No Brasil, quando o assunto é envelhecimento saudável, via de regra, escorrega-se no mesmo blá blá blá estatista que tem atrasado o desenvolvimento desta nação por séculos. Nós, brasileiros, nutrimos a crença comodista de que as ações do Estado podem solucionar qualquer problema, e que somente o Estado pode melhorar as condições de vida das pessoas. Isso é um atraso para o processo de desenvolvimento individual e coletivo. É a cultura da dependência, da fantasia infantil de que o grande pai, ou mãe, cuidará de mim.

Haver um bom sistema de saúde, especialmente preventivo, pode melhorar as condições de saúde da população evitando ou retardando quadros de adoecimento desnecessários? Claro que sim! Haver educação de qualidade para todos pode gerar condições de vida mais salutares? Claro que sim!

Programas governamentais de conscientização e de informação quanto a práticas favoráveis a um estilo de vida saudável pode favorecer maior qualidade de vida para a população no processo de envelhecimento? Claro que sim! Mas há algo que é fundamental para um envelhecimento saudável e que depende única e exclusivamente do indivíduo: uma vida com propósito! E isso não é algo que o Estado possa fornecer.

Venho estudando o Desenvolvimento Adulto desde que iniciei o meu Mestrado, ainda no Departamento de Neurociências da USP, ou seja, há 19 anos! No meu consultório atendo essencialmente adultos com mais de 30 anos há 15 anos. Com isso, venho acumulando alguma experiência, tanto teórica quanto prática, no entendimento de dois processos psicológicos inerentes ao Desenvolvimento Humano: a adultez e o envelhecimento. Uma das constatações mais interessantes que tenho feito nesse tempo é a de que o envelhecimento saudável depende enormemente de a pessoa encontrar significado para a própria existência.

E não falo de significados herméticos, complexos e antológicos. Falo do significado que a vida cotidiana adquire quando temos a sensação de que nossa existência viabiliza a realização de algo. Esse algo pode ser o crescimento de um neto, a manutenção dos laços familiares e/ou comunitários, o cultivo de uma horta, o voluntariado em uma associação religiosa ou laica… Enfim, envelhecer saudavelmente tem muito mais a ver com sentir-se parte da teia da vida do que com excelentes condições materiais.

Nesses anos de prática clínica e de pesquisa sobre o Desenvolvimento Adulto encontrei pessoas pobres e ricas, educadas e analfabetas, belas e feias, saudáveis e adoecidas. Com isso, tenho aprendido que nenhum dos parâmetros que costumamos associar a uma velhice saudável, tais como disponibilidade de recursos materiais, escolaridade formal, corpo malhado, etc., se mostraram preditores confiáveis de um envelhecimento ótimo. Minha satisfação com o que constato na prática clínica e nas pesquisas que faço é que minhas observações encontram eco em estudos realizados em todo o mundo.

O mapeamento das comunidades mais longevas do mundo mostra que há similaridades no estilo de vida dessas populações, independentemente de sua localização geográfica ou background cultural. E olha que são populações muito distintas: vivendo em uma ilha no Japão, em uma Vila no sul da Itália ou em uma comunidade de Adventistas nas Montanhas Rochosas dos EUA! O que essas populações têm em comum? O que elas fazem para viver muito, e bem?

As pessoas nas comunidades mais longevas do mundo comem poucas quantidades de comida e têm uma dieta diversificada. Basicamente, se alimentam primordialmente de vegetais, cereais integrais, peixes e carnes brancas. Não consomem alimentos industrializados, congelados, enlatados, etc. Comem comida fresca, preparada em casa e na hora da refeição. As pessoas nessas comunidades se exercitam diariamente. Não, elas não frequentam academias, elas não têm “personal“, elas não correm maratonas…

Elas realizam as atividades físicas que envolvem os movimentos naturais do corpo humano. Como? Por exemplo: ao invés de utilizar uma batedeira para bater um pão ou um bolo, elas batem na mão usando a musculatura e as articulações de braços, ombros, cintura, etc. Ao invés de ir ao templo ou à casa de um vizinho de carro, vão a pé. Caminham muito, muitas horas por dia entre as idas e vindas das tarefas cotidianas. Cultivam hortas, cuidam da manutenção de suas casas, e coisas do tipo.

As pessoas nessas comunidades têm vida social. Não, elas não frequentam eventos da moda, baladas e rodas de amigos em bar. Elas convivem com seus familiares e vizinhos em situações do dia a dia que envolvem ações coletivas, interações corriqueiras, eventos festivos, ajuda mútua, trabalho em prol da comunidade, etc. As pessoas nessas comunidades longevas e saudáveis têm fé!

Não necessariamente elas frequentam assiduamente uma Igreja ou Templo, ou encenam determinados ritos religiosos regularmente. A fé dessas pessoas é expressa em uma condução de suas vidas pautada por princípios morais e éticos atrelados a algum tipo de crença que as fazem se sentir conectadas a algo que transcende a vida ordinária.

As populações mais longevas e saudáveis do mundo vivem em regiões distantes dos centros urbanos, com um estilo de vida muito simples e sem a dependência de recursos tecnológicos, muito embora possam ter acesso a eles e utilizá-los no dia-a-dia. Você não acredita? Comece a prestar atenção aos idosos que você conhece. Quantos idosos que vivem na roça você conhece? Quantos na cidade? Quais são os mais saudáveis, os da roça ou os da cidade?

Na minha experiência pessoal tenho observado que na roça há bem menos idosos dementes, com Alzheimer ou outras doenças neurodegenerativas. Ao passo que na cidade a maioria absoluta dos idosos que conheço são acometidos pelas chamadas doenças do envelhecimento. Envelhece-se mal nos centros urbanos! Tanto física quanto emocionalmente. E não é apenas minha percepção, estudos diversos apontam para o fato de que os moradores de Centros Urbanos são mais suscetíveis ao adoecimento mental do que os de zonas rurais.

Na roça os idosos mantêm um ritmo de vida ativo, cuidam de plantas e animais, cuidam da própria casa, nutrem os vínculos familiares, sociais e comunitários nas interações diárias, etc. E dispõem de bem menos recursos estatais no seu cotidiano do que os da cidade. Ou seja, não me parece ser a presença do Estado o grande diferencial no envelhecimento mais saudável dos idosos das zonas rurais. Assim como ocorre com as populações mais longevas do mundo.

Acredito que, no Brasil, especialmente entre as pessoas dos centros urbanos, tende-se a ver o trabalho como algo próprio da juventude. Mais do que isso, nós, brasileiros, tendemos a lidar com o trabalho como se ele fosse um peso, um castigo. Algo do qual devemos nos livrar assim que pudermos! Neste país a maioria dos moradores das cidades sonham com a aposentadoria e com o tempo ocioso que ela promete. Sonha-se com uma vida de nada fazer, de tempo livre contínuo, de ausência de obrigações, de lazer ininterrupto. Essa vida é a receita do adoecimento físico e mental.

Acredite-me! Em países com populações de idosos mais saudáveis é incomum velhos ociosos, que não estão envolvidos em alguma ação produtiva, seja um hobby, um trabalho voluntário, uma atividade cultural, etc. No Brasil, é comum vermos idosos que rejeitam qualquer envolvimento com atividades produtivas, que preferem passar seus dias de aposentadoria “medindo rua” ou em frente à televisão do que se engajar em alguma tarefa que requer compromisso, prazos e horários.

Diferentemente dos idosos brasileiros, os habitantes das ilhas Ryukyu, no Japão, por exemplo, integram uma das populações mais longevas e saudáveis do mundo! Curiosamente, esses japoneses da região de Okinawa têm uma palavra que, na opinião deles, descreve o porquê de sua saudável vida longa: IKIGAI

Ikigai pode ser entendido como a razão pela qual eu acordo todas as manhãs. Nessa perspectiva, se fossemos resumir os motivos pelos quais algumas pessoas vivem mais e melhor do que outras, poderíamos dizer – Não importa quantos anos você viva, se você quer ser saudável no seu tempo vivido tenha motivos para viver.

Tenha um propósito para a sua vida, tenha uma razão pela qual você queira se levantar da cama todas as manhãs. Ocupe-se de algo produtivo, seja mais do que um corpo que busca satisfação com pequenos e transitórios prazeres. Isso não apenas te ajudará a viver mais e mais saudavelmente. Isso também te ajudará a ser mais feliz…

…Principalmente, não se iluda achando que a felicidade é unicamente a maximização de emoções e sensações prazerosas e alegres! A felicidade consistente e duradoura tem a ver com se engajar nas tarefas da vida cotidiana, tem a ver com encontrar suas forças, seus pontos fortes e talentos e usá-los em favor de algo maior, algo que te faça sentir que a vida que você vive vale a pena.

Que vale a pena porque contribui para o bem, tanto individual quanto coletivo. Que vale a pena porque te possibilita desenvolver e vivenciar suas potencialidades. Que vale a pena porque faz sentido para você. Não sem razão, o que as investigações científicas em torno da felicidade têm comprovado, até o momento, é que pessoas felizes tendem a viver mais, e mais saudavelmente.

Para resumir a ópera: a qualidade do seu envelhecimento dependerá fundamentalmente de como você conduz a sua vida, de como você se cuida, de como cuida do seu entorno e daqueles que dele fazem parte. Há estudos que chegam a atribuir até 90% da qualidade do envelhecimento ao estilo de vida da pessoa, e apenas 10% a fatores genéticos. Os estudos mais modestos e cautelosos advogam que como envelheceremos depende 50% dos nossos genes e 50% do nosso estilo de vida. O fato é que nós somos os principais responsáveis por como envelheceremos, assim como somos por como vivemos.

Ninguém pode viver nossa vida por nós ou fazer nossas escolhas, muito menos o Estado!

Imagem de capa: Shutterstock/Ruslan Guzov

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Angelita Corrêa Scardua
Psicóloga, Mestre e Doutoranda pela USP (SP). Especializada em Desenvolvimento de adultos, na experiência de Felicidade e nos estudos da Psicologia Social.

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