todo na mão de profissionais que não se ocuparam de pensar no indivíduo como uma unidade formada por mente e corpo!

Como Psicóloga, quando um paciente apresenta qualquer sintoma que possa ter uma origem orgânica – não importa se é uma disfunção erétil ou distúrbio gastrointestinal – eu sugiro que ele consulte um médico para averiguarmos a existência ou não de causa fisiológica. Tenho a plena consciência de que não sei tudo, mas sei que até um distúrbio de sono pode ser causado por um problema odontológico! Não padeço da arrogância de achar que meus métodos de trabalho podem resolver tudo. Entendo que mesmo o tratamento de problemas estritamente psicológicos, dependendo do problema, pode ser muito mais eficaz com técnicas diferentes das que uso. Nenhum constrangimento, desconforto ou vaidade me impede de encaminhar um paciente a outro profissional, seja Médico, Odontólogo, Nutricionista, Fisioterapeuta, Fonoaudiólogo, Pedagogo ou Psicólogo. Sou o tipo de profissional que recorro à competência de outros caso eu perceba, sinta ou entenda que não tenho condições de ajudar o paciente, ou que preciso de ajuda para fazê-lo. Infelizmente, nem todos os profissionais agem assim. Quem paga por isso é o paciente, lógico! Paga material e emocionalmente.

A arrogância é uma praga! Ela quase sempre é fruto da ignorância, do desconhecimento das inúmeras variáveis que podem estar associadas a uma mesma situação. Ela é fruto da preguiça, da falta de vontade de estudar, de sair da própria zona de conforto para aprender mais e atualizar-se. Ela é fruto da vaidade, do sentimento de que estou acima dos outros e de que já sei tudo. Ela é fruto da insegurança, do medo de que o conhecimento e a expertise de outros profissionais roube minha fatia do mercado. Sobre isso tenho uma opinião: não se rouba mercado de um profissional competente, mas profissionais arrogantes roubam o direito do paciente de ser adequadamente atendido em suas necessidades. Afinal, quem não sabe a hora de descer do salto corre o risco de cair. Simples assim!






Psicóloga, Mestre e Doutoranda pela USP (SP). Especializada em Desenvolvimento de adultos, na experiência de Felicidade e nos estudos da Psicologia Social.