Podemos pensar que somos “condenados” a viver, pois habitar esse mundo não é uma escolha nossa antes de nascer.

O próprio nascimento é em si, frustrante e doloroso, pois nos convida a sair de uma situação de aconchego e conforto que é a morada do útero materno e aprender, minuto a minuto, dia a dia, a suportar as angústias que a própria
existência nos traz. Vamos então construindo relações: primeiro com a mãe ou com o cuidador que desempenha este papel, depois com o pai, os irmãos, vizinhos, amigos, professores, chefes, parceiros conjugais, filhos, netos e assim por diante…vamos tecendo vínculos, aprendemos a cultivar hábitos, costumes, valores de vida e formas de enxergar o mundo.

Neste percurso sentiremos fome (não só de alimento mas também de afeto), sede, frio, calor, medo e dor. Aprenderemos a saborear a vida, a identificar palavras, cores, aromas, texturas…Desbravaremos lugares, conheceremos coisas e pessoas e nos apegaremos (ou não) a elas. E, principalmente, vamos sofrer para nos adaptar às transições e transformações que cada fase da vida nos impõe, pois toda mudança é perturbadora.

Pode ser que neste percurso vivenciaremos emoções muito difíceis de entender, de organizar em nossa mente e de superar: os excessos e traumas. À medida que vamos crescendo e descobrindo um pouco mais de nós, de nossas vontades, de nossas capacidades, de nossas habilidades, passaremos a fazer escolhas ou até mesmo a fugir delas (o que não deixa de ser uma escolha também).

Perceberemos, ainda, que toda expectativa depositada no outro não nos oferecerá garantias e que somente poderemos controlar a nós mesmos. De repente, no meio do percurso algo poderá nos paralisar, nos aprisionar, nos submeter àquilo de pior que podemos desejar e então teremos vontade de voltar ao útero…

Mas, isso não será possível. A vida não tem volta. Podemos virar a página, mas não arrancá-la. Podemos fazer novas escolhas, mas não apagar as velhas. Podemos seguir em frente ou deixar-nos consumir por nossos fantasmas e monstros
(a maior parte deles foi criado por nossa mente). Neste momento de intenso desamparo e sofrimento existem muitas alternativas fora de nós, as quais podemos recorrer para anestesiar-nos da nossa vida e de nós próprios: substâncias lícitas (medicamentos diversos) e ilícitas (álcool, drogas), atos e situações que nos machucam e que nos fazem entrar em contato com o nosso lado mais sombrio.

Porém, existem também outros recursos que podem nos ajudar a expressar e a compartilhar a nossa dor: a arte, a música, a família, os amigos, os lugares desconhecidos…enfim, existem oportunidades de também entrar em contato com a melhor parte de nós. A psicoterapia é um deste recursos. Trata-se de buscar saídas não fora, mas dentro de nós: um momento dedicado ao nosso “eu”, um convite a nos (re)visitar, que nos provoca a pensar, a olhar para trás e para frente e a transformar
a única coisa que está nas nossas mãos: o agora.

Agora mesmo eu posso decidir se desejo considerar a única vida que eu tenho neste momento como uma sentença e um fardo pesado a carregar ou, se desejo usufruir desta vida como um presente que eu posso aproveitar à minha maneira, apesar dos pesares.

De que modo você escolhe viver?

Imagem de capa: Shutterstock/Rawpixel.com

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Audrey Leme
Psicóloga Clínica de abordagem psicanalítica; Atualmente atende em consultório particular e no Dispensário Madre Tereza de Calcutá na cidade de Limeira-SP; ministra palestras para a comunidade com temáticas voltadas ao desenvolvimento humano. Também possui formação em Administração de Empresas e experiência na área de RH (Recrutamento & Seleção e Treinamento e Desenvolvimento).

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