Dados de uma pesquisa de setembro de 2016, encomendada pelo governo do Japão, apontam que cerca de 42% dos homens e 44,2% das mulheres do país, com idades entre 18 e 34 anos, ainda são virgens. O fenômeno foi batizado pela mídia como ‘Síndrome do Celibato‘.

Os dados causam preocupação no governo do país da Ásia Oriental, afinal o medo de extinção é algo que há tempos vêm assombrando os japoneses. A nação enfrenta uma das menores taxas de natalidade do mundo, com uma população de 125 milhões que apenas diminui na última década, devendo cair mais um terço até 2060.

Em entrevista à CNN, a professora de diplomacia pública da Universidade de Estudos Estrangeiros de Kyoto, Nancy Snow, explicou que as mudanças nas normas sociais e econômicas explicam, em parte, a diminuição das relações interpessoais.

No caso das mulheres, a aversão ao casamento e à vida na modernidade se justifica pelo fato de que, desde o período de Edo (que vai do ano 1.603 até 1.868), as mulheres repetem o mesmo velho ditado japonês: “O casamento é a sepultura de uma mulher”. Este foi cunhado para se referir ao longo histórico de esposas ignoradas e trocadas por amantes. Na reinterpretação moderna, o túmulo é visto como suas carreiras duramente conquistadas, em meio aos índices de desigualdade de gênero no Japão.

“Os chefes supõem que você vai engravidar”, disse Eri Tomita ao The Guardian sobre quando uma mulher assume o status de um casamento. O Japão foi classificado pelo Fórum Econômico Mundial como um dos piores países do mundo em igualdade de gênero no trabalho.

“Um namorado me pediu em casamento há três anos, mas eu recusei quando percebi que me importava mais com o meu trabalho. Depois disso, perdi o interesse em namorar”, contou ela, que trabalha em um banco francês no departamento de Recursos Humanos. Tomita disse ainda que a demissão é uma via de mão única no momento em que uma mulher tem um filho, por conta do horário e políticas inflexíveis de qualquer empresa, sem contar a pressão social.

(Fonte: Juan Salmoral/Reprodução)

Segundo uma matéria da BBC publicada em 2013, cerca de 70% das mulheres japonesas abandonam seus empregos depois de terem o primeiro filho, e a demonização social tem um papel fundamental nessa decisão. Mulheres casadas que trabalham e tem famílias são chamadas de oniyome, um termo pejorativo em japonês para dizer “esposas do diabo”.

A própria estrutura social histórica japonesa propagou a percepção de que o casamento existe com o único propósito de gerar filhos ao país, e essa ideia persiste nos dias atuais. Dados do Instituto de População e Previdência Social do Japão mostram que 90% das mulheres jovens acreditam que seja esse o objetivo do casamento.

O casamento ainda pode significar um fardo, com custos altíssimos, em face à compra de propriedades e gastos com o planejamento de um futuro e a criação dos herdeiros. Soma-se a isso a persistente expectativa da sociedade, do cônjuge e dos familiares para que a relação dê certo, o que resulta em índices elevados de ansiedade social, depressão, suicídio ou isolamento social — hikikomori, mais um dos problemas enfrentados pelo Japão.

No caso dos homens, a síndrome do celibato acaba atingindo no que é esperado de uma figura masculina, sendo o senso de identidade de alguns conectado ao faturamento por mês.

“Os homens estão ganhando cerca de um terço da metade do que costumavam ganhar durante os anos de boom econômico na década de 1980”, explicou Snow. E, de acordo com ela, os homens acabam se sentindo inferiores, ameaçados pelas mulheres que lutaram para se fortalecer e ocupar posições de destaque, não se vendo mais como úteis no campo social.

(Fonte: amirijina/Flickr)

Os homens japoneses têm incorrido em uma espécie de rebelião passiva contra a masculinidade tradicional japonesa e a pressão esmagadora que os afeta, em meio à recessão e aos salários instáveis do país. Também entrevistado pelo The Guardian, Satoru Kishino contou que sente uma obrigação de ser um tipo de guerreiro econômico por uma esposa e uma família. “É muito problemático. Eu não ganho um salário alto para ir a encontros, e não quero a responsabilidade de uma mulher esperando que isso leve ao casamento”, confessou ele.

Com o intuito de tentar resolver esse problema social, foram criados grupos de apoios, como a White Hands, uma organização sem fins lucrativos sediada em Tóquio. Para homens e mulheres, também foi criada a profissão “ajudante do sexo” — que em nada tem a ver com a parte prática da coisa —, mas sim em entender e tentar amenizar o sintoma ou ideia de ansiedade das pessoas cà respeito das relações íntimas.

No entanto, para pessoas como Tomita e Kishino, que estão bastante cinvictos de suas vontades ou estilos de vida, isso está muito além de uma noite de prazer na cama de alguém.

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Destaques Psicologias do Brasil, com informações de Mega Curioso.
Imagem de capa: Sushicam/Flickr

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