Psicóloga aponta equívocos na condução de caso de assédio no BBB23: “Damia foi revitimizada”

O BBB23 eliminou dois de seus participantes na noite desta quinta-feira (16). O lutador Cara de Sapato e o funkeiro MC Guimê deixaram o reality após assediarem a modelo Dania Mendez, que saiu do reality show mexicano ‘La Casa de Los Famosos’ para passar uns dias no confinamento da Globo. Nas redes sociais, muitos internautas apoiaram a decisão do programa, mas criticaram a maneira como a situação foi conduzida.

Um dos pontos negativos citados pelos internautas foi o fato de a direção do programa ter designado uma pessoa para questionar Damia se ela teria se sentido desconfortável com a interação dos outros participantes do reality durante a festa da noite anterior. As imagens registradas pelas câmeras do programa já poderiam comprovar o assédio, então questionar a vítima sobre a situação é não somente desnecessário como também um grande equívoco, visto que expõe a vítima a mais uma situação desagradável e coloca sobre ela o fardo de decidir ou não pela punição dos agressores. O resultado disso é que a modelo se sentiu acuada e negou o desconforto, talvez temendo ser responsável pelas consequências que os colegas de confinamento poderiam sofrer. Em nossa sociedade, é bastante comum que a vítima de uma agressão se sinta culpada pelo ocorrido, ou se negue a aceitar a gravidade da situação. Quem explica melhor a situação é a psicóloga e escritora Josie Conti, dona do site CONTI Outra.

“A naturalização do assédio é algo tão estrutural em nossa sociedade que, muitas vezes, a pessoa que o sofre pode não compreender imediatamente a gravidade do ato, assim como pode precisar de muito tempo – às vezes meses ou mesmo anos – para reconhecer que sofreu uma violência. Na maioria das vezes a vítima sente desconfortos que ainda não sabe bem como descrever e pode adoecer gradativamente. Séries como Maid, da Netflix, mostram como o processo da aceitação do abuso pode acontecer gradativamente e, como ocorre com a protagonista da série, à princípio, a pessoa pode nem mesmo se ver como uma vítima.”, explicou a profissional.

Para a psicóloga, outro possível equívoco na condução da situação pela direção do reality global foi ter comunicado a expulsão de Cara de Sapato e MC Guimé diante de todos os outros participantes, sem que houvesse um preparo para isso e um suporte psicológico para a vítima.

“Damia foi revitimizada ao não ser adequadamente preparada para a intervenção do programa que, embora tivesse o objetivo de realizar uma correção, não fez questão de preservar a vítima da surpresa. O que torna a situação ainda mais problemática é o fato de Damia estar sentada ao lado de seus assediadores enquanto a notícia da expulsão era transmitida. Um deles inclusive chegou a dirigir-se a ela questionando sobre o que ela tinha falado no confessionário. A falta de um preparo psicológico adequado para o anúncio permitiu que a vítima voltasse a culpa contra si mesma e se sentisse completamente desamparada ao se sentir responsável pela expulsão dos colegas.”, pontuou Josie Conti.

Para a psicóloga, o episódio ocorrido no BBB23 reflete a realidade de milhares de lares brasileiros. “O caso de Damia mostra algo muito similar ao que acontece diariamente com as mulheres que denunciam seus assediadores e são questionadas quanto às suas roupas, sobre por que aceitaram entrar em um carro, ou por que ainda namoram ou são casadas com a pessoa. A revitimização acontece entre os amigos, entre os parentes, e até mesmo na própria delegacia quando a vítima busca ajuda.”.

“A repetição do abuso, em suas mais diversas formas, não reconhece e nem valida a dor do outro e, para além disso, aumenta o mal estar ao fazer com que aquela pessoa reviva o trauma. Situações assim podem induzir muitas vítimas a não denunciar uma situação de assédio ou mesmo a resumir seu sentimento apenas a “vergonha de existir”. O resultado disso é a consolidação de um trauma e do sentimento de constante vulnerabilidade, uma vez que a pessoa entende que por mais esclarecida e orientada que seja, também tem que se manter forte para aguentar mais julgamentos e dedos em riste vindos da sociedade.”, continuou Josie.

“Suporte psicológico, apoio da família e amigos e conscientização pública são os pilares que precisamos reforçar para que as pessoas compreendam que casos como esses deveriam ser exceção ao invés de regra.”, finalizou a psicóloga.

Além de psicóloga, Josie Conti é também escritora. Seu mais recente lançamento literário é a obra de ficção “Todo Pé na Bunda nos Empurra para Frente“, que narra a trajetória de Diva, uma mulher jovem, bonita e bem-sucedida que precisa colar pedaços de um emocional em frangalhos após o fim abrupto de um relacionamento amoroso. Se utilizando de um humor ácido e inteligente, a obra propõe uma necessária reflexão acerca do papel exercido pela sociedade e pelas nossas primeiras experiências em família na construção dos padrões de compartamento que irão definir as nossas relações na vida adulta.

Josie também é criadora do projeto CONTI Comigo, que consiste em promover lives diárias no Instagram da CONTI Outra, com o intuito de discutuir os mais variados e relevantes assuntos relacionados à natureza humana.

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Foto destacada: Reprodução/Globoplay.






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